"Chorei muito no dia. Foi fod@! Tava me dedicando pra caralh@ para jogar aquela Copa." Quem escreveu isso foi Neymar? Não. Foi Romário, numa carta publicada neste domingo no jornal Extra — 28 anos depois de ser cortado da Copa da França de 1998 por Zagallo, num dos episódios mais controversos da história da Seleção Brasileira.

O que os números de Romário em 1998 dizem sobre aquela decisão

Romário tinha 32 anos quando foi cortado da Copa de 1998. Antes do anúncio, ele acumulava uma sequência relevante pelo Flamengo: havia marcado gols em partidas do Campeonato Brasileiro e demonstrava condicionamento físico compatível com o torneio. A prova mais concreta veio depois. O Brasil foi eliminado pela França na final, em 12 de julho de 1998. Dias antes, nas quartas de final contra a Dinamarca, Romário já estava em campo pelo Flamengo — e fez gol contra o Internacional. A cronologia é objetiva: enquanto a Seleção disputava o Mundial, o atacante jogava no Brasil em plena forma.

Zagallo justificou o corte com problemas físicos de Romário. O próprio ex-jogador sempre contestou essa versão. Na carta desta semana, ele foi direto:

"Falei e provei pros caras que eu estava certo. Logo depois do jogo das quartas de final, contra a Dinamarca, eu já estava em campo jogando pelo Flamengo. E ainda fiz o gol contra o Inter. Eu estava em plena forma, teria contribuído muito com a seleção, principalmente na reta final."

O dado é relevante para o debate atual. Em 1998, a janela entre o corte e a volta aos gramados foi de menos de 30 dias. Romário não precisou de cirurgia, não passou por protocolo de reabilitação avançado — tinha apenas o suporte do fisioterapeuta Filé, como ele mesmo relembrou. Reverteu o quadro físico em semanas.

A tecnologia que Romário não teve e Neymar tem agora

O argumento central da carta de Romário não é emocional. É técnico. Ele comparou o suporte médico disponível em 1998 com o que existe em 2026 e fez uma pergunta implícita que qualquer analista de futebol deve levar a sério: se um jogador sem recursos modernos de reabilitação conseguiu se recuperar em menos de um mês, qual é o prazo real de recuperação de Neymar com toda a infraestrutura disponível hoje?

"Se há 28 anos eu tinha o meu parceiro Filé, fisioterapeuta que me ajudou na recuperação, e em menos de um mês eu já estava em campo, imagine o que pode ser feito com a tecnologia de hoje!"

Recuperado.

Essa palavra resume o que Romário quer dizer. Não é torcida. É raciocínio baseado em precedente. A medicina esportiva de 2026 opera com protocolos de reabilitação que incluem crioterapia, estimulação elétrica neuromuscular, trabalho em piscinas aquecidas com pressão controlada e monitoramento biométrico em tempo real. Clubes como o Santos — onde Neymar está atualmente — e a própria Seleção Brasileira têm acesso a esse aparato. A comparação com o fisioterapeuta solitário de 1998 não é hipérbole; é dado de contexto.

É como comparar uma cirurgia de joelho feita com técnica aberta nos anos 1990 com o procedimento artroscópico atual: o procedimento é o mesmo em essência, mas o tempo de recuperação caiu pela metade em muitos casos documentados na literatura médica esportiva.

O que a carta de Romário pede a Ancelotti e à CBF

Romário não escreveu a carta para reviver mágoa. O texto tem destinatário claro: a comissão técnica da Seleção e a CBF. O pedido é explícito — paciência com o processo de recuperação de Neymar, algo que ele próprio não recebeu em 1998.

"Torço agora para que tenham com Neymar a paciência que não tiveram comigo."

O ex-atacante foi além do apelo emocional. Ele enquadrou Neymar como peça insubstituível pelo diferencial técnico, não por nome ou legado.

"O cara é a nossa esperança de diferencial técnico na seleção. Pode anotar aí: o Neymar vai ter tempo suficiente para se recuperar e jogar [...] ele ainda poderá ser muito útil à seleção, como infelizmente eu não pude ser na Copa da França, em 1998."

A leitura de Romário sobre o papel de Neymar na Copa do Mundo de 2026 é a de um jogador que pode não ser titular absoluto na fase de grupos, mas que representa um recurso técnico de alto impacto nas fases eliminatórias — exatamente o papel que ele próprio teria desempenhado em 1998, segundo sua avaliação. A analogia com a reta final do torneio aparece nas duas falas: em 1998, ele disse que "teria contribuído muito na reta final"; em 2026, projeta o mesmo para Neymar.

O que os números de Romário em 1998 dizem sobre aquela decisão Como o corte de R
O que os números de Romário em 1998 dizem sobre aquela decisão Como o corte de R

A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com o Brasil estreando na fase de grupos. Se o cronograma de recuperação de Neymar se confirmar dentro do prazo que a comissão técnica de Carlo Ancelotti monitora, o atacante do Santos pode estar disponível antes das oitavas de final — a mesma etapa em que Romário já estava em campo pelo Flamengo, 28 anos atrás, provando que a decisão de cortá-lo havia sido equivocada.