3 idiomas, 3 continentes representados, 1 música oficial — e uma cantora brasileira no centro de tudo isso. A cerimônia de abertura da Copa do Mundo no SoFi Stadium, em Inglewood, Califórnia, realizada na noite desta sexta-feira antes da partida entre Estados Unidos e Paraguai, reuniu Katy Perry, Future, Lisa, Rema e Tyla num espetáculo que marcou a terceira e mais aguardada das cerimônias inaugurais do torneio sediado conjuntamente por México, Canadá e Estados Unidos. No meio desse elenco, Anitta tornou-se a primeira artista brasileira a se apresentar em uma abertura de Copa do Mundo — fato que, analisado com rigor, diz mais sobre a economia da cultura global do que sobre o mérito isolado de uma carreira musical.
A Copa que inventou três aberturas e o que isso revela sobre o modelo FIFA
A decisão da FIFA de realizar três cerimônias de abertura — uma no Estádio Azteca, no México, antes de México x África do Sul; outra no Canadá; e a principal nos Estados Unidos — não é apenas logística de um torneio inédito com três países-sede. É uma escolha econômica deliberada. O mercado norte-americano representa, segundo estimativas do setor de entretenimento esportivo, mais de 40% da receita global de patrocínio da Copa do Mundo 2026, impulsionado por contratos com marcas como Adidas, Coca-Cola e Visa que têm nos EUA seu principal território de ativação. Multiplicar as cerimônias é multiplicar os pontos de contato com audiências distintas — e, consequentemente, os ativos de marketing disponíveis para patrocinadores. O SoFi Stadium, com capacidade para 70 mil pessoas e um histórico recente que inclui o Super Bowl LVI de 2022, foi escolhido não por acaso: é o palco que o público americano associa a espetáculo de escala máxima.
Nesse contexto, a curadoria artística deixa de ser questão de gosto e passa a ser decisão de portfólio. Katy Perry aciona o público pop mainstream americano com mais de 143 milhões de seguidores no Instagram. Future representa o hip-hop do Sul dos EUA, gênero dominante nas plataformas de streaming americanas. Lisa, ex-integrante do BLACKPINK, conecta o torneio ao mercado asiático — especialmente Coreia do Sul, Japão e Tailândia, países com audiências televisivas expressivas para a Copa. Rema e Tyla trazem o afrobeats nigeriano e o amapiano sul-africano, gêneros que triplicaram sua presença nos charts globais entre 2021 e 2025, segundo dados da IFPI. E Anitta representa a América Latina — mas não qualquer América Latina.
A trajetória que transformou uma funkeira carioca em ativo global da FIFA
Anitta não chegou ao SoFi Stadium pela via do reconhecimento artístico convencional. Chegou pela via da distribuição estratégica. Nascida Larissa de Macedo Machado em 1993, no Rio de Janeiro, ela construiu entre 2019 e 2023 uma das operações de internacionalização mais metódicas já executadas por um artista brasileiro. Contratou equipes de management em Miami, lançou músicas em espanhol antes de tentar o inglês, posicionou-se no mercado latino dos EUA — que movimenta cerca de US$ 8 bilhões anuais em consumo de música gravada — antes de mirar o mainstream anglófono. O resultado quantitativo é expressivo: em 2022, tornou-se a primeira artista brasileira a alcançar o número 1 do Spotify Global com "Envolver", dado que circulou amplamente na imprensa especializada e serviu como argumento comercial para negociações subsequentes.
"Eu sempre soube que queria ser a maior artista do mundo. Não do Brasil — do mundo", declarou Anitta em entrevista ao jornal The Guardian em 2022, frase que sintetiza a ambição sistematicamente executada ao longo de sua carreira internacional.
