Confesso: quando a candidatura conjunta da Conmebol para a Copa de 2030 foi anunciada, achei que se tratava de manobra política sem substância — mais simbologia do que projeto. Hoje, com a aprovação por aclamação no Congresso Extraordinário da FIFA e o formato definitivo estabelecido, reconheço que errei a leitura. O que está em construção é algo estruturalmente mais complexo e historicamente mais denso do que qualquer outra edição do torneio.

A Copa do Mundo de 2030 será sediada por Espanha, Marrocos e Portugal como anfitriões principais — mas Argentina, Paraguai e Uruguai receberão cada um um jogo inaugural de suas respectivas seleções, em formato de celebração do centenário do primeiro Mundial, realizado no Uruguai em 1930. Não é uma co-sede. É uma categoria nova, sem precedente na história do torneio.

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O peso de 100 anos e o Estádio Centenário como epicentro simbólico

A candidatura uruguaia começou ainda na primeira década dos anos 2000, com argumento preciso: 2030 marcaria simultaneamente o centenário da primeira Copa do Mundo e o bicentenário da primeira Constituição do Uruguai. Dois marcos fundacionais comprimidos num único evento. O Estádio Centenário, em Montevidéu — construído especificamente para o torneio de 1930 e tombado como patrimônio histórico pela FIFA — está na lista de arenas propostas, ao lado do Gran Parque Central e do Campeón del Siglo.

Quando Luis Suárez e Lionel Messi vestiram camisetas comemorativas da candidatura antes de um Uruguai x Argentina pelas Classificatórias para a Rússia 2018, em Montevidéu, o gesto era mais do que marketing. Era a síntese de uma narrativa que a Conmebol levaria anos para transformar em proposta formal. Em setembro de 2017, o Paraguai se somou à candidatura. Em fevereiro de 2019, o Chile de Sebastián Piñera anunciou adesão. A versão final, confirmada em fevereiro de 2023, consolidou os três países sul-americanos no formato aprovado.

"O nombramiento por aclamación de los anfitriones de la edición 2030 puso el broche final al exhaustivo proceso de presentación de candidaturas", registrou a FIFA em comunicado oficial após o Congresso Extraordinário que reuniu, de forma virtual, as 211 federações-membro.

A arquitetura política da decisão e o que ela revela sobre a FIFA

A aprovação por aclamação — mecanismo previsto no regulamento da FIFA como alternativa ao processo de votação tradicional — não foi um atalho burocrático. Foi o resultado de uma articulação que contou com o apoio de todas as confederações, segundo a própria entidade, com objetivo declarado de "garantir a harmonia e a rotação" entre blocos continentais nos ciclos de organização. Lido sob essa chave, o formato híbrido de 2030 é também uma resposta política ao desgaste da FIFA após os escândalos de corrupção nas escolhas de 2018 (Rússia) e 2022 (Catar).

A candidatura europeia e africana — Espanha, Portugal e Marrocos — apresentou-se oficialmente em 4 de junho de 2021, em cerimônia com o rei Felipe VI, o presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, o premier Pedro Sánchez e o então primeiro-ministro António Costa. A fusão com os jogos do centenário sul-americano criou um torneio que, na prática, funciona como dois eventos simultâneos com lógicas distintas: um competitivo, concentrado na Europa e no norte da África; outro comemorativo, distribuído entre Buenos Aires, Assunção e Montevidéu.

Esse modelo distribui capital político entre confederações, mas cria um desafio de gestão que a FIFA ainda não enfrentou em escala comparável. Seis países, três fusos horários distintos, dois continentes, e a necessidade de garantir que os jogos inaugurais sul-americanos tenham o mesmo padrão operacional dos demais — sem que esses países arquem com o custo de uma sede completa.

Infraestrutura, investimento público e o prazo que aperta

Para Argentina, Paraguai e Uruguai, o desafio imediato é de outra natureza: preparar estádios e estrutura logística para receber um único jogo de altíssima visibilidade global, com custo de mobilização proporcional ao de uma sede permanente. O Estádio Más Monumental, em Buenos Aires — com capacidade para mais de 84 mil pessoas, o maior da América do Sul — é o candidato natural argentino. O Defensores del Chaco, em Assunção, e o Centenário, em Montevidéu, completam o mapa.

A questão que pesquisadores de economia do esporte têm levantado é precisa: qual o retorno mensurável de um país que investe em adequação de infraestrutura para receber apenas uma partida? O modelo de legado esportivo — amplamente discutido desde os Jogos do Rio de 2016 — sugere que o benefício não está no evento em si, mas na aceleração de reformas que teriam prazo mais longo sem o pretexto do torneio. Para o Uruguai, com o Centenário já em processo de preservação histórica, o argumento é mais direto. Para o Paraguai, que propôs um novo Estádio Conmebol entre suas arenas, a equação é mais arriscada.

"Desde la candidatura de Uruguay-Argentina-Paraguay-Chile se empezó a trabajar con fuerza en la primera década de los 2000", registra a Wikipedia em verbete sobre a Copa de 2030, sintetizando mais de duas décadas de articulação política e esportiva.

O calendário é um fator de pressão concreto. Com a Copa de 2026 em curso — Estados Unidos, Canadá e México recebendo o torneio expandido para 48 seleções —, as federações sul-americanas precisam equilibrar atenção operacional entre dois horizontes simultâneos. As obras de adequação para 2030 precisam avançar sem interferir nos ciclos de classificatórias e nas competições domésticas das próximas três temporadas.

A Conmebol tem até o final de 2027 para apresentar à FIFA o relatório técnico definitivo de cada arena. Esse é o prazo real que Argentina, Paraguai e Uruguai enfrentam agora — não a abertura do torneio, mas a aprovação do dossiê que garantirá que os jogos do centenário aconteçam de fato nos países que os idealizaram. Acompanhar os relatórios de progresso de infraestrutura que a Conmebol divulgará ao longo de 2026 e 2027 é o movimento mais informado para quem quer entender se essa promessa histórica vai se sustentar.