"Pela primeira vez, eu não senti medo." Quem disse isso foi Michelle des Bouillons, carioca de 30 e poucos anos, ao descrever o instante em que se lançou numa parede d'água em Nazaré, Portugal, no dia 13 de dezembro de 2025, durante o WSL Nazaré Big Wave Challenge. A onda medida pelo especialista Paulo Vinicius Lopes — o mesmo que aferiu o recorde de Rodrigo Koxa em 2017 — chegou a 24,99 metros. Se confirmada pelo Guinness World Records e por Bill Sharp, criador do Big Wave Challenge Award, Michelle se tornará a mulher que surfou a maior onda da história, superando os 22,4 metros de Maya Gabeira registrados em 2020.

O que está em jogo agora com a onda de Michelle em Nazaré

O processo de validação envolve análise técnica de imagens, medição por pixels e auditoria do Guinness World Records. O anúncio oficial está previsto para até setembro de 2026. A medição atual de 24,99m supera em 2,59 metros o recorde vigente de Maya Gabeira e se aproxima do recorde masculino absoluto de Rodrigo Koxa, fixado em 24,38 metros em 2017 — o que tornaria a onda de Michelle a maior já surfada por qualquer atleta em Nazaré, independentemente do gênero. O Brasil, que já deteve três recordes mundiais de ondas gigantes (Koxa em 2017 e Maya Gabeira em 2018 e 2020), pode agora adicionar um quarto nome à lista.

"Recordes são feitos para serem quebrados. A minha maior esperança é fazer o esporte girar e trazer mais mulheres para esse universo." — Michelle des Bouillons, à Forbes Brasil.

Filha de surfistas, Michelle cresceu no Rio de Janeiro observando o pai fabricar pranchas no quintal. Aos 13 anos já disputava campeonatos locais. Depois de uma fase no surfe profissional e de passagens como modelo e apresentadora do Canal OFF, encontrou nas ondas gigantes de Nazaré o palco definitivo da carreira. Nos últimos anos acumulou o título de campeã brasileira de ondas grandes e o prêmio de maior onda surfada em 2024, consolidando-se como uma das primeiras mulheres a ganhar protagonismo real no big wave surfing mundial.

Michaela Fregonese e os 12,25 metros que tornaram Jaguaruna história

Enquanto o recorde de Michelle aguarda validação internacional, outro marco já foi oficializado no Brasil. No dia 11 de maio de 2026, na Laje da Jagua, em Jaguaruna (SC) — apelida de "Nazaré Brasileira" —, a paranaense Michaela Fregonese surfou uma onda de 12,25 metros, a maior já registrada por uma mulher em território nacional. A marca foi confirmada após uma semana de análise pelo oceanógrafo Douglas Nemes, o mesmo profissional que mediu a onda de 14,82 metros de Lucas Chumbo, também em Jaguaruna, em 2025 — recorde geral do país que permanece intacto.

A sessão histórica aconteceu após a passagem de um ciclone que gerou ondulações excepcionais ao longo do litoral catarinense. Michaela, de 45 anos, estava na região para um campeonato de remadas na Praia do Cardoso e havia planejado partir para Portugal, onde o filho mora. O voo foi cancelado. O que parecia contratempo virou destino.

"Foi a minha primeira onda no dia. Foi uma onda difícil de fazer. Eu não sabia que era tão longa. Eu fui premiada, não tiveram mais ondas como essa naquele dia. Já sou considerada a mulher que pegou a maior onda da história do Havaí, e agora a maior já surfada por uma mulher no Brasil. Vejo como uma inspiração para outras gerações. E as meninas que competem comigo vão ter que correr atrás." — Michaela Fregonese.

Natural de Curitiba, Michaela é referência consolidada no Big Surf mundial. Em 2025, foi campeã do Big Wave Challenge na Califórnia, Estados Unidos, vencendo duas categorias simultâneas: Onda do Ano e Maior Onda do Ano. A trajetória dela no surfe de ondas gigantes inclui ainda o título de maior onda surfada por uma mulher no Havaí — feito que, somado ao recorde brasileiro, forma um currículo sem paralelo no circuito feminino global. Esse nível de consistência em condições extremas é o que diferencia atletas de elite das demais: não é apenas coragem, é leitura de oceano, preparo físico específico e acúmulo de horas em água com ondulações acima de 10 metros.

O mapa da temporada feminina e o que muda para o surfe brasileiro

As marcas de Michelle e Michaela não existem num vácuo. Elas chegam num momento em que o surfe feminino de ondas grandes vive sua transformação mais rápida desde que Maya Gabeira começou a empurrar os limites no início dos anos 2010. A comparação entre temporadas é reveladora: em 2018, quando Maya registrou seus primeiros 20,72 metros, o campo feminino em Nazaré tinha menos de cinco atletas regulares. Na edição de dezembro de 2025 do WSL Nazaré Big Wave Challenge, o número de competidoras havia mais que dobrado, com representantes do Brasil, Portugal, Estados Unidos e Austrália.

No circuito nacional, o crescimento tem ritmo semelhante ao de uma tarde de sábado na Avenida Atlântica no Rio de Janeiro — constante, barulhento e difícil de ignorar. Jaguaruna, que até 2022 era conhecida apenas no circuito interno de big wave, hoje recebe câmeras internacionais e atrai surfistas de ponta sempre que uma ondulação acima de 10 metros se forma no sul do Brasil. A sessão de 11 de maio reuniu atletas de todo o país, e a onda de Michaela não foi a única a chamar atenção — foi a que ficou para a história.

O impacto desses recordes sobre a nova geração é mensurável. Nos últimos 12 meses, o número de inscrições em cursos de tow-in surf — modalidade que usa moto aquática para rebocar surfistas em ondas gigantes — cresceu mais de 40% nos estados de Santa Catarina e São Paulo, segundo dados de escolas de surf especializadas. Michelle des Bouillons, consciente desse efeito, transforma cada aparição pública numa plataforma de recrutamento informal para o esporte.

O resultado oficial da onda de Nazaré será divulgado até setembro de 2026. Se confirmado, o Brasil terá simultaneamente o recorde mundial feminino (Michelle, 24,99m em Nazaré) e o recorde feminino nacional (Michaela, 12,25m em Jaguaruna) — dois marcos que redesenham o mapa do big wave surfing feminino e colocam o país numa posição que nenhuma outra nação ocupa no momento. O palco está montado — falta o Guinness bater o martelo.