Quantos jogos um atacante pode disputar numa temporada de Série A sem marcar um gol antes que o número vire problema — e não só estatística?

Hélio Borges, o atacante paraense de 26 anos que veste a camisa 77 do Novorizontino, chegou a 33 partidas no Brasileirão Série A de 2026 sem balançar a rede. A pergunta, portanto, já tem peso real. Mas a resposta exige contexto — e o contexto, aqui, é mais complexo do que parece à primeira vista.

Em 18 de julho de 2026, o Novorizontino perdeu por 1 a 0 para o Fortaleza, gol de Vitinho aos 3 minutos. Hélio estava no elenco. A derrota resume bem a pressão que cerca o clube e, por extensão, cada jogador ofensivo do grupo.

O que ele ainda não resolveu

O número é claro: 33 jogos, 0 gols, 3 assistências na temporada atual. Para um atacante, a ausência de gols em mais de um terço de uma temporada completa é, no mínimo, uma interrogação financeira e técnica.

O histórico reforça o padrão. Em 2023, foram 32 jogos pelo Ituano na Série B — também sem gol. Antes disso, quatro partidas pelo Juventude no Campeonato Gaúcho de 2022, igualmente sem marcar. Os únicos dois gols registrados na carreira profissional vieram em 2022, quando Hélio atuou 18 vezes pelo próprio Novorizontino na Série B.

A conta é direta: em aproximadamente 64 jogos na carreira, dois gols. Para um atacante de 26 anos disputando a elite do futebol brasileiro, esse índice não sustenta uma valorização de mercado — e qualquer gestor de futebol sabe disso.

Onde está hoje em relação a esse buraco

O dado das 3 assistências na temporada atual não é irrelevante. Ele indica que Hélio circula pelo jogo, toca a bola em situações de criação e mantém utilidade tática para o clube. O problema é que assistência não é moeda de troca no mercado da bola com o mesmo peso que gol.

A passagem pela Coreia do Sul em 2024 — quatro jogos pelo Gyeongnam FC na K League 2, sem gol e sem assistência — foi um sinal de que o mercado europeu e asiático ainda não enxerga nele um perfil de goleador exportável. O retorno ao Novorizontino fechou um ciclo que, na prática, reconduziu Hélio ao ambiente onde produziu seu melhor número (os dois gols de 2022).

Há algo de Groundhog Day nessa trajetória: o jogador retorna ao mesmo clube, na mesma cidade, tentando resolver o mesmo problema que o persegue desde a base. A diferença agora é que ele tem 26 anos — e a janela para uma virada narrativa começa a se estreitar.

O caminho técnico para tapá-lo

As 3 assistências em 33 jogos sugerem um perfil mais de extremo de apoio ou segundo atacante do que centroavante finalizador. Se o Novorizontino o utiliza prioritariamente como criador de espaços ou referência de pressão alta, a cobrança por gol precisa ser calibrada — mas não eliminada.

Hélio Borges (Novorizontino)
Hélio Borges (Novorizontino)

O caminho técnico passa por uma definição de função. Hélio precisa de mais situações de finalização por jogo, o que exige posicionamento diferente e, eventualmente, um sistema tático que o coloque em zonas de conclusão com frequência. Conforme registrado pelo SportNavo, o Novorizontino perdeu para o Fortaleza com gol nos primeiros minutos — o tipo de jogo que comprime o time e reduz os espaços ofensivos para atacantes de movimentação.

A comparação com pares na mesma posição é dura. Na Série A de 2026, atacantes de 26 anos com perfil de velocidade e combinação precisam apresentar pelo menos 5 a 8 gols por temporada para manter o valor de mercado estável. Hélio está abaixo desse patamar em qualquer das temporadas documentadas.

O que isso destrava na carreira

Um gol — ou uma sequência de gols — nesta reta final da temporada de 2026 teria impacto desproporcional sobre a percepção do mercado. Não porque um gol apague 33 jogos em branco, mas porque o futebol trabalha com narrativas de momento, e o mercado de transferências fecha em janelas curtas.

O Novorizontino disputa a Série A em ambiente de pressão. Para um clube do interior paulista na elite, cada jogador precisa justificar sua presença em campo e no orçamento. Hélio tem contrato vigente e presença constante no elenco — o que indica que a comissão técnica ainda aposta em seu potencial de contribuição, mesmo com o jejum de gols.

Se o atacante conseguir converter ao menos parte das situações de finalização que as assistências indicam que ele cria, a conversa muda. Um ciclo de 4 a 5 gols no segundo semestre de 2026 abriria janelas reais: renovação com valorização, sondagens de clubes da Série B em busca de acesso, ou até uma nova tentativa no exterior — desta vez com número mais sólido para apresentar.

Hélio Borges tem 26 anos, altura de 174 cm e uma carreira que ainda busca o momento de inflexão. Os dados estão postos. O que falta é um gol — e a decisão técnica de onde, exatamente, buscá-lo.