A internet já havia decidido antes mesmo de Ancelotti escalar o time. Endrick entrou em campo contra o Egito, marcou o gol da vitória e, quando pulou para comemorar, as redes sociais explodiram com uma intensidade que não se via desde a época em que Ronaldo Fenômeno saía do banco na Copa de 2002 e o Brasil inteiro parava. O que diferencia o caso de agora é o ingrediente extra: a torcida não abraçou o garoto de 19 anos apenas pelos gols. Abraçou porque ele parece ser o de fora.

A entrevista que não defendeu Neymar e mudou tudo

Tudo começou quando Endrick, em entrevista durante a preparação para a Copa do Mundo de 2026, foi questionado sobre a presença de Neymar na convocação de Ancelotti. O jovem atacante não saiu em defesa do veterano com o entusiasmo que se esperava de alguém dentro do grupo. Não disse nada de errado. Simplesmente não performou a lealdade que a lógica de vestiário normalmente exige. Para quem conhece a dinâmica de seleções brasileiras desde a Copa de 1994, quando Romário e Bebeto formavam um bloco quase impenetrável, essa hesitação fala mais do que qualquer declaração direta.

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"Endrick não faz parte do grupo", disse Casemiro em entrevista que repercutiu amplamente — numa frase que metade da torcida leu como proteção ao jovem e a outra metade como exclusão deliberada.

A leitura de Casemiro gerou uma divisão imediata. Para uma parte dos torcedores, o meio-campista tentava blindar o garoto da pressão. Para outra, estava mapeando publicamente as fronteiras do poder interno. Independentemente da intenção, o efeito foi o oposto do esperado: Endrick virou mártir antes de entrar em campo.

Panelas de seleção não são novidade — mas raramente se tornam tão públicas

Quem acompanha a seleção brasileira há décadas sabe que grupos de influência sempre existiram. Na Copa de 1998, a figura de Ronaldo Fenômeno concentrava tanto poder simbólico que o episódio da convulsão na véspera da final contra a França ainda é debatido como consequência de uma pressão interna que ninguém controlava. Em 2006, o grupo de Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos formava um núcleo que Parreira mal conseguia gerenciar taticamente — e o Brasil caiu nas quartas para a França de Zidane. Em 2014, a estrutura em torno de Neymar era tão centralizada que, quando ele saiu lesionado contra a Colômbia, o time simplesmente não existiu mais. O 7 a 1 não foi só derrota técnica. Foi colapso de uma arquitetura de poder mal distribuída.

O que muda em 2026 é a visibilidade em tempo real. Uma entrada de Casemiro em Endrick durante o treino vira vídeo viral em 40 minutos. Um silêncio numa entrevista se transforma em narrativa em 24 horas. A "panela" sempre existiu; agora ela tem câmera de celular apontada para ela o tempo todo.

Panelas de seleção não são novidade — mas raramente se tornam tão públicas Endri
Panelas de seleção não são novidade — mas raramente se tornam tão públicas Endri

Os números que a torcida usou como argumento

Além do drama narrativo, há dados concretos que alimentaram o movimento nas redes. Em 17 partidas pela seleção brasileira, Endrick marcou quatro gols — a maioria deles saindo do banco de reservas no segundo tempo. Sua média é de um gol a cada 122,3 minutos, a melhor entre os convocados que disputaram pelo menos dez jogos. Para efeito de comparação, esse número equivale a pouco mais de cinco jogos e meio de futebol. E dois desses gols vieram contra Espanha e Inglaterra, não contra seleções de ranking baixo.

O número da camisa também entrou no debate. Endrick usa a 19. Matheus Cunha ficou com a 9. Para uma fatia considerável da torcida, a numeração não foi aleatória — foi mais um sinal de hierarquia interna que colocava o jovem atacante em posição secundária antes de qualquer bola rolada.

"Ele é o nome do Hexa", passou a ser o slogan espontâneo que tomou as redes sociais após o gol contra o Egito — uma frase que diz tanto sobre Endrick quanto sobre o cansaço de uma parte da torcida com o modelo de seleção centrado em veteranos.

Ancelotti, o banco de reservas e um paralelo que o tempo repete

Há uma ironia geográfica nessa história. Foi Carlo Ancelotti, no Real Madrid, quem manteve Endrick no banco durante a temporada 2024/2025 a ponto de o clube optar pelo empréstimo ao Lyon. O bom desempenho no clube francês foi o passaporte para a convocação da Copa. Agora, com Ancelotti comandando a seleção brasileira, o roteiro se repete: Endrick joga mais saindo do banco do que como titular, mas continua sendo decisivo nos minutos que tem.

Esse padrão tem precedente histórico fora do Brasil. Em 1999, Francesco Totti chegava à Juventus com status inferior ao de Del Piero e Inzaghi na hierarquia da Azzurra — e levou anos para inverter essa lógica. Thierry Henry, em 1998, entrou em campo pela França como reserva de Guivarc'h e terminou a Copa como campeão mundial com 20 anos, sem jamais ter sido titular. A posição no banco não é sentença. Mas exige que os minutos rendam — e os de Endrick têm rendido.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 acontece em três dias. Se Endrick começar no banco e entrar para decidir novamente, a narrativa que a internet construiu vai ganhar um capítulo que nenhum assessor de imprensa conseguirá controlar. É a diferença entre um jogador que pertence ao grupo e um que pertence à torcida — como um acorde dissonante que, justamente por não se encaixar na harmonia do conjunto, acaba sendo o único que o público consegue ouvir com clareza.