Há uma premissa que circula nos bastidores do futebol brasileiro: técnico estrangeiro na Série B é aposta de alto risco, quase sempre fadada ao fracasso precoce. Na verdade, o histórico é bem mais complexo do que essa generalização — e entender por que ela não se sustenta passa, necessariamente, por observar o trabalho de John Askey no Chapecoense-sc.
O esquema que ele sempre busca rodar
Askey, nascido em novembro de 1964 na Inglaterra, pertence a uma geração de treinadores britânicos formados na tradição do futebol direto e vertical, mas que ao longo das décadas absorveu influências continentais sem perder a espinha dorsal pragmática. Seu esquema preferido organiza o time em linhas compactas, com transições rápidas entre as fases de posse e pressão — um modelo que lembra, em essência, o que técnicos ingleses de segunda e terceira divisão foram desenvolvendo ao longo dos anos 1990 e 2000, quando a Premier League já exportava a intensidade física, mas a Football League ainda refinava a disciplina tática.
Na prática, o que se observa no Brasileirão Série B 2026 é um time que tenta encurtar os espaços defensivamente, pressionando a saída de bola adversária a partir de referências posicionais fixas. Não é pressing caótico — é pressão organizada por zonas, com gatilhos claros para o momento de avançar sobre o portador da bola.
Como ele monta o time dentro desse esquema
A montagem do time por Askey revela escolhas que não são aleatórias. O técnico privilegia jogadores que entendem a função coletiva antes da individual — lateral que fecha o corredor antes de subir, volante que cobre o espaço antes de progredir. Essa lógica, documentada em clubes ingleses de divisões inferiores onde Askey construiu sua trajetória, é transportada para o contexto brasileiro com adaptações obrigatórias.
O futebol da Série B exige, por natureza, adaptabilidade. Os gramados irregulares, as viagens longas entre rodadas e a variação de qualidade dos adversários criam um ambiente radicalmente diferente do calendário europeu. Segundo apuração do SportNavo, o trabalho de Askey na Chapecoense tem buscado justamente criar uma identidade que resista a essas variáveis — um time que não dependa de inspiração individual para se organizar taticamente.
A comparação histórica que vem à mente é precisa: nos anos 1990, quando o Atlético Mineiro contratou o argentino Levir Culpi para romper com o improviso tático predominante no futebol brasileiro, a resistência inicial foi enorme. O tempo mostrou que a imposição de uma metodologia externa, quando aplicada com consistência, pode transformar elencos medianos em times competitivos. Askey enfrenta desafio semelhante em Chapecó em 2026.
Onde o esquema funciona melhor e onde quebra
O modelo de Askey funciona com maior eficiência quando o Chapecoense consegue ditar o ritmo da partida — ou seja, quando o adversário aceita jogar no campo defensivo e deixa espaços nas costas da linha de pressão. Contra equipes que recuam e esperam, o esquema encontra dificuldades para criar desequilíbrio, porque a proposta não é de posse elaborada com trocas de passes em triângulos curtos.
O ponto de ruptura do sistema aparece quando o time perde a referência posicional — geralmente após um gol sofrido que obriga ajustes de postura. Nesse momento, a disciplina tática pode ceder ao desespero coletivo, e a organização que Askey constrói ao longo da semana de treino se dissolve em minutos de jogo. É o calcanhar de Aquiles de qualquer sistema baseado em compactação: ele exige equilíbrio emocional coletivo para funcionar sob pressão.
A Série B, com suas doze rodadas iniciais que definem o ritmo de toda a temporada, é o período mais crítico para um técnico que aposta em construção de identidade. O grupo que entende o modelo antes do décimo jogo tende a colher resultados consistentes a partir da segunda metade do campeonato — padrão que se repete em divisões de acesso ao redor do mundo.
Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar
Dentro da lógica de Askey, o perfil de jogador valorizado não é o craque de individualidade exuberante, mas o profissional de alta leitura tática. O meia que antecipa o movimento antes de receber a bola, o atacante que pressiona o zagueiro adversário mesmo sem perspectiva imediata de ganhar a disputa — esses são os perfis que o técnico inglês tende a colocar em campo mesmo quando a torcida pede o nome mais badalado do elenco.
Essa escolha tem custo político. Em clubes como a Chapecoense, com torcida apaixonada e história marcada pela tragédia de 2016 e pela luta constante por recuperação institucional, a pressão por resultados imediatos é real. O técnico que prioriza processo sobre nome na camisa enfrenta questionamentos nas primeiras rodadas sem vitória — e Askey não está imune a esse cenário.
- Volante de cobertura: peça central no sistema, responsável por equilibrar a linha defensiva e iniciar a transição
- Lateral com leitura defensiva: o técnico não abre mão de laterais que fecham primeiro antes de projetar o ataque
- Atacante com mobilidade: a referência ofensiva no esquema de Askey precisa pressionar e se mover, não apenas esperar a bola
A Série B 2026 ainda tem um longo caminho pela frente. O Chapecoense de John Askey está construindo algo que vai além de uma campanha — está tentando estabelecer uma maneira de jogar que sobreviva às turbulências naturais de uma divisão de acesso. Para quem acompanha futebol com atenção histórica, esse processo tem valor independente do resultado imediato. Vale gravar os próximos jogos da Chapecoense e observar como o time se comporta quando o adversário pressiona — é ali que o trabalho de Askey se revela com mais clareza.











