Três coisas: uma coletiva em Houston, um nome brasileiro e trinta anos de história. Tudo se explica daí.
Hajime Moriyasu estava diante dos microfones quando admitiu, com a serenidade característica de quem carrega um peso que não esconde, que gostaria de conversar com Zico antes de enfrentar o Brasil na próxima segunda-feira (29), às 14h de Brasília, no NRG Stadium, em Houston. O duelo vale uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026. O pedido de Moriyasu não é protocolar nem simbólico: é a confissão de um homem que sabe de onde vem o futebol que pratica.
"Ele nos conduziu a poder competir na Copa. Ofereceu muito ao Japão. Espero que eu também possa fazer isso e tomara que eu possa falar com Zico antes do jogo com o Brasil", disse Moriyasu em coletiva.
Reparemos no detalhe: Moriyasu não disse que quer inspiração. Disse que quer falar. Existe uma diferença considerável entre buscar um símbolo e buscar uma conversa — e o técnico japonês, ao escolher a segunda opção, revela que o legado de Zico no país asiático vai muito além das fotografias emolduradas e das camisas penduradas em museus.
O Galinho que desembarcou em Kashima e mudou um país
Em 1991, quando a Japan Soccer League ainda engatinhava como produto e o futebol japonês mal figurava no radar internacional, Zico — então com 38 anos e uma carreira de sobra para se aposentar com dignidade — embarcou para o Japão. Assinou com o Kashima Antlers e passou a treinar, jogar e ensinar num país que mal havia domesticado a gramática do futebol profissional. A J-League seria fundada oficialmente em 1993, e a chegada do ex-camisa 10 do Flamengo funcionou como um sinal claro de que o campeonato tinha ambições reais.
Moriyasu, que era jogador naquele período, assistiu a tudo de perto — e a palavra que escolheu para descrever o brasileiro não foi ídolo no sentido abstrato. Ele disse "herói". A nuance importa. Heróis fazem coisas concretas em momentos decisivos; ídolos existem numa vitrine.
"Contribuiu desde o momento em que tínhamos somente a liga Japan Soccer League. Jogou no Kashima Antlers e contribuiu com o futebol no Japão. Ele foi meu herói. Pudemos vê-lo no Japão. Ele tem uma enorme contribuição no desenvolvimento da J-League", completou o técnico japonês.
Zico jogou quatro temporadas pelo Kashima, marcou 54 gols e, mais do que os números, deixou uma metodologia. A intensidade do toque de bola, a leitura de jogo posicional, a exigência técnica que o clube carregou como DNA nas décadas seguintes — tudo isso tem impressões digitais do carioca de Quintino. O Kashima Antlers tornou-se o time mais vitorioso da J-League, com 20 títulos nacionais, e nunca perdeu a identidade técnica que Zico ajudou a instalar.
O que Zico poderia dizer a Moriyasu sobre enfrentar o Brasil
A pergunta que paira sobre Houston vai além do protocolo: o que, afinal, um homem que jogou pelo Brasil durante 15 anos pode ensinar a quem vai enfrentá-lo? A resposta, se vier, será provavelmente incômoda para a torcida verde-amarela. Zico conhece as entranhas do futebol brasileiro melhor do que qualquer analista externo — sabe onde a seleção se acomoda, onde perde a concentração, como o excesso de confiança pode criar espaços nos momentos mais improváveis.
O próprio Moriyasu tem um argumento empírico recente. Em outubro de 2025, o Japão virou um placar de 2 a 0 e derrotou o Brasil por 3 a 2 em Tóquio, num amistoso que ficou como combustível para ambos os lados — e que o técnico japonês mencionou explicitamente como referência.

"No último amistoso, nós provamos ao Brasil que não somos fracos. Isso, por si só, é um grande avanço para nós. O Brasil é um time de elite no mundo. Temos respeito. Claro, na partida, não sabemos o que vai acontecer. Esperamos ter oportunidade de vencer", analisou Moriyasu.
Veja-se isto: um técnico que começa a frase com "não sabemos o que vai acontecer" e a termina com "esperamos ter oportunidade de vencer" não está sendo modesto por educação. Está sendo preciso. O Japão de 2026 é uma seleção com jogadores espalhados pelas principais ligas europeias, com uma estrutura tática sofisticada e com a memória muscular de ter eliminado a Alemanha e a Espanha na Copa do Mundo de 2022 no Qatar — dois resultados que reescreveram o que o mundo espera dessas oitavas.
O duelo de segunda em Houston e o peso do que foi construído
Há algo de circular nessa história que nenhum roteirista teria a audácia de escrever: o homem que ajudou o Japão a acreditar que podia competir com o Brasil pode, agora, ajudar o Japão a derrotá-lo. Moriyasu sabe disso. E ao tornar público o desejo de conversar com Zico, não está apenas prestando uma homenagem — está, a seu modo, usando o passado como ferramenta tática.
Em matéria do SportNavo, a coletiva de Moriyasu foi tratada como revelação de bastidor, mas o que ela representa é mais amplo: é o retrato de um futebol japonês que chegou às oitavas de uma Copa do Mundo sem precisar pedir desculpas pelo tamanho. O Japão encerrou a fase de grupos invicto, com seis pontos em três jogos, e chega ao NRG Stadium com a convicção de quem virou 2 a 0 contra o Brasil há menos de um ano.
Carlo Ancelotti, que estreia como técnico da Seleção Brasileira justamente nesta Copa, terá pela frente um adversário que conhece seus próprios fantasmas — e que eventualmente aprendeu a usá-los a seu favor. O jogo acontece na segunda-feira (29), às 14h de Brasília, com o vencedor garantindo vaga nas quartas de final contra o ganhador do confronto entre Portugal e Marrocos.








