Quantas defesas de pênalti bastam para um goleiro entrar para a história de um clube? A pergunta ficou suspensa no ar quente do Castelão na noite de quarta-feira, 13 de maio, quando Everson segurou duas cobranças do Ceará e ainda teve a frieza de converter o pênalti decisivo — o quinto da série — para classificar o Atlético-MG às oitavas da Copa do Brasil de 2026. O resultado final da disputa foi 4 a 2 para o Galo, depois de o time ter perdido o jogo por 2 a 1 no tempo normal, com dez jogadores desde os três minutos da partida, após a expulsão do volante Cissé.

O Atlético chegou àquela situação no limite do limite: um homem a menos durante quase todo o jogo, gol contra sofrido no segundo tempo — a rebatida de Renan Lodi nas costas do próprio goleiro — e a eliminação praticamente decretada até que Kauã Pascini invadiu a área e chutou cruzado aos 45 minutos da etapa final, empatando o confronto no agregado e levando tudo para as penalidades. Foi lá que Everson, mais uma vez, tornou-se o personagem central da narrativa atleticana.

A questão que o torcedor do Galo carrega agora não é só sobre esta noite em Fortaleza. Ela tem 13 anos de profundidade.

Everson ultrapassa Victor nos números, mas a régua da Libertadores é outra

Com as duas defesas contra o Ceará, Everson chegou a 22 pênaltis defendidos com a camisa atleticana desde 2020, superando numericamente a marca de 20 que Victor havia estabelecido ao longo de sua passagem pelo clube. No mesmo jogo, o goleiro converteu sua sexta cobrança decisiva em disputas de pênaltis — feito que nenhum arqueiro da história do Galo havia alcançado. Reparemos no detalhe: em seis disputas decididas pelo Atlético desde 2021, Everson esteve no gol em todas e saiu vencedor em todas as seis.

A lista é extensa e geograficamente diversificada. Vai da Libertadores de 2021 contra o Boca Juniors, passando pela Supercopa do Brasil de 2022 frente ao Flamengo, pela Sul-Americana de 2025 contra o Bucaramanga e o Flamengo novamente, pela semifinal do Campeonato Mineiro deste ano contra o América, até a Copa do Brasil desta quarta. São seis capítulos distintos em que o número 22 alvinegro foi o protagonista incontestável.

Victor, no entanto, carrega um feito que nenhuma estatística agregada consegue relativizar com facilidade: na semifinal da Libertadores de 2013 contra o Newell's Old Boys, em Rosário, o então goleiro atleticano defendeu quatro pênaltis na mesma disputa — a maior série de defesas consecutivas por um goleiro do Galo em uma única cobrança de que se tem registro. Aquela noite abriu caminho para o único título continental do clube na competição mais importante da América do Sul, conquistado em julho de 2013 contra o Olimpia.

"Responsabilidade muito grande, o antecessor era o Victor, maior goleiro da história do clube e que foi peça importante no título da Libertadores em decisões por pênaltis. Sempre que tem disputa, o torcedor do Galo coloca confiança no goleiro", reconheceu Everson após o jogo contra o Ceará.

A contra-leitura que complica a narrativa de superação

A interpretação dominante após cada heroísmo de Everson é a da superação progressiva, da construção de um legado que caminha para eclipsar o do predecessor. Os números brutos alimentam essa leitura: 22 defesas contra 28 de Victor ao longo de toda a carreira no clube, sendo que Everson chegou a essa marca em menos tempo e com uma taxa de conversão nas disputas que impressiona qualquer analista.

Mas há uma contra-leitura que merece atenção, e o próprio Everson a enunciou com honestidade incomum para um momento de celebração. Victor não foi apenas um pegador de pênaltis eficiente — ele foi o arquiteto de um título que o Atlético esperou décadas para conquistar e que, até hoje, define a identidade histórica do clube. Na avaliação do SportNavo, a questão central não é quem tem mais defesas no currículo, mas em que contexto essas defesas ocorreram e qual foi o peso das consequências.

Everson já acumula defesas relevantes em torneios continentais — as duas paradas contra o Boca Juniors em 2021, por exemplo, eliminaram um dos clubes mais tradicionais da Argentina nas oitavas daquela Libertadores. Já as três defesas na Supercopa de 2022 valeram um título nacional. A Sul-Americana de 2025 não chegou ao fim que o torcedor esperava, mas o goleiro fez sua parte em mais de uma eliminatória. O que ainda falta no portfólio de Everson é, exatamente, aquele momento em que a defesa de pênalti encerra uma espera histórica — o tipo de noite que Victor teve em Rosário.

"Montanha russa de emoções. Tínhamos a vantagem construída em casa e perdemos em quatro minutos, junto com um jogador. Jogar aqui é muito difícil, com o gramado, e com um a menos fica mais difícil ainda. Mais uma vez fui feliz, com duas defesas e um pênalti convertido", disse Everson ao SporTV logo após a classificação.

O que os números dizem e o que ainda não foi escrito

A síntese honesta deste debate exige que se pese tanto os critérios quantitativos quanto os qualitativos. Em volume de defesas em disputas de pênaltis, Everson já superou Victor: são 22 cobranças paradas contra 28 do predecessor, mas Everson ainda tem anos de contrato pela frente e chegará ao número de Victor — provavelmente ainda em 2026. Em consistência dentro das disputas — o recorte de decisões vencidas — o atual goleiro também leva vantagem clara, com seis classificações em seis disputas desde que chegou ao clube.

A variável que ainda pende para o lado de Victor é o peso histórico do torneio em que suas defesas mais icônicas ocorreram. Quatro pênaltis defendidos em uma semifinal de Libertadores, com o título ao final, é um dado que transcende estatística — vira mitologia. Everson conhece esse terreno e não foge da comparação: ao nomear Victor como o maior da história do clube logo após sua sexta classificação como herói, o atual goleiro demonstrou clareza sobre onde ainda precisa chegar.

O Atlético volta a campo no sábado, dia 16 de maio, às 18h30, pelo Brasileirão de 2026, com Everson no gol e a vaga nas oitavas da Copa do Brasil já garantida no bolso. O sorteio da próxima fase acontecerá em data ainda a ser confirmada pela CBF, sem restrições de confrontos — e o Galo pode cruzar o caminho de qualquer um dos clubes já classificados, entre eles Fluminense, Cruzeiro, Internacional, Santos, Vasco, Mirassol, Remo e Palmeiras.