Essa trajetória gerou um ativo raro no mercado musical: uma artista que transita entre o público latino dos EUA, o mercado europeu e, progressivamente, o público anglófono global, sem perder legibilidade cultural brasileira. Para a FIFA, que precisa equilibrar representatividade geográfica com apelo comercial, Anitta resolve uma equação que poucos artistas brasileiros conseguiriam resolver. O Brasil, afinal, é o país com mais títulos mundiais na história do torneio — cinco — e uma das maiores audiências televisivas da Copa, com pesquisas do Ibope/Kantar apontando que mais de 80% da população acompanha o evento. Ter uma representante brasileira no show de abertura é também uma concessão simbólica a esse mercado.
"Goals" e a lógica das músicas oficiais como produto financeiro
A faixa "Goals", gravada por Anitta ao lado de Lisa e Rema, funciona como síntese da estratégia multicultural da FIFA para 2026. Os três artistas cobrem geografias de consumo musical complementares: América Latina, Ásia Oriental e África Ocidental. A composição em inglês — língua franca do streaming global — garante distribuição sem barreiras em plataformas como Spotify e Apple Music, onde o alcance é medido em dezenas de países simultaneamente. Músicas oficiais de Copa do Mundo têm histórico de performance comercial robusto: "Waka Waka" (2010), de Shakira, acumula mais de 3 bilhões de streams no Spotify, número que supera o catálogo completo de muitos artistas consagrados do pop brasileiro. Para Anitta, integrar esse catálogo é uma operação de posicionamento de longo prazo que vai além do torneio em si.
"Fazer parte da música oficial da Copa do Mundo é um sonho que eu nem sabia que podia ter", disse Anitta ao ser anunciada como parte do projeto musical, segundo declaração reproduzida por veículos de entretenimento internacionais.
A participação de Tyla na cerimônia — artista que também integra o elenco do show e que em 2024 venceu o Grammy de Melhor Álbum de Música Africana com seu álbum de estreia homônimo — reforça a leitura de que a FIFA montou um lineup calculado para maximizar cobertura de imprensa em mercados estratégicos. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a análise do investimento em entretenimento nas Copas recentes mostrou que o orçamento destinado às cerimônias cresceu aproximadamente 60% entre 2014 e 2022, reflexo direto da disputa por audiência com outros eventos globais como o Super Bowl e os Jogos Olímpicos.
O que a presença de Anitta no SoFi muda para o Brasil fora do campo
A visibilidade gerada por uma performance em cerimônia de abertura de Copa do Mundo é difícil de precificar, mas alguns indicadores são úteis. A audiência televisiva global do evento de 2022 no Catar foi estimada pela FIFA em 1,5 bilhão de espectadores — número que, mesmo com margem de erro metodológica, coloca qualquer artista presente naquele palco diante de uma exposição incomparável no calendário do entretenimento mundial. Para o Brasil, país que historicamente projeta sua identidade cultural no exterior via futebol e música — do samba ao axé ao funk —, ter Anitta nesse palco representa uma atualização dessa projeção para o ecossistema do pop globalizado do século XXI.
O impacto imediato é mensurável: nas 48 horas após o anúncio da participação de Anitta na cerimônia, o volume de buscas pelo nome da artista em inglês no Google Trends registrou pico superior ao de qualquer outro momento de sua carreira fora do Brasil, segundo dados públicos da plataforma. Esse tipo de tração orgânica em mercado anglófono equivale, em termos de exposição, a campanhas publicitárias avaliadas em dezenas de milhões de dólares — mais do que qualquer gravadora brasileira investiu em um único artista nacional nos últimos dez anos. A cerimônia no SoFi Stadium começa às 20h30 (horário de Brasília) e pode ser assistida pela Globo, SBT, SporTV, N Sports, Ge TV via Globoplay e CazéTV no YouTube — distribuição que, por si só, garante ao show de Anitta a maior audiência simultânea da história de sua carreira.
3 idiomas, 3 continentes representados, 1 música oficial — e uma cantora brasileira no centro de tudo isso, pela primeira vez.








