Diz-se que seleções que dependem de um veterano de 40 anos para jogar uma Copa do Mundo estão vivendo de passado. No caso da Bósnia e Herzegovina, não é bem assim — e o motivo diz mais sobre a construção do elenco do que sobre a idade de Edin Džeko. O centroavante do Schalke 04 não está na lista porque não há alternativa; está porque, mesmo na quinta década de vida, segue sendo o jogador com maior capacidade de organizar o jogo ofensivo bósnio em situações de pressão, algo que ficou evidente na repescagem europeia contra a Itália.
A classificação que ninguém esperava e o que ela revela
A Copa do Mundo 2026 será apenas o segundo Mundial da história da Bósnia — o primeiro foi em 2014, no Brasil, onde a seleção caiu na fase de grupos com uma vitória, uma derrota e um empate. A classificação para a edição norte-americana veio por uma rota improvável: a repescagem europeia, onde a Bósnia eliminou a Itália nos pênaltis. Quatro vezes campeã do mundo, a seleção italiana foi afastada por um time que, no ranking FIFA, ocupa posição consideravelmente inferior. Esse resultado não é apenas moral — é dado de contexto para entender o que o técnico Sergej Barbarez construiu taticamente.
A lista final de 26 convocados, divulgada na manhã desta segunda-feira (11 de maio), apresenta um elenco geograficamente disperso pelo futebol europeu. Nikola Vasilj defende o gol do FC St. Pauli na Bundesliga alemã; Tarik Muharemovic atua no Sassuolo, na Série A italiana; Benjamin Tahirovic joga pelo Brøndby, na Dinamarca; e Kerim Alajbegovic está no Red Bull Salzburg, da Áustria. A dispersão não é fraqueza — é sinal de que jogadores bósnios estão sendo absorvidos por mercados competitivos.
Džeko como referência e os números que sustentam a escolha
Maior artilheiro da história da seleção bósnia, Džeko chega à Copa com uma trajetória que inclui passagens por Manchester City, Roma, Inter de Milão e Fenerbahçe antes de fechar com o Schalke 04 na temporada 2025/2026. Aos 40 anos, sua participação no torneio levanta questionamentos legítimos sobre mobilidade e ritmo, mas o técnico Barbarez aposta em algo que os dados de xG (expected goals — uma métrica que estima quantos gols um jogador deveria marcar com base na qualidade das chances criadas) tendem a confirmar: Džeko gera oportunidades de gol para si e para companheiros a uma taxa que ultrapassa sua contribuição estatística direta em finalizações. Em outras palavras, ele movimenta a defesa adversária e cria espaço para os jogadores ao redor, mesmo quando não finaliza.
Ao lado dele, o nome que mais chama atenção entre os atacantes é Ermedin Demirovic, do VfB Stuttgart, que disputou a Bundesliga nesta temporada e é um dos bósnios com maior regularidade em liga de alto nível. Haris Tabakovic, do Borussia Mönchengladbach, também figura na lista como alternativa ao setor ofensivo.
Segundo o técnico Sergej Barbarez, a aposta em uma mescla de jovens talentos e a experiência de Džeko representa exatamente o modelo de equilíbrio que a seleção precisava para competir em alto nível no Mundial.
O Grupo B e o calendário bósnio no Mundial
A Bósnia foi sorteada no Grupo B ao lado do Canadá, da Suíça e do Catar. A estreia acontece no dia 12 de junho, em Toronto, contra o Canadá — que disputa o torneio como um dos países-sede e terá apoio de torcida considerável. A Suíça, por sua vez, é a seleção mais perigosa do grupo em termos de consistência recente: a equipe helvética tem histórico de avançar fases em Copas do Mundo e possui elenco maduro.
Na lateral, Sead Kolasinac, da Atalanta, representa uma das referências defensivas da equipe — o jogador tem experiência em Premier League e nas competições europeias pelo clube italiano. No meio-campo, Amir Hadziahmetovic, do Hull City, e Dennis Hadzikadunic, da Sampdoria, compõem um setor que mistura experiência de Championship inglesa com Serie B italiana, o que pode ser uma limitação em jogos de alta intensidade contra seleções de maior rodagem europeia.
A Bósnia, portanto, não chega à Copa como favorita nem como mera figurante. O elenco tem qualidade técnica distribuída em ligas de médio e alto escalão europeu, um centroavante histórico que ainda funciona como referência tática e uma classificação conquistada da forma mais difícil possível — batendo a Itália nos pênaltis. O primeiro teste concreto chega em 12 de junho: se a Bósnia surpreender o Canadá em Toronto, a conversa sobre avançar às oitavas de final deixa de ser hipótese e passa a ser cálculo real.
A pergunta que fica é concreta: se Džeko marcar na estreia e a Bósnia vencer o Canadá, Barbarez vai mantê-lo como titular também diante da Suíça — ou a gestão física do veterano vai exigir uma rotação que o grupo ainda não testou em competição oficial?









