Todo mundo sabe que o Irã está na Copa do Mundo 2026. O que pouca gente acompanhou de perto é como a seleção iraniana chegou até os campos de jogo: dormindo em Tijuana, cruzando a fronteira com o México como base de operações, e com 15 membros da delegação impedidos de pisar em solo norte-americano. A queixa formal encaminhada à Fifa na semana de 19 de junho de 2026 é apenas o ponto visível de uma crise logístico-diplomática que vem se acumulando desde a primeira rodada.
A federação iraniana leva o protesto à Fifa com fatos documentados
A Copa do Mundo de 2026 é a primeira edição com 48 seleções, disputada em três países — Estados Unidos, México e Canadá —, e a escolha dos EUA como sede principal trouxe consigo uma variável que os organizadores da Fifa subestimaram: o peso das relações diplomáticas entre Washington e Teerã, rompidas desde 1980. A federação iraniana formalizou sua queixa ao órgão máximo do futebol mundial após acumular ao menos dois episódios documentados de restrição operacional em menos de duas semanas de torneio.
O primeiro caso ocorreu antes da estreia do Grupo G. A seleção iraniana solicitou autorização para viajar com antecedência ao local da partida contra a Nova Zelândia, mas as autoridades norte-americanas concederam o visto de deslocamento com apenas um dia de antecedência — tempo insuficiente, segundo a comissão técnica, para adaptação ao fuso horário e ao gramado. O resultado foi um empate por 2 a 2, em 14 de junho de 2026. Horas após o apito final, a delegação recebeu ordem expressa para deixar o território americano o mais rápido possível.
"Situações semelhantes já ocorreram anteriormente", afirmou a federação iraniana em nota encaminhada à Fifa, documentando os dois episódios como padrão de conduta das autoridades americanas, não como ocorrências isoladas.
O segundo episódio envolveu o jogo de domingo, 21 de junho, contra a Bélgica, pela segunda rodada do Grupo G. A comissão técnica iraniana pediu autorização para viajar a Los Angeles com dois dias de antecedência — margem considerada padrão em qualquer planejamento esportivo de alto nível. O pedido foi negado. A delegação precisou reorganizar toda a logística de preparação em cima da hora, operando a partir de Tijuana, cidade mexicana localizada na fronteira com a Califórnia, a menos de 30 quilômetros do centro de San Diego.
Tijuana como base e 15 membros bloqueados na fronteira
A escolha de Tijuana como quartel-general da delegação iraniana não foi estratégica — foi a única alternativa viável. Das 26 seleções que disputam a fase de grupos em território americano, o Irã é o único que opera de forma permanente a partir de outro país, cruzando a fronteira apenas para os jogos e treinamentos autorizados. O dado é registrado em reportagem publicada pelo SportNavo e confirma uma assimetria operacional sem precedente na história das Copas do Mundo.
A situação dos 15 integrantes da delegação que não receberam autorização de entrada nos EUA agrava o quadro. Não há detalhamento público sobre quais funções esses profissionais exercem — se são membros da comissão técnica, funcionários administrativos ou representantes da federação —, mas a ausência de parte do staff em uma Copa do Mundo compromete diretamente a estrutura de suporte aos atletas. Em edições anteriores, como a Copa de 2022 no Catar, o Irã chegou à fase de grupos com plantel completo e foi eliminado na primeira fase com três derrotas — 6 a 2 para a Inglaterra, 1 a 0 para o País de Gales e 1 a 0 para os EUA, curiosamente, em 29 de novembro de 2022, um dos jogos politicamente mais carregados da história recente do torneio.
"As restrições comprometem diretamente o planejamento esportivo da equipe no torneio", declarou a federação iraniana em comunicado oficial, sem especificar os nomes dos 15 integrantes impedidos de entrar nos Estados Unidos.
A Fifa, por sua vez, se encontra numa posição delicada. O regulamento do torneio prevê que todos os países participantes devem ter acesso pleno às condições logísticas necessárias para a competição — incluindo deslocamento, hospedagem e tempo de preparação. O protocolo de garantias foi negociado com os três países-sede antes do início da Copa, mas a implementação prática depende das legislações de imigração nacionais, sobre as quais a Fifa não tem jurisdição direta.
O histórico político entre Irã e EUA e o que a Fifa pode fazer agora
A tensão entre Irã e Estados Unidos no contexto esportivo não nasceu em 2026. Em 1998, na Copa da França, os dois países se enfrentaram numa partida que ficou conhecida como muito mais do que futebol: o Irã venceu por 2 a 1, em 21 de junho daquele ano, no Stade de Gerland, em Lyon, num jogo precedido por semanas de negociações diplomáticas paralelas sobre o protocolo de comportamento das delegações. Foi a única vitória iraniana contra os americanos em Copas do Mundo.
Em 2022, no Catar, o reencontro terminou com vitória americana por 1 a 0, gol de Christian Pulisic aos 38 minutos do primeiro tempo, resultado que classificou os EUA para as oitavas de final e eliminou o Irã. O contexto político daquele jogo foi igualmente tenso, com protestos dentro e fora do estádio relacionados à repressão do governo iraniano às manifestações internas do país. Agora, em 2026, a disputa saiu do campo e chegou à mesa da burocracia consular.
A Fifa tem instrumentos limitados para intervir em questões de soberania nacional sobre concessão de vistos e autorizações de deslocamento. O que o órgão pode fazer, historicamente, é exercer pressão diplomática através de seus canais institucionais com os governos-sede — algo que já ocorreu, por exemplo, quando Israel enfrentou restrições de entrada em países árabes durante torneios da Uefa e da própria Fifa nas décadas de 1960 e 1970. A resolução, nesses casos, sempre dependeu mais da vontade política dos governos do que da capacidade de enforcement da entidade esportiva.

O próximo teste prático é o jogo de domingo, 21 de junho, entre Irã e Bélgica, em Los Angeles. Se a delegação iraniana chegar ao estádio sem o tempo de preparação solicitado, a queixa formal à Fifa ganha peso documental adicional — e a pressão sobre a entidade para apresentar uma resposta concreta ao protocolo de garantias prometido antes do torneio aumenta proporcionalmente. A Bélgica, por sua vez, estreou com vitória por 1 a 0 sobre a Austrália e chega à segunda rodada em posição mais confortável, tanto no campo quanto fora dele.








