A panturrilha direita de Neymar voltou a ditar o ritmo da Seleção Brasileira. Na manhã desta segunda-feira, 15 de junho, em Nova Jersey, o atacante ficou de fora da primeira sessão de treinos após o empate por 1 a 1 com Marrocos — e a ausência, desta vez, não é novidade. Desde o amistoso preparatório contra o Egito, o camisa 10 não treina com o grupo. São semanas de Copa do Mundo disputadas, na prática, sem o jogador que o Brasil construiu como símbolo de uma geração inteira.

O treino de segunda e o mapa real dos desfalques

Além de Neymar, outros três atletas ficaram fora da sessão desta segunda-feira: Raphinha, Bruno Guimarães e Gabriel Magalhães. Os três foram poupados por controle de carga após desgaste físico detectado pela comissão técnica — situação diferente da do santista, que se recupera de lesão. Raphinha e Gabriel Magalhães carregam ainda o peso das críticas da estreia: o zagueiro perdeu a disputa no gol marroquino, e o ponta, apesar de ter percorrido 11,65 quilômetros em campo, desperdiçou dois contra-ataques que poderiam ter mudado o placar. Ancelotti, portanto, chega à véspera do segundo jogo sem poder contar com nenhum dos quatro para uma avaliação plena em treino.

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O capitão Marquinhos tentou desviar o olhar do imediato e recorreu à própria trajetória no Paris Saint-Germain para calibrar as expectativas.

"Nos dois últimos anos no PSG não começamos bem, nos primeiros jogos, depois ganhamos confiança e conseguimos melhorar. E saímos campeões das competições. Em Copas do Mundo, a gente já viu isso também. Seleções que não começaram bem a Copa e depois conseguiram grandes coisas. O grupo sabe que pode melhorar."
O argumento tem respaldo histórico: nas temporadas 2024/2025 e 2025/2026 da Champions League, o PSG terminou a fase de grupos na 15ª e na 11ª posição, respectivamente, precisando passar por playoffs antes de alcançar o mata-mata — e levantou a taça nas duas ocasiões. O paralelo é válido, mas exige que o crescimento aconteça depressa. Contra o Haiti, na sexta-feira (19), às 21h30 no horário de Brasília, na Filadélfia, não há margem para mais tropeços.

O treino de segunda e o mapa real dos desfalques Endrick esperando na fila enqua
O treino de segunda e o mapa real dos desfalques Endrick esperando na fila enqua

Quem ocupa o espaço de Neymar no esquema de Ancelotti

A ausência do camisa 10 não é apenas simbólica — ela reorganiza geometrias. Neymar costuma operar pela esquerda, mas com liberdade de cair ao centro e criar superioridades numéricas próximo à área. Sem ele, Ancelotti tem duas rotas claras. A primeira é manter Vinicius Jr. como referência ofensiva pelo lado esquerdo e deslocar Rodrygo para uma posição mais central, funcionando como meia-atacante. A segunda é dar a Endrick a titularidade que a torcida pede desde antes da Copa começar.

Ronaldo Fenômeno, pentacampeão e autor dos dois gols na final de 2002 contra a Alemanha, foi direto ao avaliar a situação do jovem de 19 anos no programa Resenha da Copa, da ESPN Brasil:

"Eu tenho certeza que ele vai ter a oportunidade. Ele vai entrar em algum momento, mas agora mesmo ele é a terceira opção no ataque. Tem Igor Thiago, tem Matheus Cunha e aí depois é ele."
O R9 ainda ponderou que Endrick provavelmente teria entrado contra Marrocos não fosse a substituição forçada de Bruno Guimarães, que consumiu uma das trocas disponíveis e tirou o espaço do atacante do Real Madrid. A lógica de Ronaldo é fria e técnica: Igor Thiago foi artilheiro na Inglaterra nesta temporada, Matheus Cunha está em grande fase no Manchester United — a fila existe e tem fundamento.

A colunista Milly Lacombe, no entanto, levantou uma questão de ordem diferente no canal UOL. Para ela, o problema não é apenas quem joga, mas o que Ancelotti está fazendo com a personalidade de Endrick.

"Se o Ancelotti quer deixá-lo obediente e discipliná-lo, ele vai matar o Endrick. Quem lembra daquele Palmeiras e Botafogo, que começou 3 a 0 e virou 4 a 3, sabe que o jogo só virou porque o Endrick, que então tinha 17 anos, colocou a bola debaixo do braço e falou: 'vamos, deixa comigo'. Ele é o cara que tem essa personalidade."
Seria injusto chamar de crise geracional o que ainda é apenas uma Copa — mas há algo de geracional nessa tensão entre o sistema de Ancelotti e a impulsividade que fez Endrick ser contratado pelo Real Madrid por 72 milhões de euros.

O que muda no grupo A se o Brasil não vencer o Haiti

A matemática do Grupo A é simples e implacável. O Haiti foi derrotado pela Escócia na rodada de abertura, o que transforma o jogo de sexta-feira em obrigação aritmética para o Brasil. Ronaldo Fenômeno foi preciso ao apontar o que está em jogo além dos três pontos:

"O saldo de gols vai ser importante nesse jogo para o primeiro lugar. Isso vai decidir o primeiro lugar do grupo. Então temos que aproveitar as oportunidades de cada lance para a gente não passar perrengue."
O Brasil acumula apenas um ponto, com saldo zero. Escócia e Marrocos, que se enfrentam na próxima rodada, podem abrir vantagem dependendo do resultado entre si. Uma vitória magra do Brasil pode não bastar para garantir a liderança antes do confronto decisivo contra a Escócia, marcado para 24 de junho, às 19h de Brasília.

Curiosamente, enquanto o Brasil digere o empate, a cidade de Reggiolo, no norte da Itália, onde Ancelotti nasceu, exibiu uma bandeira verde e amarela na fachada do restaurante Il Toscanini. O amigo de longa data do treinador, Aldo Ferrari, fez uma análise que coincide com o diagnóstico interno da Seleção: "Na minha opinião, algo vai mudar para os próximos jogos, porque, principalmente na defesa, o Brasil sofreu com a vivacidade de Marrocos." Registrado pelo SportNavo antes do treino desta segunda, o cenário de ausências confirma que as mudanças virão por necessidade antes mesmo de virem por escolha. Ancelotti terá até quinta-feira para decidir se Endrick começa entre os titulares contra o Haiti — e essa resposta, qualquer que seja, dirá mais sobre a Copa do Brasil do que o placar do primeiro jogo.