Quinze anos de futebol profissional. Segundo lugar no Grupo G da Libertadores. Décimo oitavo no Brasileirão com 16 pontos. Três dados, uma equação que explica tudo o que o Mirassol representa — e o tamanho do desafio que ainda está por vir.

O número que o Grupo G não esperava

Quando o sorteio colocou o Mirassol no Grupo G ao lado de nomes com décadas de história continental, a lógica mandava esperar uma fase de grupos decorativa. O que aconteceu foi diferente: o clube do interior paulista acumulou três das suas quatro vitórias jogando em casa, no estádio José Maria de Campos Maia, com capacidade para 15 mil pessoas — uma arena que caberia inteira nos vestiários de alguns rivais sul-americanos. A derrota por 1 a 0 para o Lanús, em Buenos Aires, na última rodada, tirou a liderança do grupo, mas não a classificação. Agustín Medina, com um chute cruzado após passe de Walter Bou, definiu o placar que rebaixou o Mirassol à condição de escolta — e, com isso, obrigou o clube a enfrentar a fase de oitavas pelo lado mais difícil do chaveamento.

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Reparemos no detalhe: Rafael Guanaes não escalou seus melhores jogadores contra o Lanús. Walter, Denilson, Tiquinho Soares, Victor Luís e Edson Carioca sequer viajaram à Argentina. Shaylon ficou no banco e não entrou. O técnico já sabia que a classificação estava garantida desde a rodada anterior e optou por preservar o grupo pensando no Brasileirão — especificamente na visita ao Athletico-PR, na Arena da Baixada, neste sábado, às 16h, com o retorno previsto de todos os poupados.

A matemática do rebaixamento pressiona mais do que o mata-mata

A conta é crua: o Mirassol está na 18ª colocação do Brasileirão com 16 pontos — quatro a menos que o primeiro clube fora da zona de rebaixamento. A Libertadores é uma conquista histórica para um clube fundado há 15 anos no profissionalismo, mas o campeonato nacional paga as contas. Jogadores como Negueba, Igor Formiga e Nathan Fogaça seguem no departamento médico, o que estreita ainda mais a margem de manobra de Guanaes para rodar o elenco sem perder qualidade.

A estratégia do rodízio na Argentina não é improvisação — é gestão de recurso escasso. Um clube com o orçamento do Mirassol não tem profundidade de elenco para absorver desgastes simultâneos em duas frentes sem que a qualidade caia. A viagem a Buenos Aires com mais de 100 torcedores, incluindo o ídolo Camilo, ex-meia com 108 partidas e 28 gols pelo clube, foi um símbolo do que esse projeto representa afetivamente. Mas afeto não pontua no Brasileirão.

Nas redes sociais após a derrota por 1 a 0, Camilo lamentou o resultado, mas destacou o orgulho de viver a experiência ao lado do clube e ressaltou que o grupo presente em Buenos Aires representava muitos outros torcedores que não conseguiram viajar até a Argentina.

O ex-meia, que encerrou a carreira no Paulista de Jundiaí após disputar a Série A3 do Campeonato Paulista nesta temporada, hoje trabalha para se tornar treinador e já possui a Licença A da CBF. A trajetória de Camilo — três passagens pelo clube, um acesso à Série B — é um espelho da própria ascensão do Mirassol: gradual, consistente e improvável para quem olha de fora.

Oitavas da Libertadores com olho no relógio do Brasileirão

A classificação às oitavas, ao lado de Liga de Quito como líder do Grupo G, coloca o Mirassol num território inédito para um clube da sua dimensão. O sorteio das oitavas de final definirá o adversário, mas o desafio logístico e financeiro já está dado: viagens internacionais têm custo real — passagens, hospedagem, taxas da Conmebol — e o estádio com 15 mil lugares limita a receita de bilheteria que poderia compensar parte dessas despesas.

Guanaes terá de resolver uma equação com muitas variáveis nas próximas semanas: o jogo contra o Athletico-PR, na Arena da Baixada neste sábado, precisa de resultado positivo para aliviar a pressão do rebaixamento antes da parada para a Copa do Mundo. Só depois disso o clube poderá se concentrar plenamente na preparação para o mata-mata continental. A prioridade, ainda que não declarada publicamente, está estampada nas escolhas do treinador: titulares poupados na Argentina voltam ao time para enfrentar o Furacão.

Segundo o técnico Rafael Guanaes, o time misto escalado contra o Lanús foi uma decisão calculada — a classificação já estava assegurada, e o foco imediato recaía sobre o compromisso pelo Brasileirão.

Uma matéria do SportNavo apurou que a tendência é que Walter assuma o gol, Daniel Borges e Reinaldo os flancos, com Tiquinho Soares e Edson Carioca como referências ofensivas — exatamente o núcleo que foi preservado em Buenos Aires. O Athletico-PR, portanto, encontrará um time diferente do que o Lanús enfrentou. O Mirassol que chega às oitavas da Libertadores é o mesmo que ainda precisa provar, semana a semana, que pertence à Série A. Como uma receita que exige temperatura certa em momentos distintos — o forno da Libertadores e a frigideira do Brasileirão não combinam mal, mas exigem atenção separada para que nenhum prato queime.