Quantas atletas precisam falar publicamente para que um esporte pare e se olhe no espelho? No jiu-jitsu brasileiro, essa pergunta deixou de ser retórica quando a praticante Andressa Simas usou suas redes sociais para relatar conduta inadequada de André Galvão — o mesmo multicampeão mundial e líder da equipe Atos que já havia sido acusado pela atleta Alexa Herse em denúncia anterior que sacudiu a comunidade da arte suave.
O quadro que se forma não é apenas sobre um indivíduo. É sobre como uma modalidade que saiu dos porões dos ginásios cariocas para arenas lotadas em Las Vegas e Tóquio nunca construiu, no caminho, os alicerces institucionais que protegem quem treina dentro dela.
O que Alexa Herse e Andressa Simas relataram sobre Galvão
Alexa Herse foi a primeira a vir a público, descrevendo comportamento que ela classificou como assédio sexual por parte de André Galvão. O relato circulou em fóruns especializados e grupos de praticantes antes de ganhar cobertura na imprensa esportiva. Dias depois, Andressa Simas tornou o seu próprio caso público por meio de postagem nas redes sociais, afirmando que a conduta descrita por Herse correspondia a um padrão que ela mesma havia vivenciado dentro do ambiente da equipe Atos.
Nenhuma das duas atletas apresentou boletim de ocorrência tornado público até o momento desta reportagem — o que, por si só, já revela um dos problemas centrais do caso: a ausência de um canal formal, dentro do próprio esporte, para onde uma atleta possa direcionar uma denúncia sem depender exclusivamente da exposição nas redes sociais.
"Não vim a público para destruir ninguém. Vim porque silenciar não era mais uma opção", escreveu Andressa Simas em publicação nas redes sociais ao confirmar seu relato.
Galvão, que acumula títulos mundiais pela IBJJF e pela ADCC — o torneio de submission wrestling mais prestigiado do planeta — e que transformou a Atos em uma das academias mais influentes do cenário global, não respondeu publicamente às acusações de forma detalhada até o fechamento desta matéria.
O silêncio das federações e a voz das redes sociais
O que chama atenção neste episódio é menos o conteúdo das denúncias individuais e mais o vácuo institucional que as envolve. A IBJJF, federação que organiza os principais campeonatos mundiais do esporte, não emitiu nota pública sobre o caso. A CBJJ, entidade brasileira, também não se manifestou oficialmente. Quem preencheu esse espaço foram os próprios praticantes — atletas, professores e faixas-pretas de todo o Brasil que debateram o tema em stories, comentários e lives ao longo dos últimos dias.
A apuração do SportNavo identificou que o jiu-jitsu brasileiro, ao contrário de modalidades como o judô olímpico e o wrestling de alto rendimento, não possui um código de conduta público e vinculante aprovado por sua principal entidade, nem um canal de denúncias anônimas para atletas em situação de vulnerabilidade.
"No jiu-jitsu, o professor é tudo — ele dá a faixa, abre as portas das academias, indica para competições. Questionar essa figura tem um custo que muita atleta não está disposta a pagar sozinha", disse uma faixa-preta feminina ouvida pela reportagem, que pediu anonimato por temer represálias no ambiente competitivo.
O que para o futebol europeu é o caso Greenwood — um processo formal conduzido por clube, federação e Ministério Público em paralelo, com o jogador afastado preventivamente enquanto as investigações corriam — para o esporte sul-americano de combate ainda é, na maioria dos casos, uma disputa travada unilateralmente pela vítima nas redes sociais, sem estrutura jurídica ou institucional que ampare sua palavra.
André Galvão, a Atos e o que os números do esporte revelam
A Atos Jiu-Jitsu, equipe fundada e liderada por André Galvão em San Diego, na Califórnia, formou campeões mundiais em praticamente todas as categorias de peso nas últimas duas décadas. O cartel competitivo de Galvão inclui seis títulos mundiais pela IBJJF no peso-pesado e absoluto, além de duas conquistas no ADCC — em 2009 e 2011 — que o consolidaram como um dos maiores nomes da história do esporte.
Esse capital simbólico é exatamente o que torna o caso estruturalmente relevante. Quando o acusado é um atleta periférico, o esporte consegue processar a denúncia sem se questionar. Quando o acusado é o centro gravitacional de uma das maiores equipes do mundo, o silêncio das federações deixa de ser omissão casual e passa a ser uma escolha.
Dados da IBJJF mostram que o número de atletas femininas filiadas cresceu mais de 40% entre 2018 e 2023 em competições internacionais. O esporte expandiu sua base feminina de forma consistente — sem expandir, na mesma proporção, os mecanismos de segurança para essas atletas.
O próximo grande evento da IBJJF no calendário é o Pan-Americano de Jiu-Jitsu, previsto para o segundo semestre de 2026, com atletas da equipe Atos já inscritas nas categorias de elite. Vale acompanhar se, até lá, alguma das federações envolvidas terá emitido um posicionamento formal sobre o caso ou dado início a qualquer processo disciplinar — porque a resposta institucional a essa pergunta dirá mais sobre o futuro do esporte do que qualquer medalha conquistada no tatame.












