Se o São Paulo chegasse ao fim de semana ainda sem técnico, com Fluminense pela frente na sexta-feira (16) e o Millonarios na Copa Sul-Americana em poucos dias, o buraco seria ainda maior do que o deixado pela saída de Roger Machado na quarta-feira. Mas a diretoria tricolor não esperou o prazo vencer. Na manhã desta sexta-feira (15), Rui Costa e Rafinha embarcaram para Florianópolis e trouxeram de volta o nome que o Morumbi nunca esqueceu completamente.

Dorival Júnior aceitou a proposta do São Paulo e será anunciado nas próximas horas como o novo técnico do clube, com contrato até dezembro. O acerto encerra uma pausa que ele mesmo havia planejado — segundo informações da ESPN, o treinador tinha como objetivo ficar afastado até o fim da Copa do Mundo após a demissão do Corinthians, ocorrida há pouco mais de um mês. Foram os cartolas tricolores que cruzaram o país para convencê-lo a mudar de ideia.

O peso do histórico que abriu as portas em Florianópolis Dorival voa de Florianó
O peso do histórico que abriu as portas em Florianópolis Dorival voa de Florianó

O peso do histórico que abriu as portas em Florianópolis

Não foi qualquer proposta que tirou Dorival do plano de repouso. Foi o São Paulo. O técnico deixou o clube em janeiro de 2024 para assumir a Seleção Brasileira, mas saiu com portas abertas — frase que, no futebol, raramente é literal. Desta vez foi. A explicação está no que ele construiu entre 2023 e aquela virada de ano: uma campanha na Copa do Brasil que eliminou Palmeiras, Corinthians e Flamengo, entregando ao clube seu primeiro título na competição. Títulos desse peso criam uma espécie de crédito emocional com o elenco, e a apuração do SportNavo confirma que os jogadores receberam bem o retorno, enxergando no treinador alguém capaz de dar estabilidade num momento turbulento da temporada.

A trajetória de Dorival no São Paulo, porém, não é linear. Antes do ciclo vitorioso de 2023, houve uma primeira passagem que começou em 2017 com uma missão emergencial — evitar o rebaixamento no Brasileirão — e terminou sem cerimônia no início de 2018. Dois capítulos radicalmente diferentes escritos no mesmo endereço.

Quem sai perdendo com a chegada do novo técnico

Roger Machado, demitido na quarta-feira, paga o preço de uma sequência de resultados que a diretoria considerou insuficiente para as ambições do clube na temporada 2026. A saída foi rápida e o substituto foi encontrado ainda mais rápido, o que expõe a lógica de que o nome de Dorival estava em lista curta há algum tempo. Segundo informações anteriores à negociação, o treinador já havia sido sondado durante a passagem de Luis Zubeldía pelo Morumbi, mas optou pelo rival após encerrar seu ciclo na CBF.

No Corinthians, Dorival conquistou a Copa do Brasil em 2025 e a Supercopa do Brasil em 2026 — dois títulos concretos que ampliam a régua com a qual será avaliado agora no retorno. A queda após uma série de resultados ruins no Parque São Jorge não apagou esse currículo, mas criou o contexto que o levou, paradoxalmente, de volta ao Morumbi.

"A ideia de uma breve pausa na carreira foi interrompida justamente por ser o São Paulo", noticiou a ESPN, sintetizando o raciocínio que levou o treinador a abandonar o plano de descanso.

O efeito cascata num calendário implacável

Dorival herda um calendário que não dá margem para adaptação lenta. O São Paulo enfrenta o Fluminense nesta sexta-feira (16) às 19h, pelo Brasileirão, com o treinador ainda sendo anunciado enquanto o jogo se aproxima. Na sequência, o Millonarios espera pela equipe na Sul-Americana no dia 19, às 21h30, e o Botafogo fecha o bloco no dia 23, às 17h, novamente pelo Brasileirão. Três jogos em oito dias, dois deles fora de casa, dois em competições diferentes — a pressão imediata é um corredor sem saída.

A Sul-Americana, especificamente, representa um vetor de tensão adicional. Diferentemente da Libertadores, onde erros pontuais ainda permitem recuperação em fases longas, a Copa Sul-Americana exige consistência na fase de grupos para não gerar uma crise dupla — campo e tabela. Dorival precisará calibrar o elenco rapidamente para não deixar que a turbulência da troca de comando vire combustível para uma sequência negativa.

O São Paulo que Dorival encontra agora não é o de 2023

O cenário macro é o de um clube que passou por Rogério Ceni, pela chegada de Zubeldía, pela Copa do Mundo de Clubes e agora pela terceira troca de ciclo técnico em pouco tempo. O elenco que Dorival recebe em 2026 tem rostos conhecidos, mas também uma carga de instabilidade que 2023 não tinha — naquele ano, ele chegou com a missão clara de construir algo, e o grupo respondeu com um título inédito. Agora chega para estabilizar, e esse é um trabalho diferente, que exige o mesmo rigor tático mas uma habilidade distinta de leitura de grupo.

Rafinha, que participou diretamente da negociação em Florianópolis, é um dos personagens que conhece de perto a dinâmica do futebol de alto nível e entende o peso simbólico de trazer de volta um técnico que entregou um título histórico. A aposta da diretoria é que a memória afetiva do elenco e da torcida seja o atalho mais curto para a reconexão. É o mesmo cenário que o São Paulo viveu em 2023, quando Dorival chegou para substituir Rogério Ceni num momento de crise — só que agora a aposta é reconstruir com alguém que já sabe exatamente quais paredes do Morumbi guardam eco.