"Vou perguntar para ele por que ele não ficou junto com os companheiros. Ele deve ter um motivo. Na minha opinião, a substituição se fez necessária. Agora tem que saber por que ele não ficou no banco. Acho que ele deveria ter ficado junto com os companheiros e será cobrado por isso."
Quem disse isso foi Cuca, técnico do Santos, na coletiva após o empate de 1 a 1 com o Deportivo Recoleta, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, na última terça-feira (5). O atacante Gabriel Barbosa tinha sido substituído por Thaciano aos 28 minutos do segundo tempo — com o Santos ainda vencendo por 1 a 0 — e rumou diretamente ao vestiário, sem sentar no banco. O resultado escorregou. O clima explodiu.

A versão de Gabigol e o que ela não resolve

Na manhã seguinte, Gabigol usou o X para apresentar sua explicação.

"Fui direto para o vestiário porque estava com dores abdominais. Assim como alguns jogadores e pessoas da comissão técnica, houve uma falta de comunicação no momento do jogo e pós-jogo."
A justificativa fisiológica é plausível — desconforto gástrico em viagem ao Paraguai não é improvável. O atacante ainda afirmou que outros membros do grupo santista foram afetados pelo mesmo problema durante a estadia no país.

Até aqui, a interpretação dominante na imprensa é simples: mal-entendido, problema de comunicação, episódio isolado. Engole fácil. Mas os dados biográficos de Gabigol com treinadores pedem uma leitura mais rigorosa do que isso.

Em 2021, quando ainda estava no Flamengo, Gabigol foi substituído por Abel Ferreira no clássico e xingou o técnico português à beira do campo. A cena foi captada por câmeras e transformada em polêmica nacional. Abel, que costuma engolir provocações com frieza ibérica, desta vez respondeu publicamente — e a relação entre os dois nunca encontrou terreno estável. O atacante, que havia sido peça central do bicampeonato da Libertadores de 2019 e 2022 sob outros comandos, passou a ter espaço reduzido e a figurar nas listas de transferências.

O padrão que atravessa Dorival, Abel e agora Cuca

Antes de Abel, Gabigol já havia protagonizado tensões com Dorival Júnior no próprio Flamengo. O treinador baiano, que depois virou campeão da Copa América com a Seleção Brasileira em 2024, precisou administrar o temperamento do atacante em mais de uma ocasião. A situação chegou ao ponto de Dorival preterir Gabigol em jogos importantes — decisão que gerou ruídos internos no Ninho do Urubu.

O levantamento é direto. Três treinadores de alto nível — Dorival Júnior, Abel Ferreira e agora Cuca — tiveram episódios de atrito público com o mesmo jogador em diferentes contextos, clubes e competições. Dois desses treinadores são campeões continentais. Um deles, Cuca, tem três títulos brasileiros no currículo e foi campeão da Libertadores com o Atlético Mineiro em 2013. Quando o atrito é recorrente com profissionais desta categoria, a hipótese de coincidência perde força estatística.

A versão de Gabigol e o que ela não resolve Gabigol e técnicos — um padrão que s
A versão de Gabigol e o que ela não resolve Gabigol e técnicos — um padrão que s

No Santos de 2026, Gabigol chegou por empréstimo e acumula números expressivos: nove gols e cinco assistências em 20 partidas na temporada. Individualmente, o rendimento justifica a titularidade. Coletivamente, o Santos está na lanterna do Grupo D da Sul-Americana — ainda sem vitória na competição — e próximo da zona de rebaixamento do Brasileirão. O atacante pediu apoio da torcida e reconheceu que o time deixou pontos escaparem. O apelo foi legítimo. Mas a postura no banco não se resolve com post no X.

O padrão que atravessa Dorival, Abel e agora Cuca Gabigol e técnicos — um padrão
O padrão que atravessa Dorival, Abel e agora Cuca Gabigol e técnicos — um padrão

O que os números e o histórico indicam sobre a relação com Cuca

A síntese honesta deste episódio exige separar duas camadas. Primeira camada: a justificativa de Gabigol é razoável e não há prova de que mentiu sobre o desconforto físico. Cuca, ao ser informado das condições do atacante, provavelmente vai absorver a explicação e seguir em frente — é o que treinadores experientes fazem. Segunda camada: o padrão comportamental de Gabigol com técnicos, documentado desde 2021, cria um ruído de fundo que nenhuma nota nas redes sociais apaga completamente.

Assim como o trânsito da Avenida Boa Viagem em Recife numa tarde de sexta-feira — onde o problema não é um carro, mas a soma de comportamentos que transformam o fluxo em paralisia — o que torna a situação de Gabigol complexa não é um episódio isolado. É a frequência. Abel. Dorival. Cuca. Cada caso teve sua explicação individual. O conjunto forma um argumento difícil de ignorar.

Cuca foi claro ao dizer que vai cobrar o jogador. O técnico tem 64 anos, três Brasileirões na prateleira e zero histórico de recuar diante de estrelas quando a disciplina coletiva está em jogo — basta lembrar como administrou o elenco do Atlético Mineiro em 2021, quando conduziu o clube ao título nacional com um grupo de alto ego e maior qualidade. Gabigol, por sua vez, tem talento técnico suficiente para resolver jogos — os números desta temporada no Santos comprovam isso.

O Santos volta a campo no domingo, em casa, pelo Brasileirão Série A, precisando vencer para sair da zona de rebaixamento. Gabigol estará em campo. Cuca estará no banco. A tensão vai ou não vai interferir no desempenho coletivo — e essa resposta virá no placar, não nas redes sociais.