O colapso cardíaco que levou Mircea Lucescu ao coma induzido numa UTI de Bucareste ecoa muito além das fronteiras romenas. Aos 79 anos, o veterano técnico construiu um legado que atravessa continentes, especialmente na ponte entre o futebol brasileiro e europeu durante seus 12 anos à frente do Shakhtar Donetsk, entre 2004 e 2016.

Durante essa década dourada na Ucrânia, Lucescu transformou o Shakhtar numa autêntica finishing school para talentos brasileiros. Fernandinho chegou a Donetsk em 2005 como um jovem volante do Atlético Paranaense por 8 milhões de euros. Sob a tutela do romeno, evoluiu para se tornar peça-chave na conquista de oito títulos ucranianos consecutivos, antes de sua transferência de 40 milhões de euros para o Manchester City em 2013.

A metodologia europeia aplicada aos brasileiros

O modus operandi de Lucescu combinava disciplina tática germânica com liberdade criativa típica do futebol sul-americano. Willian, contratado do Corinthians em 2007 por 14 milhões de euros, exemplifica essa evolução. O atacante paulista desenvolveu consistência defensiva sem perder sua velocidade característica, atributos que lhe renderam transferências posteriores para Anzhi Makhachkala (35 milhões de euros) e Chelsea.

Douglas Costa representa talvez o caso mais emblemático dessa metodologia Lucescu. Chegado do Grêmio em 2010 aos 19 anos, o gaúcho foi moldado taticamente para atuar tanto pelas beiradas quanto em posições mais centralizadas. Essa versatilidade, trabalhada incansavelmente nos campos de treino de Donetsk, tornou-se seu cartão de visitas no Bayern de Munique e na Juventus.

"Lucescu me ensinou que talento sem disciplina não leva a lugar nenhum no futebol europeu", declarou Douglas Costa em entrevista de 2018, já defendendo o Bayern.

O laboratório ucraniano e a Premier League

A estratégia do Shakhtar sob Lucescu ia além da simples importação de talentos. Fred, meio-campista revelado pelo Internacional, passou quatro temporadas (2013-2017) sendo lapidado no sistema 4-2-3-1 característico do técnico romeno. Essa base tática facilitou sua posterior adaptação ao Manchester United, onde chegou por 59 milhões de euros.

Taison, outro produto dessa escola, desenvolveu inteligência posicional que o diferenciou de outros extremos brasileiros na Europa. Suas 138 partidas pelo Shakhtar, com 26 gols marcados, evidenciam como Lucescu extraía rendimento máximo de jogadores tecnicamente dotados através de posicionamento preciso e transições rápidas.

Legado além dos números

Os oito títulos ucranianos, duas Copas da UEFA e uma Supercopa da UEFA conquistados por Lucescu no Shakhtar têm DNA brasileiro inegável. Marlos, naturalizado ucraniano, tornou-se símbolo dessa simbiose cultural, acumulando mais de 300 jogos pelo clube entre 2014 e 2022.

Bernard representa a última grande aposta de Lucescu no mercado brasileiro. Contratado do Atlético Mineiro em 2013 por 25 milhões de euros, o meia-atacante capixaba desenvolveu consistência tática que lhe abriu portas para Everton e posteriormente para o futebol árabe.

A metodologia europeia aplicada aos brasileiros Lucescu em estado grave relembra
A metodologia europeia aplicada aos brasileiros Lucescu em estado grave relembra
"Mircea tratava cada brasileiro como se fosse seu filho, sempre cobrando evolução tática", relembrou Bernard em podcast de 2021.

Enquanto Lucescu luta pela vida em Bucareste, seu legado permanece vivo nos gramados europeus. O estado grave do técnico romeno interrompe momentaneamente uma carreira que redefiniu como talentos sul-americanos podem ser desenvolvidos no Velho Continente, estabelecendo Donetsk como ponto de passagem obrigatório entre Porto Alegre e Manchester, entre São Paulo e Londres.