22 jogadores no gramado do Columbia Park, em Morristown, e nenhum deles com a camisa 10. Esse foi o retrato do primeiro treino da Seleção Brasileira nesta segunda-feira (15) para o segundo jogo do Grupo C da Copa do Mundo, marcado para sexta-feira (19), às 21h30, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia, contra o Haiti. Neymar realizou novo exame de ressonância magnética na panturrilha direita — a lesão grau dois que o afastou desde antes da convocação — e segue sem qualquer perspectiva de treinar com bola. Carlo Ancelotti, portanto, precisa resolver um quebra-cabeça tático com peças que ele ainda não testou juntas nesta Copa.
O cenário do Grupo C depois do empate com Marrocos
O Brasil saiu de campo no MetLife Stadium, em Nova Jersey, com 1 ponto depois de empatar por 1 a 1 com Marrocos na estreia do sábado (13). O resultado, longe de ser catastrófico, estreita a margem para erros: com o Haiti na sequência e a terceira rodada ainda a definir, a Seleção precisa vencer para manter o controle da classificação. O Haiti, por sua vez, perdeu a estreia e chega ao segundo jogo sob pressão máxima — o que, taticamente, pode significar um bloco defensivo baixo e apostas em contra-ataques pontuais.
Conforme registrado pelo SportNavo, a imprensa teve acesso somente aos 15 minutos iniciais do treino desta segunda. Nesse período, a atividade foi leve — movimentação e toques de bola —, sem qualquer indício de formação ou escalação. Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães e Raphinha, todos titulares contra Marrocos, apareceram no gramado, mas não treinaram com o grupo por "controle de carga", segundo nota oficial da CBF. Raphinha, inclusive, estava de chinelo, com bolhas em um dos pés após percorrer 11,65 km na estreia.
"Controle de carga", informou a CBF em nota oficial ao justificar a ausência de Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães e Raphinha no treino coletivo desta segunda-feira.
O vazio do camisa 10 e as alternativas reais de Ancelotti
Neymar não treina com bola desde a convocação. A lesão grau dois na panturrilha direita, confirmada pelos exames realizados nesta segunda, coloca o atacante em situação delicada dentro do prazo da Copa. Com 34 anos e histórico de lesões graves — ruptura do ligamento cruzeiro em 2023 e fratura no tornozelo em 2019 —, qualquer precipitação no retorno pode custar caro. Ancelotti tem três dias de atividade até sexta para decidir o que faz com o espaço deixado pelo camisa 10.
A lógica mais direta aponta para Rodrygo como o substituto imediato na função de segundo atacante pelo lado direito. Pelo Real Madrid na temporada 2025/2026, o jogador de 24 anos acumula participação direta em 19 gols entre La Liga e Champions League — 11 gols e 8 assistências. Tem a mobilidade para circular entre as linhas e criar desequilíbrios nos espaços que Neymar ocuparia. A questão é que Rodrygo, quando joga por dentro, reduz a presença ofensiva na largura, área onde Raphinha foi decisivo contra Marrocos.
Outra possibilidade é Vinicius Jr. ganhar liberdade total pelo lado esquerdo enquanto Raphinha se posiciona mais centralizado, funcionando como um falso 9. O esquema criaria uma linha ofensiva fluida — quase como uma corrente de água encontrando diferentes caminhos pela mesma encosta —, mas exigiria que Bruno Guimarães ou outro volante cobrisse mais espaço no meio-campo para equilibrar a estrutura defensiva.
O histórico recente do Brasil sem o camisa 10
A Seleção já jogou sem Neymar em momentos decisivos. Nas Eliminatórias para esta Copa, o Brasil disputou sete partidas sem o atacante e venceu quatro, empatou duas e perdeu uma — aproveitamento de 66,6%. Os dados mostram que a dependência técnica existe, mas não é paralisante. O problema surge quando a equipe precisa criar jogadas de ruptura em blocos defensivos organizados, exatamente o que o Haiti deve apresentar na sexta.
Contra Marrocos, o Brasil teve 58% de posse de bola, mas finalizou apenas 9 vezes, com 3 no alvo. O gol saiu de uma jogada individual de Raphinha, que converteu pênalti no segundo tempo. A criatividade no terço final foi limitada, e a ausência de Neymar — que historicamente concentra entre 4 e 6 dribles por jogo em Copas do Mundo — pesou na capacidade de desequilíbrio individual da equipe.
"Neymar faz novo exame e segue sem treinar na seleção brasileira", informou a Agência Brasil em nota publicada nesta segunda-feira (15), confirmando que o atacante não tem previsão de retorno aos treinos com bola.
A formação mais provável e o que muda no sistema
Com os dados disponíveis até esta segunda, o 4-2-3-1 segue como estrutura base de Ancelotti. A variação está no trio ofensivo atrás do centroavante. Se Raphinha se recuperar das bolhas até quarta-feira — quando o treino será fechado à imprensa a partir das 12h —, o cenário mais provável é Raphinha pela direita, Vinicius Jr. pela esquerda e Rodrygo centralizado como meia-atacante, com Endrick ou outro centroavante como referência.
Endrick, que ainda não entrou em campo nesta Copa, tem 18 anos e marcou 7 gols em 14 jogos pelo Real Madrid na temporada 2025/2026 — média de 0,5 gols por jogo, considerando que a maioria das participações foi como reserva. Contra um Haiti que deve recuar, a velocidade e a capacidade de pressionar a saída de bola do atacante podem ser mais úteis do que uma referência fixa de área.
Ancelotti tem mais três sessões de treino para ajustar os detalhes. O treino de terça (16) será fechado, e as atividades de quarta e quinta devem revelar a escalação definitiva. O Brasil entra em campo na sexta-feira (19), às 21h30, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia, precisando dos três pontos para assumir a liderança do Grupo C antes da última rodada.

No Columbia Park, enquanto os 22 jogadores trocavam passes na tarde de Morristown, Neymar caminhava em direção à sala de exames — sozinho, chinelo no pé, o gramado lá fora cheio de gente que vai jogar sem ele.








