Confesso: eu errei sobre Ancelotti em 2024. Quando o italiano assumiu a seleção brasileira, escrevi aqui mesmo no SportNavo que ele jamais conseguiria montar um sistema coerente com tantos atacantes de alto nível no mesmo elenco — que a riqueza ofensiva viraria um problema de gestão, não uma solução tática. Hoje, às vésperas do amistoso contra o Egito, neste sábado (6) às 19h no Huntington Bank Field, em Cleveland, vejo um técnico que não apenas administra esse embaraço de talentos como o usa deliberadamente como laboratório. O que ele vai testar hoje diz mais sobre o Brasil que vai à Copa do que qualquer declaração coletiva.

A questão que Cleveland vai responder sobre o ataque brasileiro

Quatro atacantes ou três? A resposta de Ancelotti ainda não veio.

Durante a semana de preparação nos Estados Unidos, o treinador italiano oscilou entre dois desenhos ofensivos nos treinamentos. Numa versão, escalou Igor Thiago centralizado como camisa 9 clássico — posição que Ancelotti vinha deliberadamente evitando —, com Vinicius Jr. pela esquerda e Raphinha pela direita. Na outra, manteve o 4-2-4 que já se tornou marca registrada do ciclo, inserindo o jovem Rayan no quarteto de frente. São duas filosofias distintas: uma com referência fixa na área, outra com mobilidade total e sem pivô. Nenhuma das duas é errada. As duas são, ainda, hipóteses abertas.

O que torna Igor Thiago uma mudança estrutural — e não apenas uma variação de pessoal — é o que os analistas chamam de expected goals on target (xGOT), uma métrica que mede a qualidade das finalizações que realmente exigem o goleiro. Centroavantes de referência geram xGOT consistentemente acima de 0,15 por chute, porque finalizam de posições mais centrais e próximas ao gol. Numa equipe que historicamente finalizava muito de fora da área, a presença de um 9 fixo altera geometricamente onde os gols podem nascer. É essa equação que Ancelotti está tentando resolver em Cleveland.

Ao redor do centroavante, os nomes são os de sempre — e é justamente aí que está a riqueza do problema. Rodrygo, Raphinha, Endrick e Rayan disputam espaço com Vinicius Jr., o único praticamente intocável no setor ofensivo. O técnico já avisou que usará Weverton no gol, poupando Alisson, o que confirma o caráter experimental do jogo — mas o ataque, por mais galáctico que pareça no papel, ainda precisa provar que funciona como unidade.

As dúvidas que vêm de trás e incomodam mais do que parece

A defesa é onde o Brasil ainda não tem resposta para a Copa.

A goleada por 6 a 2 sobre o Panamá no Maracanã, no último dia 31, teve uma leitura dupla: os reservas construíram o placar, mas o time titular penou durante todo o primeiro tempo. E é o time titular que vai à Copa. Marquinhos e Gabriel Magalhães disputaram a final da Liga dos Campeões no sábado anterior — o zagueiro do Arsenal, em particular, chegou aos EUA com desgaste físico visível. Por isso, Léo Pereira treinou entre os titulares durante a semana em Cleveland.

Na lateral esquerda, o nome que surgiu foi Douglas Santos. Ancelotti o escalou como titular nos treinamentos de quarta, quinta e sexta-feira, empurrando Alex Sandro para o banco. À direita, Wesley mantém a posição, mas o técnico também experimentou Danilo naquele setor na quarta-feira, com Wesley atuando mais aberto e avançado pela esquerda — função próxima à que ele desempenha na Roma. São experimentos que revelam inquietação, não convicção.

O meio-campo permanece como a espinha dorsal mais estável do time: Casemiro e Bruno Guimarães são fixos no 4-2-4, embora Ancelotti tenha testado uma formação com três homens no setor na quarta, com a entrada de Paquetá. No dia seguinte, voltou ao esquema preferido. A mensagem implícita: o meio não muda, mas pode mudar.

O Egito que chega invicto e com Salah em modo Copa

O adversário desta noite não é figurante — e a comissão técnica egípcia sabe disso.

O Egito chegou a Cleveland com uma credencial que poucos notaram: classificou-se para a Copa de forma invicta, liderando o Grupo A das Eliminatórias Africanas com oito vitórias e dois empates — 26 pontos, cinco a mais que Burkina Faso, com 20 gols marcados e apenas dois sofridos. Mohamed Salah foi o protagonista absoluto, marcando nove dos 20 gols da campanha. Ao lado dele, Omar Marmoush, do Manchester City, completa uma dupla de ataque com peso europeu real.

O jornalista Hossam Mostafa, editor-chefe do jornal egípcio Btolat, foi direto ao avaliar o amistoso:

"O resultado não irá mudar em nada a preparação. Existiu uma atenção especial para assistir ao jogo do Brasil contra o Panamá, mas todos no Egito acreditam que podem ter uma boa atuação contra a Seleção. O Brasil sempre é um dos favoritos para ganhar a Copa."

A confiança egípcia tem fundamento tático: a linha defensiva do time comandado por Hossam Hassan é apontada pelo próprio jornalista como o ponto fraco —

"Provavelmente a linha de quatro defensores"
—, mas isso significa que o Egito tende a jogar em bloco baixo e explorar transições rápidas com Salah e Marmoush. Exatamente o tipo de adversário que testa a solidez defensiva brasileira que ainda está em construção.

A questão que Cleveland vai responder sobre o ataque brasileiro Como Ancelotti v
A questão que Cleveland vai responder sobre o ataque brasileiro Como Ancelotti v

O ambiente interno do time africano também tem suas turbulências: o zagueiro Ahmed Hegazy recusou entrar num amistoso contra Cabo Verde, e o atacante Mostafa Mohamed, do Nantes, acumulou atritos com o técnico Hossam Hassan até ser cortado da lista final de 26 jogadores. Copa começa antes do apito inicial.

O Brasil estreia no Mundial no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O que acontecer em Cleveland esta noite — qual formação Ancelotti efetivamente vai a campo, se Igor Thiago confirma a titularidade, se Douglas Santos segura a lateral — vai moldar as últimas decisões do italiano antes de um jogo que o Brasil não pode começar tropeçando.