O banco técnico está vazio quando os jogadores chegam ao treino. Ele já está no campo. John Coleman, nascido em outubro de 1962 na Inglaterra, não é o tipo de treinador que espera o grupo — é o tipo que define o ritmo antes de qualquer apito. Essa pequena cena, repetida em qualquer centro de treinamento onde trabalhou, diz mais sobre seu método do que qualquer esquema tático desenhado em lousa.

Aos 63 anos, Coleman ocupa hoje um dos bancos mais exigentes do futebol europeu: o do Ajax, clube que carrega no DNA o peso de Cruyff, de Michels, de toda uma filosofia de jogo que o mundo inteiro tentou copiar. Conduzir esse projeto na Champions League em 2026 não é tarefa para quem se intimida com legado. É tarefa para quem sabe o que quer de um grupo.

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Como ele lida com a estrela do elenco

Há um princípio que treinadores formados no futebol inglês carregam quase como segunda natureza: a estrela serve ao sistema, não o contrário. Coleman não é exceção. Em ambientes de alto rendimento, o jogador de maior visibilidade costuma ser também o mais testado — não em habilidade, mas em disposição para o pressing alto e para o trabalho defensivo sem bola.

No Ajax, onde a cultura de jogo posicional é quase uma religião, essa exigência encontra terreno fértil. O treinador inglês não precisa convencer ninguém de que o coletivo importa — precisa, isso sim, calibrar quando liberar o talento individual e quando contê-lo em função da estrutura. Essa gestão fina é onde treinadores se diferenciam em alto nível.

Como ele lida com o jovem em ascensão

O Ajax tem uma das academias mais respeitadas do mundo — La Masia tem sua contraparte em Amsterdã, e qualquer treinador que chega ao clube sabe que parte do trabalho é não estragar o que foi cultivado por anos. Coleman, vindo de uma tradição britânica que valoriza a robustez competitiva, precisa equilibrar o desenvolvimento com a exposição precoce.

O futebol europeu de 2026 não tem paciência infinita para o jovem que ainda está aprendendo — a Champions League cobra em tempo real. A habilidade de Coleman nesse ponto é proteger o jogador em formação do excesso de pressão externa sem isolá-lo da realidade do jogo de alto nível. É uma corda bamba que poucos treinadores atravessam sem oscilação.

Como ele lida com o veterano em queda

Este é, talvez, o capítulo mais revelador de qualquer treinador. O veterano que perdeu um passo, mas ainda carrega influência no vestiário, é um ativo e um risco simultaneamente. No futebol inglês, a tradição é clara: respeito pelo histórico, mas decisões baseadas no presente. Coleman parece operar com essa lógica.

Num clube como o Ajax, onde a identidade é construída sobre gerações, o veterano tem função simbólica que vai além dos minutos em campo. Saber usá-lo como referência cultural interna — e não como titular por inércia — é uma decisão de gestão que define o clima de um elenco inteiro. O treinador que acerta nesse ponto ganha o vestiário sem precisar de discurso.

O ambiente que ele cria no vestiário

Existe uma diferença entre o vestiário inglês e o continental que qualquer pessoa que viveu os dois ambientes percebe rapidamente. Em Londres, a comunicação é direta, às vezes crua — sem o verniz diplomático que se encontra em Barcelona ou Amsterdã. Coleman traz essa objetividade, mas precisou adaptá-la a um contexto onde o tiki-taka e o gegenpressing são referências filosóficas, não apenas estilos de jogo.

O resultado, quando funciona, é um grupo que sabe exatamente o que o treinador quer — sem ambiguidade, sem mensagens codificadas. A clareza é, em si, uma forma de respeito. E num elenco multicultural como o do Ajax, onde convivem jogadores de cinco ou seis nacionalidades diferentes, a clareza de comando é o único idioma universal.

Coleman não chegou a Amsterdã com o currículo de um Guardiola ou de um Klopp. Chegou com algo diferente: a autoridade de quem construiu convicções ao longo do tempo e não as troca por modismo tático. Num futebol cada vez mais saturado de buzzwords e sistemas da moda, há algo quase refrescante nisso.

Como ele lida com a estrela do elenco John Coleman e o pulso inglês que o Ajax
Como ele lida com a estrela do elenco John Coleman e o pulso inglês que o Ajax

O Ajax na Champions League 2025/2026 é o teste mais visível de sua trajetória. E Coleman parece entender que, neste clube, o processo importa tanto quanto o resultado — porque o Ajax não é só um time, é uma ideia de futebol que precisa ser renovada a cada geração.

John Coleman não prometeu revolucionar o Ajax. Prometeu fazê-lo funcionar — e às vezes isso é mais difícil.