"Ele é apenas um jogador que está aqui para ajudar. Ele está aqui para contribuir, assim como todos nós." Quatro frases ditas por João Neves em entrevista após o empate com o Congo foram suficientes para transformar o basecamp da seleção portuguesa no epicentro de uma crise que o futebol lusitano temia — e sabia que chegaria.

O gatilho foi a atuação de Cristiano Ronaldo na estreia do Grupo K: 29 toques na bola em 90 minutos, 3 chutes, nenhum no alvo. Para contexto estatístico, um atacante titular em uma partida de Copa do Mundo toca a bola, em média, entre 35 e 55 vezes. O número de Ronaldo coloca o atacante de 41 anos entre os dez jogadores de linha com menor participação técnica da rodada de abertura.

O placar que não mente — e o que os números avançados revelam João Neves quebra
O placar que não mente — e o que os números avançados revelam João Neves quebra

O placar que não mente — e o que os números avançados revelam

O empate em 1 a 1 com o Congo não foi um resultado catastrófico, mas o xG (Expected Goals, ou gols esperados com base na qualidade das chances criadas) de Portugal na partida ficou em torno de 1,8 — um índice razoável para uma estreia, mas com uma distribuição que preocupa os analistas: a maior parte das chances de alto valor surgiu pelas alas e pelo meio-campo, não pela área ocupada pelo centroavante. Em termos simples, Portugal criou bem, mas criou apesar de Ronaldo, não graças a ele.

A análise tática aponta para um problema estrutural recorrente. Com Ronaldo no centro do ataque, a equipe tende a jogar com linhas mais recuadas e transições longas, sacrificando o pressing alto que Vitinha, Bruno Fernandes e o próprio João Neves impõem naturalmente quando têm liberdade para se mover sem precisar alimentar um referencial fixo. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva, métrica que mede a intensidade do pressing) de Portugal caiu sensivelmente na segunda metade do jogo contra o Congo, exatamente quando o time deveria estar acelerando.

O ex-jogador Rafael van der Vaart, que foi companheiro de Ronaldo no Real Madrid na temporada 2009/2010, enxerga o problema com clareza:

"Meu primeiro sentimento diz que Portugal é melhor sem ele. Mas como você se despede de um jogador assim? Pela sua própria grandeza, ele está se tornando um problema."

A rachadura no vestiário e o fantasma do Qatar

A faísca acesa por João Neves não foi apenas jornalística — foi institucional. Fãs de Ronaldo inundaram as redes sociais atacando o meia do PSG; a namorada do jogador, Madalena Aragão, de 20 anos, precisou desativar os comentários em suas fotos após uma avalanche de mensagens hostis. A irmã de Ronaldo, Kátia Aveiro, foi além e sugeriu um suposto boicote tático aos passes em direção ao atacante: "Magicamente, esqueceram como passar a bola", escreveu ela.

O analista Dani — ex-jogador do Ajax e atualmente comentarista da TVI em Portugal —, defende Ronaldo, mas com cautela:

"Ronaldo é superimportante. Mas para um jogador de 41 anos, sua influência no jogo é mais limitada do que antes. Cabe ao grupo e à comissão técnica maximizá-lo neste Mundial."

O fantasma do Qatar paira sobre tudo isso. Em 2022, Fernando Santos enfrentou pressão idêntica. Nas oitavas de final, tomou a decisão de deixar Ronaldo no banco contra a Suíça — vitória por 6 a 1, com Gonçalo Ramos marcando três gols em sua estreia como titular. Nas quartas, sem Ronaldo no time, Portugal foi eliminado pelo Marrocos por 1 a 0. Santos saiu do cargo. Ronaldo ficou.

Agora é Roberto Martínez quem ocupa o banco. O técnico espanhol tem sido mais assertivo que seu antecessor ao defender Ronaldo publicamente — chegou a citar que o atacante marcou 25 gols em seus últimos 30 jogos pela seleção como argumento para mantê-lo titular. Mas quando questionado sobre a ausência de substituição contra o Congo, Martínez não deu resposta clara.

O que muda nas próximas rodadas e o dilema de Martínez

Portugal precisa de resultados concretos nas duas rodadas restantes do Grupo K para avançar com conforto. A matemática ainda favorece a seleção, mas a janela de ajuste tático é estreita. Martínez tem duas opções documentadas em seu histórico: usar Ronaldo como referência nos 45 minutos iniciais, quando adversários mais fechados precisam ser desgastados, e acionar jogadores mais dinâmicos — como Rafael Leão ou Diogo Jota — no segundo tempo; ou escalar diretamente sem Ronaldo, como Santos fez no Qatar, assumindo o custo político interno.

A segunda hipótese traz dados favoráveis. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente à Copa, os números da Liga das Nações de 2024/2025 mostraram que Portugal criou 23% mais chances claras por jogo nas partidas em que Ronaldo não iniciou como titular. Com um meio-campo que conta com Vitinha, Bruno Fernandes e João Neves — três dos melhores criadores do torneio nesta Copa do Mundo —, a cadência ofensiva da equipe flui com mais naturalidade quando o centroavante tem mobilidade para pressionar a linha defensiva adversária, característica que Ronaldo perdeu progressivamente desde que foi para o Al Nassr.

O próximo jogo de Portugal no Grupo K está marcado para sábado, 28 de junho. O adversário ainda depende dos resultados desta rodada, mas Martínez sabe que uma segunda atuação apagada de Ronaldo pode transformar o debate interno em colapso público — e que o único antídoto para isso é um gol. Ou uma decisão que o técnico espanhol, ao contrário de Santos em 2022, ainda resiste a tomar.