Mancou. Alphonso Davies chegou ao Centro Nacional de Desenvolvimento do Futebol em Vancouver nesta segunda-feira (15), botou os chuteiros, pisou no gramado — e parou por ali. O lateral de 25 anos participou apenas do aquecimento da sessão, longe das finalizações, dos dribles e do ritmo que o mundo inteiro já conhece. A seleção canadense confirmou que ele ainda segue em protocolo de retorno às atividades, recuperando-se de uma lesão na coxa, a três dias do confronto decisivo contra o Catar, marcado para a quinta-feira (18) no BC Place, em Vancouver.

A lesão que chegou na hora mais errada do Canadá

O Canadá já sabe o que é carregar uma Copa do Mundo nas costas. Depois de 36 anos de ausência, o país voltou ao torneio em 2022 — e agora, como anfitrião, a pressão é de outra dimensão. Na estreia do Grupo B, no Estádio BMO Field em Toronto, a seleção empatou em 1 a 1 com a Bósnia, resultado que deixou o grupo inteiramente equilibrado: as quatro equipes — Canadá, Bósnia, Catar e Suíça — chegam à segunda rodada com um ponto, um gol marcado e um sofrido. Qualquer deslize pode ser fatal. E Davies, exatamente o jogador capaz de transformar um empate em vitória com uma arrancada de 60 metros, assiste a tudo isso de longe, com gelo na coxa.

A cronologia da lesão ainda não foi detalhada pela comissão técnica canadense, mas o fato concreto é que ele não treinou normalmente nem na véspera da viagem de Toronto para Vancouver, nem nesta segunda-feira no centro de treinamento. Uma autoridade da equipe confirmou à Reuters que Davies está fora do protocolo regular de treinos. O Canadá tem até quarta-feira para decidir se arrisca escalá-lo ou preserva o lateral para o terceiro jogo do grupo.

"Quando você tira um jogador como Davies de qualquer seleção do mundo, muda o DNA tático do time. Não é sobre posição, é sobre o medo que ele causa no adversário antes mesmo de tocar na bola", avaliou um comentarista esportivo especializado em futebol norte-americano, durante análise transmitida na véspera do treino.

O que o Canadá perde quando Davies não entra em campo

Não existe substituto direto para Davies no elenco canadense — e isso não é exagero tático, é um dado estrutural do time. O lateral-esquerdo do Bayern de Munique é o único jogador canadense capaz de inverter sozinho uma pressão defensiva em ataque em menos de dez segundos. Sua velocidade de ponta a ponta é catalogada entre as mais altas do futebol europeu: em diversas temporadas na Bundesliga, ele registrou sprints acima de 35 km/h com bola nos pés. No esquema do Canadá, Davies não apenas sobe pela esquerda — ele é o gatilho de transição de todo o sistema ofensivo.

A lesão que chegou na hora mais errada do Canadá Davies treina pela metade e o C
A lesão que chegou na hora mais errada do Canadá Davies treina pela metade e o C

Sem ele, o técnico canadense precisará de um lateral convencional que cubra o corredor esquerdo sem o mesmo poder de aceleração. A equipe tende a perder profundidade no lado esquerdo e ficará mais dependente de construções pelo centro, onde a Bósnia já conseguiu criar situações de perigo no empate de Toronto. O Catar, por sua vez, chega ao jogo após uma derrota na estreia para a Suíça e vai precisar de um resultado positivo — o que significa que o time árabe provavelmente tentará explorar exatamente o corredor onde Davies normalmente opera.

O zagueiro Joel Waterman, um dos líderes do vestiário, tentou minimizar a preocupação ao falar com repórteres após o treino desta segunda-feira.

"Ele é um dos melhores jogadores da nossa equipe, é um jogador de primeiro nível, então, obviamente, tê-lo na escalação seria incrível. Temos total confiança no elenco, do primeiro ao 26º jogador, e quem quer que entre em campo vai fazer um ótimo trabalho", declarou Waterman.

A fala de Waterman é de líder, mas o silêncio em torno do estado físico de Davies diz mais do que qualquer declaração oficial. Quando uma comissão técnica evita confirmar ou negar a presença de um jogador a 72 horas de uma partida, a resposta costuma estar na omissão.

O que o Canadá precisa construir até quinta-feira

Vancouver acorda nesta semana com o peso de uma cidade que quer ser palco de história. O BC Place, com capacidade para mais de 54 mil pessoas, estará lotado na quinta-feira, e a torcida canadense — que viu o time empatar na estreia diante de uma Bósnia organizada — não vai ao estádio para assistir a outro placar morno. A seleção sabe disso. O vestiário sabe disso. E Davies, sentado à margem do campo com a coxa enfaixada, sabe melhor do que ninguém.

A boa notícia para o Canadá é que o adversário da quinta-feira é o Catar — atual campeão asiático, mas equipe que chegou à Copa do Mundo como anfitrião em 2022 e não venceu nenhuma partida na fase de grupos. A seleção catari tem um elenco de nível médio dentro do contexto da Copa, o que abre espaço para o Canadá vencer mesmo sem seu principal jogador, desde que a equipe mantenha a organização defensiva e seja eficiente nas poucas transições rápidas que conseguir criar.

A decisão final sobre Davies deve ser tomada na véspera do jogo, após o treino de quarta-feira, conforme registrado pelo SportNavo a partir das informações divulgadas pela delegação canadense em Vancouver. Se o lateral não puder jogar, o Canadá entra em campo na quinta às 21h (horário de Brasília) sem o seu melhor jogador, sabendo que uma derrota deixaria a classificação nas mãos da última rodada — e tornaria cada quilômetro que Davies não percorreu pelo corredor esquerdo ainda mais caro.