Treze jogos sem derrota. Esse número parecia intocável — um relicário estatístico guardado pelo Brasil das Copas de 1958 e 1962, a única seleção a conquistar dois títulos mundiais consecutivos. Na tarde deste sábado, em Houston, a Holanda derrubou essa parede com um 5 a 1 sobre a Suécia e chegou a 14 partidas invicta em Copas do Mundo. O recorde que sobreviveu a seis décadas e dois continentes de futebol agora pertence à Laranja Mecânica — um time que ainda não ganhou um título sequer.

O que o Brasil construiu entre 1958 e 1966

Para entender a dimensão do que foi superado, é preciso voltar à Suécia de 1958. O Brasil estreou naquela Copa com um empate por 0 a 0 diante da Inglaterra e, a partir daí, não cedeu mais uma derrota sequer durante dois mundiais inteiros. Em 1958, foram seis vitórias, incluindo o 5 a 2 sobre o país-sede na final, com dois gols de um Pelé de apenas 17 anos. Em 1962, no Chile, a campanha trouxe mais cinco vitórias e um empate — a equipe de Garrincha, que substituiu um Pelé lesionado desde a segunda rodada, dominou o torneio com autoridade. Ao todo, 11 vitórias e 2 empates em 13 jogos: aproveitamento de 91,3% considerando apenas os pontos ganhos no formato moderno.

A sequência só se encerrou na primeira rodada da Copa de 1966, na Inglaterra, quando a Hungria venceu o Brasil por 3 a 1 em Goodison Park, Liverpool — partida que marcou o ocaso de uma geração e o fim de um ciclo que talvez jamais se repita. Pelé, chutado durante toda a Copa, deixou o campo machucado e declarou que não voltaria a disputar um Mundial. Voltou, em 1970, e ganhou mais um.

A sequência holandesa que começou numa derrota na prorrogação

A ironia da estatística holandesa está em sua origem. A última derrota da Holanda em Copas do Mundo ocorreu na final de 2010, na África do Sul, quando Andrés Iniesta marcou o gol do título espanhol aos 116 minutos — já na prorrogação. Nos 90 minutos regulamentares, a Holanda havia segurado o 0 a 0. Se o recorte for apenas o tempo normal, o último revés data de 2006, na infame "Batalha de Nuremberg" contra Portugal, jogo com 20 cartões distribuídos pelo árbitro Valentin Ivanov, quatro deles vermelhos.

Desde aquela final sul-africana, a trajetória holandesa incluiu dois torneios com eliminações nos pênaltis — contra a Costa Rica nas quartas de 2014 (0 a 0 no tempo normal, 4 a 3 nos pênaltis) e contra a Argentina nas semis do mesmo ano (0 a 0, 4 a 2 nos pênaltis) —, além da ausência total em 2018, quando a Holanda ficou fora do Mundial russo. Em 2022, no Catar, foram eliminados novamente nos pênaltis, desta vez pela Argentina nas quartas de final, após empate por 2 a 2. Ou seja: quatro eliminações em sequência sem uma derrota nos 90 minutos ou na prorrogação dentro do tempo regular.

"Desde 2010, a Holanda não sabe o que é perder dentro de campo em uma Copa do Mundo — e esse número agora é maior do que qualquer marca já registrada na história do torneio", conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta edição.

O 5 a 1 sobre a Suécia e o peso dos números

O placar em Houston foi construído com uma eficiência que o Brasil de 1958 reconheceria. A Suécia, que chegou ao confronto com chances reais de classificação no Grupo C, foi desmontada sistematicamente. O resultado coloca a Holanda em posição privilegiada na chave e projeta um possível duelo com o Brasil na segunda fase — as equipes do Grupo C cruzam com as do Grupo F, e a seleção brasileira está justamente neste último grupo.

A diferença conceitual entre os dois recordes merece atenção. A sequência brasileira de 1958 a 1966 foi construída com vitórias em sua quase totalidade — 11 triunfos em 13 jogos, com apenas 2 empates —, dentro de um sistema de jogo que revolucionou o futebol mundial com o 4-2-4 e depois o 4-3-3. A sequência holandesa, por sua vez, inclui quatro eliminações por pênaltis, o que significa que o time não perdeu, mas também não venceu nos momentos decisivos de três edições consecutivas em que participou. A invencibilidade holandesa é uma parede de ferro defensiva nos 90 minutos; a brasileira era uma máquina de marcar gols em campo aberto.

O recorde que o Brasil não pôde defender

Existe uma assimetria histórica nessa transferência de recordes. O Brasil de Pelé e Garrincha encerrou sua sequência porque perdeu — de forma clara, por 3 a 1, para a Hungria em 1966. A marca passou para a história como patrimônio de uma geração específica, vinculada a nomes e rostos: Didi, Vavá, Zagallo como jogador, Amarildo, Zito. A Holanda de 2026, por sua vez, herdou o número sem precisar derrotar o detentor anterior — simplesmente acumulou jogos ao longo de 16 anos e quatro edições do torneio.

O atacante Memphis Depay, que disputou as edições de 2014 e 2022, é o elo humano mais visível dessa continuidade. Virgil van Dijk, capitão e coluna vertebral da defesa, representa a solidez que explica os 14 jogos sem derrota. Koeman, técnico holandês, já havia alertado antes da Copa que a Holanda precisava transformar invencibilidade em conquista — o time tem o recorde, mas não tem o troféu.

"Não basta não perder. Precisamos ganhar quando importa", disse Van Dijk em entrevista coletiva antes do torneio, antecipando a tensão entre o histórico de pênaltis e a ambição de 2026.

A Holanda enfrenta a Tunísia na próxima quinta-feira e pode ampliar a marca para 15 jogos invicta. O Brasil, que está no Grupo F, acompanha esse avanço com interesse direto: se as duas seleções avançarem como líderes de seus respectivos grupos, o reencontro entre as duas histórias mais ricas do recorde acontece nas oitavas de final. Seriam 14 jogos invictos contra o dono original da marca — e o placar de 1974, quando a Holanda de Cruyff derrotou o Brasil por 2 a 0 na segunda fase do Mundial alemão, voltaria inevitavelmente à conversa. Aquela derrota, aliás, encerrou outra sequência brasileira: 11 partidas sem perder entre 1970 e 1974, com o título de 1970 no meio.