Um relógio suíço com pavio curto.

A imagem é precisa para descrever o que aconteceu no Aeroporto Internacional Hopkins, em Cleveland, na véspera do amistoso entre Brasil e Egito, marcado para este sábado (6), às 19h (horário de Brasília), no Huntington Bank Field. Cartazes promocionais espalhados pelo terminal exibiam três rostos representando a Seleção Brasileira: Vinicius Jr., do Real Madrid, Raphinha, do Barcelona, e João Pedro, do Chelsea. O detalhe que transforma a peça publicitária em constrangimento público: João Pedro não foi convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo 2026. O atacante de 22 anos chegou a integrar a lista ampliada de Carletto, mas ficou de fora do grupo definitivo de 26 jogadores.

Sunderland - Chelsea

O cartaz que ninguém deveria ter aprovado

A gafe tem uma dimensão que vai além do embaraço imediato. Do lado egípcio, os organizadores acertaram na escolha: o goleiro Mostafa Shobeir, do Al Ahly, e os atacantes Mohamed Salah, do Liverpool, e Omar Marmoush, do Manchester City — todos convocados para o Mundial — estampam os materiais promocionais sem nenhum problema. A assimetria entre o cuidado dedicado à delegação africana e o deslize cometido com a brasileira diz muito sobre o processo de produção dessas peças.

O fluxo de aprovação de materiais gráficos para eventos desta magnitude envolve, em regra, ao menos três instâncias: a produtora local, a federação nacional envolvida e a entidade organizadora. Que a imagem de um atleta não convocado tenha passado por todas essas etapas sem que ninguém sinalizasse o erro sugere uma das duas possibilidades: ou o material foi produzido antes do anúncio oficial da convocação — divulgado pela CBF em 18 de maio — e simplesmente não foi atualizado, ou o processo de verificação foi negligenciado. Em qualquer dos dois cenários, o resultado é o mesmo: a imagem do evento arranhada logo na largada.

"Esse tipo de erro não acontece por acidente — acontece quando o processo de aprovação não tem um responsável claro pela checagem final. Alguém precisava confirmar se cada rosto naquele cartaz estava na lista oficial", afirmou um coordenador de comunicação esportiva com experiência em grandes eventos internacionais.

O que a trajetória de João Pedro torna o erro ainda mais visível

A escolha de João Pedro para o cartaz não é aleatória — e isso complica ainda mais a situação dos organizadores. O atacante formado nas categorias de base do Fluminense, onde chegou ao profissional aos 16 anos, construiu uma trajetória que justificaria a presença em qualquer material sobre a Seleção até semanas atrás. Pelo Chelsea na temporada 2025/2026 da Premier League, o jogador acumulou minutos relevantes e manteve a regularidade que o colocou no radar de Ancelotti. Na lista ampliada, seu nome aparecia ao lado de nomes como Vini Jr. e Raphinha exatamente porque a comissão técnica considerava sua inclusão plausível.

O problema é que a lista ampliada e a convocação definitiva são documentos distintos. Quando Ancelotti anunciou os 26 nomes em 18 de maio, João Pedro ficou de fora. A partir desse momento, qualquer material que o incluísse como representante da Seleção passava a ser factualmente incorreto. O cartaz em Cleveland não apenas errou — errou com um jogador cujo perfil tornava o erro difícil de perceber à primeira vista, o que provavelmente explica por que ninguém o corrigiu a tempo.

O amistoso segue, mas o rastro da gafe permanece

Dentro do grupo brasileiro, a semana em Morristown, Nova Jersey, transcorreu em clima de concentração. O centro de treinamento do New York Red Bulls foi palco de atividades intensas, incluindo um lance no treino de quarta-feira em que Casemiro acertou Endrick durante um exercício competitivo — episódio que viralizou nas redes sociais antes de ser rapidamente contextualizado pelos próprios jogadores. Na manhã desta sexta (5), os dois saíram juntos do vestiário rumo ao gramado, em clima descontraído, encerrando qualquer especulação sobre tensão interna.

Casemiro havia esclarecido a situação dias antes, ainda na Granja Comary:

"Fiquei bastante chateado. No momento em que fui tentar proteger o jogador, tentar não colocar o peso nele em uma Copa do Mundo. Endrick é um jogador que vai jogar umas três, quatro Copas. Ele é um grande jogador. A questão foi só de protagonismo. Existem outros jogadores que estão à frente e têm que assumir esse protagonismo", disse o volante do Manchester United.

Para o amistoso contra o Egito, Ancelotti deve escalar Alisson; Wesley, Marquinhos, Léo Pereira e Douglas Santos; Casemiro e Bruno Guimarães; Rayan, Igor Thiago, Raphinha e Vinicius Jr. A partida é a última antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra Marrocos, no dia 13 de junho. João Pedro, cujo rosto estampa o aeroporto de Cleveland, assistirá de fora.

Um cardápio impecável servido no prato errado — essa é a imagem que fica de uma comunicação que reuniu nomes certos e errados na mesma vitrine, sem que ninguém na cozinha percebesse a troca antes de o prato chegar à mesa.