Não é apenas uma partida de abertura de grupo. O que acontece em 12 de junho nos EUA tem camadas que vão muito além dos 90 minutos — é a noite em que uma seleção volta ao palco que abandonou há 16 anos, e outra enfrenta o peso de ser anfitriã diante de um mundo inteiro assistindo. EUA e Paraguai, Grupo D da Copa do Mundo de 2026, numa sexta-feira que no Brasil é Dia dos Namorados, com o apito marcado para as 22h.

O peso simbólico de uma estreia em casa

O calor de junho nos Estados Unidos não é apenas climático. Há uma pressão que se acumula desde que o país foi escolhido como sede — a pressão de um povo que ama esporte, mas ainda está aprendendo a amar este esporte. A estreia americana em casa tem tudo para ser uma festa enorme, e a presença confirmada de Donald Trump nas tribunas — detentor do Prêmio da Paz da Fifa — adiciona uma camada política que o futebol raramente carrega tão abertamente.

No banco, Mauricio Pochettino tenta transformar uma geração de jogadores dispersos pela Europa num time coeso o suficiente para sobreviver a um grupo que, no papel, parece acessível. Christian Pulisic, hoje no Milan após passagem pelo Chelsea, é o rosto desse projeto — habilidoso, experiente em Champions League, capaz de decidir em noites grandes. A questão que Pochettino ainda não respondeu publicamente é: essa seleção sabe jogar sob pressão de 80 mil pessoas que esperam vitória?

"Temos jogadores que competem nas maiores ligas do mundo. Chegamos prontos", disse Pochettino em entrevista coletiva antes da Copa, sem revelar a escalação titular para a estreia.

Dezesseis anos de espera paraguaia

Há algo de melancólico e ao mesmo tempo glorioso na trajetória do Paraguai até este jogo. A última vez que a seleção guarani pisou num Mundial foi na África do Sul, em 2010 — e não foi uma participação qualquer. Os paraguaios chegaram às quartas de final, eliminados pela Espanha, a eventual campeã do torneio. Foi a melhor campanha da história do país numa Copa do Mundo, e ficou gravada na memória de uma geração inteira.

Dezesseis anos. Quatro ciclos eliminatórios. Uma série de tentativas frustradas nas Eliminatórias Sul-Americanas, onde cada ponto é disputado na altitude de Assunção ou no calor de Barranquilla. A volta ao Mundial, portanto, não é só uma classificação estatística — é o fim de um jejum que pesava no peito de um povo inteiro. Os paraguaios jogam suas partidas desta Copa apenas em estádios que já receberam o Super Bowl: San Francisco e Los Angeles, dois dos maiores palcos esportivos do país anfitrião.

"Voltamos ao lugar onde merecemos estar", declarou o capitão paraguaio em entrevista ao site oficial da Fifa, sem esconder a emoção pela classificação inédita após tanto tempo.

O Grupo D e o que cada seleção precisa provar

O Grupo D tem ainda Austrália e Turquia, que se enfrentam na madrugada do dia 14 em Vancouver, no Canadá — o único duelo da chave fora do território americano. Os australianos chegam como os mais recentes em termos de experiência: terminaram em 11º lugar no Mundial do Qatar em 2022, eliminados pela Argentina por 2 a 1 nas oitavas. Os turcos têm em Arda Güler, meia-atacante de 21 anos do Real Madrid, sua principal esperança — um jogador que literalmente não havia nascido quando a Turquia jogou sua última Copa, em 2002.

Para os americanos, vencer o Paraguai na estreia é mais do que três pontos. É uma declaração de intenções para o torneio que disputam em casa, e a validação de um projeto que Pochettino construiu ao longo de meses. Para os paraguaios, empatar ou vencer seria uma resposta histórica ao silêncio de 16 anos — uma prova de que a geração atual não está aqui apenas para participar. Em matéria do SportNavo, os dados das Eliminatórias mostram que o Paraguai chegou à Copa com uma das defesas mais sólidas da América do Sul na fase final da classificação.

Uma sexta-feira de junho que o futebol não vai esquecer

No Brasil, será Dia dos Namorados. O friozinho de pré-inverno vai cobrir as noites, e quem não tiver planos às 22h terá uma razão concreta para ficar em casa: um jogo que mistura a festa americana com a volta de uma seleção que faz parte do imaginário do futebol sul-americano. Larissa Riquelme, a torcedora-símbolo do Paraguai que virou capa da Playboy brasileira após a Copa de 2010, já avisou que estará nos Estados Unidos para apoiar a seleção — um detalhe que diz muito sobre como esse retorno é tratado como evento cultural, não só esportivo.

O calendário do Grupo D prossegue com mais dois confrontos para cada seleção após a estreia. O Paraguai, especificamente, terá seus próximos jogos em San Francisco e Los Angeles — estádios que já receberam o Super Bowl e que prometem atmosferas que poucos atletas sul-americanos já vivenciaram. Para Pulisic e os americanos, a sequência do grupo dirá se Pochettino realmente construiu algo sólido ou se a festa da estreia foi só fachada.

A bola rola em 12 de junho. Nas arquibancadas, uma bandeira guarani vermelha e branca vai tremular pela primeira vez em 16 anos num Mundial — e do outro lado do campo, 80 mil americanos vão gritar o nome do próprio país, esperando que desta vez a festa dure até o fim.