12 milhões de assinaturas em menos de 24 horas. Esse foi o ritmo com que a petição "Mbappé fora" viralizou na Espanha após o atacante ser fotografado de férias na Sardenha enquanto o Real Madrid enfrentava o Espanyol na La Liga. O número chegou a 70 milhões. Para um jogador que deveria estar se preparando para a Copa do Mundo, o timing não podia ser pior.
A temporada que explodiu por dentro no Real Madrid
Antes das férias polêmicas, houve o episódio que define melhor o estado emocional de Mbappé nessa reta final de temporada. De acordo com o The Athletic, o atacante de 27 anos entrou em confronto direto com um membro da comissão técnica antes da partida contra o Real Betis, no final de abril, após ser marcado como impedido em um jogo-treino. A reação foi uma enxurrada de insultos — um sinal de que o ambiente no clube havia se tornado tóxico de verdade.
O contexto importa aqui. Com a saída de Carlo Ancelotti e a chegada de Álvaro Arbeloa ao comando interino, Mbappé perdeu o principal aliado técnico que tinha no clube. Segundo reportagens da época, a frustração do francês estava diretamente ligada a essa demissão. A relação com Arbeloa foi deteriorando até o ponto em que o próprio atacante parou a imprensa após entrar como substituto para declarar que estava "100%" — e que havia sido rebaixado à condição de quarto atacante.
"Ele deve ter me entendido mal, em nenhum momento eu disse que ele era o quarto atacante. Um jogador que há quatro dias nem estava em condições físicas para ficar no banco de reservas não deveria ter sido titular hoje."
A resposta de Arbeloa, dada em coletiva de imprensa, expôs o tamanho do racha. O The Athletic noticiou que havia "decepção crescente" com Mbappé, "do vestiário até a diretoria". Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica: um jogador que chegou como o maior contrato da história do clube se despediu da temporada como persona non grata.
A lesão no tendão e a decisão que virou o torcedor contra ele
No mesmo confronto contra o Betis em que aconteceu o confronto nos bastidores, Mbappé sofreu uma lesão no tendão da coxa. A partir daí, as decisões que tomou amplificaram a crise. Em vez de permanecer em Valdebebas para se recuperar sob supervisão médica do clube, viajou para a Sardenha com a atriz espanhola Ester Expósito — e foi fotografado em um iate. O Real perdeu o Clássico contra o Barcelona nesse período, entregando o título da La Liga aos rivais.
Do ponto de vista de desempenho, a temporada já havia sido inconsistente antes disso. Quando se analisa os dados de progressive passes recebidos e xG (expected goals — a métrica que mede a qualidade das chances criadas, não apenas os gols marcados), Mbappé oscilou muito ao longo da 2025/2026. Comparado ao seu primeiro ano no PSG, quando gerava em média 0,62 xG por 90 minutos, os números no Real ficaram abaixo de 0,45 xG/90 nas últimas 12 rodadas — reflexo direto de um jogador desconectado do sistema.
Outro dado que chama atenção: o PPDA (passes permitidos por ação defensiva, que mede a intensidade da pressão coletiva) do Real Madrid caiu nas partidas em que Mbappé atuou como titular nos últimos dois meses. Não é causalidade direta, mas indica que o time como um todo pressionou menos quando ele estava em campo — o que sugere falta de sincronismo entre o atacante e o bloco defensivo do sistema.
Quem sai ganhando com um Mbappé motivado pela Copa
Mas a Copa do Mundo sempre foi diferente para ele. Aos 19 anos, na Rússia em 2018, já havia marcado três gols e recebido comparações com Ronaldo Fenômeno. O doblete contra a Argentina nas oitavas daquele torneio colocou seu nome em editoriais da The New Yorker. A Copa é o ambiente onde Mbappé historicamente eleva seu nível de xA (expected assists — a qualidade das chances que ele cria para os companheiros) e de defensive actions, mostrando um jogador mais comprometido com o coletivo.

Então a pergunta que importa agora é: qual Mbappé chega ao torneio — o que explodia contra a comissão técnica em abril, ou o que fez a Argentina inteira correr em 2018?

A resposta vai definir o caminho da França. Com Dembélé e Olise como opções no ataque, Didier Deschamps tem alternativas reais caso Mbappé chegue abaixo do ritmo. Mas quando o francês está em modo Copa — combinando velocidade de transição com passes progressivos que quebram linhas — o xG coletivo da seleção sobe de forma considerável. Em matéria do SportNavo, os números da França nos últimos dois amistosos mostraram um Mbappé com 4,1 progressive passes por 90 minutos, acima da sua média de clube nesta temporada.
O efeito cascata na Copa e o que vem depois
Para a França, a equação é simples: se Mbappé render abaixo de 0,5 xG/90 na fase de grupos, Deschamps vai precisar reorganizar o ataque em torno de Olise como criador central, o que muda toda a pass network da seleção. Se render acima disso, os adversários terão que alocar dois marcadores específicos para ele — o que libera espaço para Tchouaméni e Camavinga no meio-campo.
O futuro no Real Madrid também depende diretamente dessa Copa. Com contrato até 2029 e uma relação desgastada com o elenco e a diretoria, uma campanha brilhante na Copa do Mundo seria o único argumento capaz de virar o jogo. A França estreia no Grupo D nesta semana, e Mbappé entra em campo sabendo que cada gol marcado aqui vale mais do que qualquer declaração à imprensa que ele possa dar em Madri.








