Confesso: eu errei sobre Endrick em 2024. Achei que ele seria apenas um garoto de potencial, daqueles que a gente superestima na euforia da convocação. Hoje, vendo o que o trio REI está construindo na preparação para a Copa do Mundo, entendo o tamanho do erro.
A CBF confirmou na manhã desta quinta-feira (4) que Neymar não viajará com a delegação para Cleveland, onde o Brasil enfrenta o Egito no sábado (6), às 19h de Brasília. O atacante permanece em Nova Jersey tratando uma lesão grau 2 na panturrilha direita, com expectativa de retornar aos trabalhos no gramado apenas na segunda-feira (8) — e ainda assim sem participação em treinos coletivos. A expectativa da comissão técnica é contar com ele apenas no dia 19, contra o Haiti, na Filadélfia.
O que os números do Panamá revelam sobre o trio REI
No amistoso do último domingo (31), o Brasil goleou o Panamá com Rayan e Igor Thiago balançando as redes. Mas os gols são só a superfície. O que chama atenção nas métricas dos três é a complementaridade.

Três indicadores explicam bem o que está acontecendo:
- xG (expected goals) — mede a qualidade das chances criadas com base na posição do chute e do tipo de jogada. Igor Thiago, que fechou a Premier League 2025/26 com 19 gols, tem um xG acumulado alto porque ataca espaços dentro da área com eficiência. Não é goleador de sorte.
- Progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Endrick, mesmo atuando como referência central, participa da construção com passes progressivos que ligam o meio ao ataque. É o que diferencia um centroavante moderno de um simples finalizador.
- Defensive actions — pressão alta, interceptações e duelos defensivos iniciados pelo próprio atacante. Rayan lidera esse número entre os três, o que explica por que Ancelotti consegue usar um bloco mais compacto sem abrir mão de velocidade na transição.
O que para o argentino é um nueve de área clássico — pesado, referência para cruzamentos — para o português é um falso nove que desce para construir. O trio REI não é nenhum dos dois: é uma linha ofensiva que pressiona com PPDA baixo (poucos passes permitidos ao adversário antes de sofrer pressão) e ainda tem volume de finalização. Isso é futebol europeu contemporâneo aplicado com velocidade sul-americana.
A cena da coletiva que a CBF não planejou mas precisava acontecer
Na quarta-feira (3), enquanto Igor Thiago atendia jornalistas em coletiva de imprensa no Columbia Park Training, em Morristown, Endrick e Rayan decidiram "invadir" o evento. Os dois se sentaram entre os repórteres, pegaram cadernos e fingiram trabalhar na cobertura. Endrick chegou a pegar o microfone e perguntar ao companheiro como ele estava se sentindo integrado ao grupo.
"O atleta Neymar não viajará com a delegação para Cleveland. Ele ficará em Nova Jersey, em tratamento de fisioterapia, e intensificando a programação de recuperação física", informou a CBF por meio de nota oficial.
A repercussão foi tão positiva que a própria CBF compartilhou o momento nos canais oficiais e divulgou até as anotações feitas por Rayan durante a entrevista do amigo. O ilustrador Vascomics publicou uma arte em homenagem ao trio e recebeu atenção do próprio Igor Thiago, que visualizou a publicação. Nenhum assessor de marketing planejou isso. Surgiu naturalmente — e é exatamente esse tipo de entrosamento que aparece nos dados de pass network, a rede de passes que mostra quão conectados os jogadores estão em campo.
Uma música com a letra "Oi, boa noite, será que vai ter gol do Rayan hoje?" já circula entre torcedores e embala os momentos da concentração. O carinho popular cresceu rápido, mas tem base concreta: dois gols no amistoso contra o Panamá e métricas que sustentam o entusiasmo.
O que ainda falta resolver antes de estrear na Copa
A pergunta que fica, levantada em matéria do SportNavo nos últimos dias, é se esse trio consegue manter o desempenho contra adversários com bloco médio-baixo — o tipo de organização que o Brasil vai enfrentar na fase de grupos. Contra o Panamá, os espaços existiam. Contra seleções que defendem com linhas de quatro compactas e PPDA alto (ou seja, que permitem muita circulação antes de pressionar), o xA — expected assists, métrica que avalia a qualidade das chances geradas por passes — precisa crescer.
Igor Thiago tem xG compatível com o nível de Copa, mas ainda precisa mostrar consistência em jogos de maior pressão. Rayan tem os defensive actions para pressionar a saída de bola adversária, mas a eficiência nos últimos metros ainda oscila. Endrick é o mais completo dos três em termos de progressive passes e leitura de jogo, mas carrega a expectativa de ser o decisivo — e isso pesa.
"Queria ter feito mais pelo clube", disse Oscar em vídeo publicado nas redes sociais — uma frase que ecoa como lembrete de que talento sem oportunidade some. O trio REI tem a oportunidade. O que fazem com ela começa a se definir no sábado (6), em Cleveland, contra o Egito.
Confesso: eu acertei sobre Endrick em 2026. E hoje, vendo o que o trio REI está construindo na preparação para a Copa do Mundo, entendo o tamanho da oportunidade.









