Confesso: eu errei sobre Mbappé em 2024. Quando ele chegou ao Real Madrid depois de uma temporada irregular no PSG, escrevi — com a confiança equivocada de quem cobriu Ronaldo Nazário subindo em Barcelona nos anos 90 — que o francês corria o risco de ser um fenômeno de seleção sem grandeza de clube. Que o peso de Chamartín poderia engoli-lo. Hoje, vendo o que ele fez contra a Noruega no dia 25 de junho de 2026, entendo por que errei: subestimei a raridade do animal.

Na goleada da França por 4 a 1 sobre a Noruega, válida pela última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, Mbappé não precisou marcar para reescrever a história. Duas assistências para Ousmane Dembélé — que terminou a noite com um hat-trick — bastaram para o camisa 10 chegar à marca de 20 participações diretas em gols em Copas do Mundo, somando 16 gols e 4 assistências. Com isso, ele ultrapassou Ronaldo Fenômeno (19) e se igualou ao Rei Pelé no terceiro lugar do ranking histórico do torneio.

O ranking que coloca Mbappé entre os imortais

Para entender o peso dessa posição, convém olhar com calma para a lista. Lionel Messi lidera com 26 participações (18 gols e 8 assistências), acumuladas em cinco Copas entre 2006 e 2022. Na segunda prateleira, Pelé e Mbappé dividem os 20, mas com perfis distintos: o Rei anotou 12 gols e deu 8 assistências em três torneios entre 1958 e 1970, enquanto o francês chegou ao mesmo número com 16 gols e 4 assistências em três edições — 2018, 2022 e agora 2026. Ronaldo Fenômeno, com 19 participações (15 gols e 4 assistências) em quatro Copas, ficou para trás. Miroslav Klose, que lidera a artilharia pura com 16 gols, soma 19 participações no total, uma a menos que Mbappé.

Dois números tornam a posição de Mbappé ainda mais vertiginosa: ele tem 27 anos e ainda disputa a fase eliminatória desta Copa. Klose completou seus 16 gols em quatro torneios, o último deles em 2014, quando tinha 36 anos. Pelé encerrou sua trajetória nas Copas aos 30. Mbappé tem, em tese, ao menos mais um Mundial pela frente — o de 2030, quando terá 31 anos.

A contra-leitura que o contexto histórico exige

Aqui entra a antítese que qualquer análise honesta precisa encarar. Há uma tendência nos dias atuais de transformar estatísticas de participações — gols mais assistências — em moeda de troca para comparações entre gerações. Mas quando se analisa o futebol dos anos 50 e 60, período em que Pelé jogou suas Copas, as assistências não eram catalogadas com o rigor atual. Pelé pode ter criado mais gols do que os registros oficiais indicam; da mesma forma, Maradona, que aparece com apenas 16 participações na lista, operava num sistema tático onde a função de "criador" era menos mensurável.

Há também a questão do nível de oposição. A Copa de 1958, onde Pelé marcou 6 gols aos 17 anos, tinha uma disparidade técnica entre seleções muito maior do que a de 2026. Mbappé enfrenta blocos baixos organizados com GPS e análise de dados. Isso não diminui o feito — amplifica a dificuldade. Mas impede comparações diretas de grandeza. Como dizia um velho editor meu em Milão, nos tempos em que cobria o calcio dos anos 90: "I numeri raccontano la storia, ma non tutta la storia" — os números contam a história, mas não toda a história.

"Ele distribui o jogo como um maestro e ainda finaliza como um atacante puro. Essa combinação é única nesta geração", disse um membro da comissão técnica francesa, segundo reportagem do SportNavo publicada durante a fase de grupos.

Mbappé, por sua vez, tem sido econômico em palavras durante o torneio. Após a vitória sobre a Noruega, limitou-se a destacar o coletivo: "O mais importante é a França classificada. Os números individuais são consequência do grupo." Frase de campeão que conhece o peso da Copa — e que soa diferente vinda de quem já levantou o troféu em 2018, aos 19 anos.

A contra-leitura que o contexto histórico exige Mbappé chega a 20 participações
A contra-leitura que o contexto histórico exige Mbappé chega a 20 participações

O que os próximos jogos podem mudar na história

A síntese, aqui, é mais empírica do que poética. Mbappé está a um gol de se isolar como segundo maior artilheiro da história das Copas, empatado atualmente com Klose em 16 gols — e ambos atrás apenas de Messi, que marcou 18. Se a França avançar às semifinais, o que o ranking de favoritos sugere fortemente, ele terá entre três e quatro jogos para percorrer esse caminho.

O que torna esse cenário diferente de qualquer projeção que fiz sobre ele em 2024 é a maturidade tática que Mbappé exibe em 2026. Nas fases anteriores desta Copa, ele oscilou entre o papel de finalizador e o de construtor — como uma maré que avança sem avisar, cobrindo toda a faixa do campo antes de recuar e surpreender pelo lado oposto. Contra a Noruega, foram exatamente as duas assistências para Dembélé que mostraram essa evolução: o Mbappé de 2018 teria buscado o gol; o de 2026 leu o espaço e escolhou o passe.

Com a França nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, Mbappé tem agora um confronto eliminatório pela frente onde cada participação direta em gol pode aproximá-lo ou afastá-lo de Klose e Messi no topo da história. Se ele chegar às semifinais mantendo a média de participações desta fase de grupos — duas por jogo — chegará ao final do torneio com pelo menos 26 ações diretas, número que empataria com Messi no topo absoluto da lista.

Se Mbappé marcar nas oitavas e chegar às quartas de final com 17 gols, ele se tornará o segundo maior artilheiro da história das Copas com uma rodada de antecedência em relação ao que qualquer modelo estatístico projetava há dois anos. A pergunta que deixo para quem acompanha este torneio: se ele ultrapassar Klose em artilharia ainda nas oitavas, a França muda taticamente para protegê-lo ou libera Mbappé para caçar Messi no topo da lista de participações?