O lutador que perdeu o cinturão foi o mesmo que dominou o primeiro round. Esse paradoxo é o coração da discussão que tomou conta dos pesos-médios do UFC depois do UFC 328, e Dricus Du Plessis foi o primeiro a nomear o elefante na sala.

12 libras em 24 horas e Du Plessis não pisca

O irmão de Khamzat Chimaev, Artur, e o companheiro de treino Arman Tsarukyan foram rápidos em apontar o corte de peso como vilão da derrota para Sean Strickland na decisão dividida do UFC 328. Tsarukyan revelou que Chimaev cortou 12 libras nas últimas 24 horas antes da pesagem — número que, para Du Plessis, não justifica absolutamente nada.

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"Eu acho que essa desculpa do corte de peso é ridícula, para ser honesto. Tsarukyan disse que ele cortou 12 libras em 24 horas. Esses são números de iniciante. Doze libras em 24 horas não é tão ruim. Eu definitivamente já fiz mais do que isso", disse Du Plessis ao podcast Fight Forecast.

O sul-africano não parou por aí. Reconheceu que cortes ruins acontecem com todos — inclusive com ele próprio — mas traçou uma linha clara entre ter um dia ruim na balança e usar isso como justificativa pública para uma derrota.

"Às vezes eu também já tive cortes ruins. Todo mundo que corta peso já passou por isso. Mas você não sai por aí dizendo 'perdi a luta por causa disso'. Se quiser mudar de categoria, mude. Mas culpar o corte de peso é o mesmo que dizer que perdeu porque não estava em forma. É sua responsabilidade. Seja mais disciplinado", completou o ex-campeão.

O que a luta contra Strickland realmente mostrou sobre Chimaev

A derrota de Chimaev para Strickland no UFC 328 foi a primeira defesa do cinturão dos pesos-médios do checheno desde que ele derrotou o próprio Du Plessis em agosto de 2025, no UFC 319, em Chicago. O retrospecto desse confronto específico torna a análise ainda mais interessante: Chimaev venceu Du Plessis, mas chegou ao segundo reinado com uma vitória que não foi dominante nos rounds finais.

Contra Strickland, o padrão se repetiu de forma mais brutal. Chimaev dominou o primeiro round com wrestling agressivo e pressão constante — o que é, historicamente, seu arsenal mais letal. A partir do segundo round, o gás caiu de forma visível, e o americano começou a ditar o ritmo com striking limpo e defesa de queda sólida. Com o wrestling neutralizado, Chimaev tentou se firmar na trocação, terreno em que Strickland acumula volume e consistência ao longo de cinco rounds melhor do que qualquer outro contendor da divisão.

A questão que analistas do SportNavo e de outros portais especializados levantam há meses é se o problema de Chimaev é o corte de peso ou se é a capacidade cardiovascular nos rounds tardios — uma fragilidade que apareceu antes, em lutas longas, e que o corte de peso pode agravar, mas não cria do zero.

12 libras em 24 horas e Du Plessis não pisca Du Plessis chama desculpa de Chimae
12 libras em 24 horas e Du Plessis não pisca Du Plessis chama desculpa de Chimae

O corte de peso no UFC como debate permanente e inconclusivo

Chimaev compete no peso-médio (limite de 185 libras), mas seu frame físico é naturalmente maior — ele claramente carrega mais massa muscular do que a maioria dos competidores da categoria. A diferença de reach entre Du Plessis (186 cm, reach de 193 cm) e Chimaev (185 cm, reach de 193 cm) é mínima, mas o que difere os dois é a forma como chegam ao dia da luta após a pesagem oficial.

Du Plessis, que luta no peso-médio há anos, tem o processo de corte e reidratação mais rodado. Chimaev migrou do meio-pesado leve para o médio pesado, e cada transição de categoria carrega uma curva de adaptação fisiológica que vai além de simplesmente pular na balança. É como um guitarrista clássico tentando tocar jazz em um festival — o instrumento é o mesmo, mas a linguagem corporal ainda não é fluida.

O problema recorrente de corte no UFC não é exclusivo de Chimaev. Conor McGregor já foi apontado por médicos da Comissão Atlética de Nevada como um caso de desidratação severa antes do UFC 202. Renan Barão perdeu o cinturão dos galos para TJ Dillashaw em 2014 em uma noite que muitos atribuem parcialmente ao desgaste acumulado de cortes repetidos. Mas nenhum desses casos foi usado como argumento público pela equipe do lutador de forma tão imediata quanto o de Chimaev.

Du Plessis de volta à fila e o que vem a seguir para Chimaev

Com Strickland recuperando o cinturão dos pesos-médios no UFC 328, Du Plessis se posiciona naturalmente como o principal contendor da divisão — ele já foi campeão, já enfrentou os dois homens no topo, e sua sequência de cinco vitórias consecutivas antes da derrota para Chimaev em agosto de 2025 mantém seu nome relevante. O sul-africano tem 82,3% de accuracy em significant strikes quando pressiona para frente, número que o coloca entre os três melhores da categoria nesse quesito.

Para Chimaev, a situação é mais delicada. Uma derrota por decisão dividida na primeira defesa não encerra a carreira de ninguém, mas a narrativa do corte de peso criada pela equipe pode funcionar como um bumerangue: se o checheno pedir uma revanche com Strickland e voltar a fatigar nos rounds finais, a desculpa não estará disponível uma segunda vez.

A próxima movimentação concreta é a defesa de Strickland, com Du Plessis já sinalizando publicamente interesse no confronto. Se o UFC confirmar o booking ainda no segundo semestre de 2026, será a terceira vez que os dois homens orbitam o mesmo cinturão — e desta vez, Du Plessis chega sem o ônus de ser o desafiante estreante.

O que a luta contra Strickland realmente mostrou sobre Chimaev Du Plessis chama
O que a luta contra Strickland realmente mostrou sobre Chimaev Du Plessis chama

Chimaev deixando o octógono do UFC 328 com o rosto limpo e o cinturão nas mãos de outro homem. A câmera captura o momento exato em que ele olha para a faixa que acabou de sair de sua cintura — e a expressão não é de alguém que foi derrotado por uma balança.