O Fluminense iniciou sua jornada rumo à Venezuela carregando nas costas um histórico que preocupa: em oito anos de confrontos no país caribenho, o Tricolor das Laranjeiras conquistou apenas uma vitória em seis partidas disputadas, um aproveitamento de 27,7% que contrasta com sua tradicional força em competições continentais.

Retrospecto desfavorável em solo venezuelano

A análise dos últimos 10 anos revela um padrão preocupante para o clube carioca em território venezuelano. Desde 2014, o Fluminense disputou seis partidas no país, com uma vitória, dois empates e três derrotas. O único triunfo aconteceu em março de 2016, quando venceu o Deportivo Táchira por 2 a 1, em San Cristóbal, pela fase de grupos da Libertadores.

As derrotas mais dolorosas ocorreram contra o Caracas FC, em 2019, por 2 a 0 na altitude de Caracas, e contra o Deportivo La Guaira, em 2021, quando perdeu por 1 a 0 em um jogo que custou a classificação às oitavas de final da Libertadores. Naquela ocasião, o Fluminense precisava apenas de um empate para avançar, mas sucumbiu aos 38 minutos do segundo tempo com gol de Rómulo Otero.

Altitude e calor como fatores determinantes

Os dados meteorológicos e geográficos ajudam a explicar as dificuldades tricolores. Caracas, principal palco dos confrontos, está situada a 900 metros de altitude, enquanto cidades como San Cristóbal chegam a 820 metros. A temperatura média durante os jogos oscila entre 28°C e 35°C, com umidade relativa do ar superior a 70%.

O preparador físico Paulo Paixão, que acompanhou o clube em três dessas viagens, identificou um padrão preocupante: "A partir dos 25 minutos do primeiro tempo, nossos atletas apresentavam sinais claros de desgaste acelerado. A combinação altitude-calor exige adaptação que vai além do físico".

"Não é apenas questão de condicionamento. O ar rarefeito afeta a precisão dos passes e a tomada de decisão. Vimos isso claramente nas partidas de 2019 e 2021", explicou Paixão em entrevista ao departamento médico do clube.

Padrões táticos revelam vulnerabilidades

A análise tática dos seis jogos mostra que o Fluminense sofreu 67% dos gols sofridos na Venezuela após os 60 minutos de jogo, indicando queda de rendimento físico no final das partidas. Em cinco das seis ocasiões, o técnico precisou fazer pelo menos duas substituições antes dos 70 minutos por fadiga excessiva dos atletas.

O meio-campo se mostrou o setor mais afetado, com média de apenas 76% de passes certos nos confrontos venezuelanos, contra 84% na média geral das competições continentais no mesmo período. O atacante Fred, presente em quatro dessas partidas, marcou apenas um gol e teve 23% de aproveitamento nas finalizações, bem abaixo de seus 41% de média continental.

Os números defensivos também preocupam: o Fluminense sofreu média de 1,5 gol por jogo na Venezuela, contra 0,9 em outros países sul-americanos. O sistema defensivo cedeu espaços principalmente pelas beiradas, onde os venezuelanos exploraram a velocidade e a habilidade individual de seus atacantes.

Retrospecto desfavorável em solo venezuelano Fluminense busca quebrar jejum de 8
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Lições do passado para o desafio atual

O departamento de análise de desempenho do Fluminense catalogou três fatores críticos para melhorar o rendimento em solo venezuelano: chegada com pelo menos 48 horas de antecedência para adaptação climática, hidratação reforçada com eletrólitos específicos e esquema tático mais conservador nos primeiros 30 minutos de jogo.

A experiência de 2016, única vitória do período, serve como modelo. Naquela ocasião, o técnico Levir Culpi escalou uma formação com três volantes, priorizou a posse de bola no meio-campo e marcou os dois gols nos primeiros 25 minutos, administrando a vantagem posteriormente. O time chegou a San Cristóbal três dias antes da partida, fator que o próprio treinador considerou decisivo.

Altitude e calor como fatores determinantes Fluminense busca quebrar jejum de 8
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Com o embarque realizado nesta segunda-feira, o Fluminense terá dois dias completos para se adaptar às condições locais antes do confronto de quinta-feira. A delegação tricolor leva 24 atletas, incluindo o retorno de jogadores importantes que podem fazer a diferença na quebra deste jejum de oito anos sem vencer em território venezuelano.