Se a Bélgica tivesse encerrado a partida sem Romelu Lukaku em campo, os Diabos Vermelhos estariam hoje na lanterna do Grupo G com zero pontos, derrotados por uma seleção egípcia que venceu apenas dois jogos em toda a história das Copas do Mundo — 1934 e 1990. A sequência de 18 partidas invictas estaria destruída. Não foi o que aconteceu: em 22 segundos cronometrados, o centroavante de 33 anos reescreveu o roteiro e forçou o empate em 1 a 1 no Lumen Field, em Seattle, nesta segunda-feira.
A Bélgica que não conseguia furar o bloqueio egípcio
O número que melhor sintetiza a dificuldade belga antes da entrada de Lukaku é simples: zero finalizações no alvo no primeiro tempo, enquanto o Egito já havia obrigado Thibaut Courtois a pelo menos duas intervenções decisivas. A seleção africana, organizada em bloco baixo e eficiente nos contra-ataques, anulou sistematicamente os movimentos de Kevin De Bruyne, Jeremy Doku e Charles De Ketelaere durante 65 minutos de jogo.
O gol egípcio — marcado aos 19 minutos do primeiro tempo — nasceu de uma inversão precisa de Mohamed Salah para Emam Ashour, meia do Al Ahly, que dominou na entrada da área e bateu colocado para vencer Courtois. Detalhe histórico que não passa despercebido a quem acompanha o futebol africano há décadas: foi o primeiro gol de Ashour pela seleção egípcia, e aconteceu numa Copa do Mundo — o maior palco possível. A vantagem poderia ter sido ampliada antes do intervalo, quando o atacante apelidado de Zico obrigou Courtois a uma defesa de qualidade. Na segunda etapa, Omar Marmoush chegou a assustar em duas arrancadas consecutivas.
O técnico Rudi Garcia — que assumiu a seleção belga após a Copa de 2022 — escalou uma equipe com quatro meias criativos em campo, mas a ausência de um referencial físico na área ficou evidente. De Bruyne acertou a trave numa cobrança de falta, e Youri Tielemans passou perto em chute de fora da área, mas o Egito controlava o resultado com disciplina tática.
22 segundos que mudam o jogo e a história do Grupo G
Romelu Lukaku — remanescente direto da geração que eliminou o Brasil nas quartas de final da Copa de 2018, com goleada de 2 a 1 em Kazan, em 6 de julho daquele ano — entrou aos 20 minutos do segundo tempo no lugar de De Ketelaere. Vinte e dois segundos depois, Thomas Meunier recebeu pela direita, cruzou na área e Lukaku disputou a bola pelo alto com o zagueiro Mohamed Hany. Ao tentar afastar, Hany desviou contra o próprio gol: 1 a 1.
"Lukaku entrou e em sua primeira participação, brigou pela bola dentro da área e esteve diretamente envolvido no lance que terminou com gol contra do zagueiro Hany", registrou a cobertura da partida.
A velocidade da contribuição de Lukaku encontra paralelo histórico na própria Copa de 2018, quando o atacante saiu do banco e resolveu partidas contra Panamá e Tunísia. Naquela campanha, ele terminou o torneio com quatro gols — artilheiro da seleção belga, que chegou ao terceiro lugar depois de eliminar Brasil, Japão e Inglaterra. Agora, aos 33 anos e com passagem recente pelo Napoli, Lukaku continua sendo o elemento de desequilíbrio físico que nenhum outro atacante belga da atual geração consegue oferecer.
Após o empate, Lukaku ainda teve a chance de virar o jogo aos 41 minutos: após cruzamento de Nicolas Raskin, apareceu livre na marca do pênalti, mas cabeceou por cima do travessão. O goleiro egípcio Ahmed Shobeir — que fez defesas importantes no segundo tempo — também salvou o Egito em finalização de Christian Mechele.
O que o empate projeta para a Bélgica no Grupo G
A sequência invicta belga — 18 partidas sem derrota — se manteve, mas o empate com o Egito expõe uma fragilidade estrutural: a geração de De Bruyne, que entre 2018 e 2022 foi considerada a mais talentosa da história do país, ainda não converteu qualidade individual em título coletivo. A Geração de Ouro da Bélgica soma três participações em Copas (2014, 2018 e 2022) sem jamais chegar à final — o terceiro lugar de 2018 continua sendo o teto histórico da seleção.
"O Egito esteve mais perto da vitória do que a Bélgica na abertura do Grupo G", concluiu análise pós-jogo, sintetizando o desempenho coletivo das duas equipes ao longo dos 90 minutos.
O Grupo G também tem Irã e Nova Zelândia, que se enfrentam ainda nesta segunda-feira em Los Angeles. Com um ponto cada, Bélgica e Egito sabem que um tropeço na segunda rodada pode complicar seriamente a classificação. Os belgas voltam a campo no próximo domingo, às 16h (horário de Brasília), diante do Irã, em Los Angeles — adversário teoricamente mais acessível, mas que já demonstrou capacidade de surpreender em Mundiais, como fez contra o País de Gales e o Iraque na Copa de 2022. A Bélgica precisará de muito mais do que 22 segundos de Lukaku para convencer — mas, ao menos por agora, esses 22 segundos foram suficientes para manter a campanha viva.








