As britadeiras chegaram antes dos jogadores. Meses antes de qualquer seleção pisar no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, operários demoliam fileiras inteiras de arquibancadas de concreto que haviam resistido por décadas a invernos do nordeste americano e às explosões sonoras dos torcedores do Philadelphia Eagles. A Copa do Mundo de 2026 exigia outra geometria — e a geometria não negocia.
Onze estádios da NFL nos Estados Unidos foram selecionados pela Fifa para receber jogos do torneio que começou em 11 de junho. Todos eles foram erguidos para um esporte diferente, com um campo diferente, pensados para uma outra lógica de espetáculo. O futebol americano ocupa uma área equivalente a cerca de 75% a 80% de um campo de futebol padrão — e esse percentual restante, aparentemente pequeno, custou fortunas para ser resolvido.
O que Frank Gummieny precisou demolir na Filadélfia
Frank Gummieny, diretor de operações do Eagles, a franquia local da NFL, foi direto ao ponto quando perguntado sobre o custo da adaptação do Lincoln Financial Field, estádio com capacidade para 69 mil pessoas.
"Elas foram instaladas no ano passado para a Copa do Mundo de Clubes. Agora, é preciso apenas uma semana para movê-las para dentro ou para fora", disse ele à AFP, referindo-se às estruturas metálicas que substituíram as antigas arquibancadas de concreto nos cantos e nas fileiras da frente do estádio. O processo inicial, porém, custou alguns milhões de dólares — e foi irreversível na sua primeira fase: o concreto foi abaixo.
A lógica se repetiu, em diferentes escalas, pelos outros dez estádios americanos. No SoFi Stadium, em Los Angeles — inaugurado em 2020 e com capacidade para 70 mil espectadores —, foram removidos 100 assentos de cada canto para acomodar um campo com dimensões regulamentares. Duas fileiras adicionais em dois dos cantos de escanteio também saíram. No estádio de Kansas City, no Missouri, a remoção foi ainda mais radical: 10 fileiras de assentos foram eliminadas para ampliar a área do campo. Reparemos no detalhe: a Fifa queria, originalmente, campos com 80 metros de largura. Nenhum dos estádios conseguiu chegar lá. A solução negociada foi um padrão uniforme de 105 metros de comprimento por 68 metros de largura — aplicado em todos os estádios americanos da Copa.
"Acredito que eles mantiveram uma excelente colaboração conosco e com os estádios da NFL para perguntar: 'Até onde podemos ir?'", disse Otto Benedict, vice-presidente de operações da empresa que administra o SoFi Stadium, resumindo com elegância diplomática o que foi, na prática, uma série de concessões mútuas entre a burocracia suíça da Fifa e a engenharia americana.
A ciência dos gramados que John Trey Rogers passou seis anos desenvolvendo
Se a demolição das arquibancadas foi o problema mais visível, o gramado foi o mais complexo. Oito dos 16 estádios anfitriões do torneio — que se estende também pelo Canadá e pelo México — normalmente operam com grama sintética, aquela superfície plastificada que a NFL prefere pela durabilidade e pelo baixo custo de manutenção. A Fifa não aceita sintético em Copas do Mundo. Ponto final.
John Trey Rogers, professor de pesquisa de gramados na Universidade Estadual de Michigan, foi o especialista escolhido para resolver esse impasse nos 16 locais do torneio. Ao lado de John Sorochan, ex-aluno e hoje professor de ciência e manejo de gramados na Universidade do Tennessee, Rogers passou seis anos — desde o final de 2020 — desenvolvendo soluções para cada microclima envolvido.
"A Fifa quer que os jogos mais importantes sejam disputados em grama natural, porque os melhores jogadores do mundo terão mais controle e mais conforto em uma superfície de grama natural, na qual jogam desde sempre", explicou Rogers. O desafio, porém, era que cinco estádios possuem cúpulas — e sob cúpulas, mesmo com grama plantada, a luz solar não chega em quantidade suficiente para manter o gramado vivo por semanas de competição intensa.
No NRG Stadium, em Houston — rebatizado pela Fifa como Houston Stadium durante o Mundial —, foram reativados sistemas de irrigação subterrâneos e desenvolvidas soluções híbridas de gramado capazes de suportar o calor e a umidade características do sul dos Estados Unidos no verão. Cada estádio recebeu uma solução específica, calibrada para seu clima local e para sua estrutura de cobertura.
A identidade que precisou ser apagada para o torneio acontecer
Há algo quase poético — ou perturbador, dependendo do ângulo — no fato de que estádios construídos como templos de uma cultura esportiva específica precisaram apagar sua própria identidade para receber o maior torneio do planeta. Logotipos do Eagles no Lincoln Financial Field, marcações de jardas no gramado, sinalização interna com a linguagem do futebol americano — tudo isso foi substituído pela iconografia padronizada da Copa do Mundo. As cores das franquias cederam espaço à paleta visual da Fifa.
Essa transformação não é apenas estética. Ela representa uma negociação entre dois mundos que raramente se olham: o futebol americano, com seu modelo de negócios fechado e sua gramática visual muito particular, e o futebol, com sua universalidade ruidosa e suas exigências técnicas inegociáveis. Os 104 jogos que serão disputados ao longo de seis semanas entre Estados Unidos, México e Canadá dependeram, em parte, da disposição dos donos de franquias da NFL em aceitar que seus estádios se tornassem outra coisa — ao menos temporariamente.

O Lincoln Financial Field recebe seus primeiros jogos da Copa com arquibancadas metálicas onde havia concreto, gramado natural onde havia sintético, e placas em inglês, espanhol e português onde havia apenas o jargão do futebol americano. Para quem quiser acompanhar de perto essa transformação em campo, os jogos na Filadélfia seguem o calendário da fase de grupos até o final de junho — e vale assistir com atenção especial às câmeras que mostram os cantos do estádio, exatamente onde a demolição aconteceu.











