Dezenove anos. Camisa 9. Contrato com o Real Madrid. Três coisas: idade, posição e contrato. Tudo se explica daí.
Fernando Campos, o Donan, comentarista da Cazé TV, não teve rodeios ao falar sobre Endrick na série Vozes da Copa, publicada pelo Lance!. Para ele, o atacante deveria estar entre os titulares de Carlo Ancelotti desde o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Mas o que sustenta esse argumento além da intuição? Vamos aos números.

O que Donan viu em Endrick que o dado confirma
A frase de Donan é direta demais para ser ignorada.
"Eu colocaria o Endrick como titular. Abraçaria ele. Acho que é um cara iluminado. Ficaria com ele jogando como um camisa nove. Não consigo enxergar o Brasil sendo campeão sem a influência do Endrick na Copa", afirmou Fernando Campos ao Lance!.
A passagem pelo Lyon na temporada 2025/2026 transformou o perfil estatístico de Endrick de forma concreta. O atacante acumulou 8 gols na Ligue 1, mas o número bruto é apenas a superfície. O que impressiona na análise de dados é a relação entre xG (expected goals — a probabilidade acumulada de gol com base na qualidade dos chutes) e gols reais: Endrick superou seu xG em pelo menos 1,4 unidades ao longo da temporada, o que indica um finalizador acima da média esperada pelo modelo. Em linguagem simples: ele converte chances que outros atacantes desperdiçam.

Outro ponto relevante é o volume de progressive passes received — passes progressivos recebidos, ou seja, quantas vezes o jogador se movimenta para receber a bola em zonas de avanço. Endrick figura entre os centroavantes mais ativos da Ligue 1 nesse quesito, o que demonstra mobilidade fora da área e capacidade de construir jogadas além do gol. Para um time que precisa de profundidade e verticalidade no ataque, esse dado é ouro.
- xG superado em +1,4 na temporada pelo Lyon — finalizador acima da curva esperada
- Progressive passes received entre os maiores do torneio — mobilidade e participação na construção
- 8 gols em 2025/2026 pelo Lyon, consolidando a vaga na Copa, conforme registrado pelo SportNavo
Os desfalques que abriram a janela para Endrick na Seleção
A Copa começa com ausências pesadas — e isso muda o cálculo tático de Ancelotti.
Donan citou diretamente os nomes que ficaram de fora da convocação por lesão: Éder Militão, Estêvão e Rodrygo. Três peças que teriam impacto direto no sistema ofensivo do Brasil. Com Rodrygo fora, a função de segundo atacante com mobilidade lateral fica em aberto — e Endrick, que pode operar tanto como 9 puro quanto como referência em um ataque de dois, passa a ser candidato natural à titularidade.
A métrica de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) ajuda a entender o estilo de jogo que Ancelotti tende a montar: quanto menor o PPDA adversário, mais intensa é a marcação alta. Para pressionar linhas defensivas organizadas — como a do Marrocos, que Donan apontou como o jogo-chave do grupo —, o Brasil precisa de um centroavante que pressione a saída de bola e gere transições rápidas. Endrick, com sua intensidade e capacidade de pressing, encaixa melhor nesse perfil do que um 9 estático.
"Sofremos bastante com desfalques por lesões. O Militão, Estêvão e Rodrygo. Temos atletas importantes de fora. Isso seria impactante para qualquer seleção, por conta do nível deles. Mas tirando isso, acho que a Seleção pode surpreender. Confio muito no Ancelotti", declarou Donan.
Neymar convocado, Endrick no banco — e o paradoxo que Donan expõe
Aqui está a tensão real do debate: Neymar foi convocado, Endrick provavelmente começa no banco.
Donan admitiu que chegou a defender a não convocação do camisa 10, mas recuou na reta final. Ao mesmo tempo, foi claro ao dizer que não espera que Ancelotti escale Endrick como titular no primeiro jogo — apesar de defender essa escolha. O paradoxo é esse: o técnico italiano tem um jogador em ascensão estatística clara, com xA (expected assists — probabilidade acumulada de assistências geradas) crescente no Lyon, e pode mantê-lo no banco por questões de hierarquia.
O dado de xA é relevante aqui porque desfaz a narrativa de que Endrick é apenas um goleador. Na temporada 2025/2026, ele acumulou participações em gols que vão além das finalizações, com ações que geraram oportunidades para companheiros em zonas de meia-distância. Isso o aproxima de um 9 moderno — não o centroavante que fica parado esperando a bola na área, mas o que participa da construção e pressiona a linha defensiva adversária.
"O Endrick pode ser a revelação da Copa. Ele pode chegar, atropelar e ser um protagonista", reforçou Fernando Campos.
O Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos, jogo que Donan classificou como o mais difícil da fase de grupos — uma seleção que chegou às semifinais do Mundial anterior e que tem o PPDA mais baixo entre as equipes africanas convocadas, o que significa pressão alta e intensidade defensiva. Se Ancelotti precisar de um jogador capaz de criar profundidade em espaços reduzidos e converter meias chances, a janela para Endrick pode se abrir antes do que o comentarista da Cazé TV imagina.
Uma receita tem ingredientes que ficam guardados até o prato pedir — não porque são ruins, mas porque o momento exige a temperatura certa. Endrick é esse ingrediente: pronto, testado, esperando o forno chegar nos 200 graus.









