O apito do árbitro para o início da partida contra Marrocos já ressoa no ar. No entanto, para entender o que está em jogo neste sábado (13/6), é preciso recuar quatro anos — quatro técnicos, uma campanha de Eliminatórias que envergonhou a história verde-amarela e uma CBF que trocou de treinador com a frequência de quem muda de playlist no metrô da Consolação. Essa é a bagagem real que Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e agora Carlo Ancelotti deixaram para a Seleção Brasileira carregar até o MetLife Stadium.
Quatro treinadores e uma campanha que não engana ninguém
O Brasil terminou as Eliminatórias Sul-Americanas em 5º lugar — atrás de Argentina, Equador, Colômbia e Uruguai. Para uma seleção que acumula cinco títulos mundiais e historicamente domina o continente, esse resultado não é apenas modesto: é um sinal de alerta vermelho. A classificação veio com rodadas de antecedência, é verdade, mas apenas porque a Fifa distribuiu vagas com generosidade fora do comum. Mérito técnico? Praticamente nenhum.
A rotatividade no comando técnico não é detalhe folclórico — é o principal sintoma da crise. Fernando Diniz chegou com a proposta do futebol posicional e partiu sem consolidar nada. Dorival Júnior trouxe estabilidade emocional mas não conseguiu imprimir identidade tática. Ramon Menezes foi um capítulo de transição que não merece mais do que uma nota de rodapé. Quatro nomes, quatro filosofias, quatro recomeços — e um elenco que chegou ao Mundial sem saber ao certo o que é pedido de um jogo para o outro.
"A chegada do renomado italiano para comandar o elenco até o Mundial jogou uma boa quantidade de fumaça no ambiente, abrindo a possibilidade de fuga da crise", avaliou análise publicada pelo Terra Esportes às vésperas da estreia.
O que Ancelotti mudou em tempo de pré-temporada, não de ciclo
Carlo Ancelotti chegou ao Brasil com 64 anos, três Champions Leagues no currículo e um desafio que poucos treinadores do mundo encarariam: reorganizar em meses o que deveria ter sido construído em quatro anos. O italiano não teve um ciclo — teve uma pré-temporada longa. E dentro desse prazo limitado, os resultados dos amistosos não foram brilhantes, mas a presença do nome emprestou credibilidade institucional a uma CBF que precisava urgentemente de verniz.
Ancelotti trouxe pragmatismo europeu para um grupo acostumado à instabilidade. Testou mais de 90 jogadores em amistosos ao longo do processo de seleção, algo inédito na história recente da Seleção. Estabeleceu uma linha tática baseada em bloco médio e transições rápidas, aproveitando a velocidade de Vinícius Júnior e Rodrygo nos flancos. O problema é que tática se consolida com repetição, e o tempo foi curto demais para sedimentar automatismos. O Brasil que entra em campo contra Marrocos é um time que ainda está aprendendo a jogar junto — e isso, num torneio eliminatório, é risco real.
"Os resultados não foram brilhantes e muito menos o desempenho, mas a presença de Ancelotti emprestou certa credibilidade à CBF", segundo avaliação do Terra Esportes.
Brasil sem favoritismo e o grupo que pode funcionar como oxigênio
No mesmo grupo estão Haiti e Escócia — seleções sem tradição recente em Copas do Mundo. A estrutura do torneio, que classifica oito dos terceiros colocados de cada grupo, reduz o risco de eliminação precoce e dá ao Brasil margem para tropezar uma vez sem catástrofe imediata. Essa é a boa notícia. A ruim é que Copa do Mundo não se vence na fase de grupos — e quando o Brasil cruzar com potências como Argentina, França ou Inglaterra, a conta da instabilidade do ciclo vai chegar.
A Argentina de Lionel Scaloni, por exemplo, encerrou as Eliminatórias em 1º lugar com 39 pontos, 15 a mais que o Brasil, e chega ao Mundial como bicampeã mundial em exercício. A França soma elenco de valor de mercado superior a 1,2 bilhão de euros. A Inglaterra de Jude Bellingham e Phil Foden tem coesão tática que o Brasil ainda busca. Esses números não mentem — o Brasil de 2026 não é favorito, e qualquer narrativa diferente é conforto emocional, não análise técnica.
Há, contudo, um argumento legítimo a favor da Seleção: a Copa do Mundo é torneio de eliminações diretas, e em decisões de 90 minutos o talento individual pode compensar lacunas coletivas. Vinicius Jr. e Rodrygo têm capacidade técnica para resolver jogos sozinhos, como demonstraram em temporadas recentes na La Liga. Se Ancelotti conseguir criar um ambiente de confiança dentro do vestiário — algo que o italiano faz com maestria, como provou no Real Madrid — o Brasil pode crescer ao longo do torneio, como aconteceu em 2002, quando a Seleção entrou sem ser favorita e saiu pentacampeã.
Aqui em Porto Alegre, nos bares da Cidade Baixa onde a torcida gaúcha acompanha cada convocação com ceticismo saudável, o sentimento predominante antes desta Copa não é euforia — é cautela. Torcedores que viveram o hexa como expectativa razoável em 2006 e 2014 chegam a 2026 com expectativas calibradas pela realidade: esse Brasil pode surpreender, mas precisa mostrar primeiro que aprendeu a jogar como time.
A estreia contra Marrocos, neste sábado (13/6), será o primeiro termômetro real. Se o Brasil apresentar organização defensiva sólida e conseguir criar situações de gol pelos flancos — as principais armas que Ancelotti vem ensaiando —, o grupo pode ser vencido com tranquilidade. Se o time mostrar os mesmos problemas de desconexão entre linhas que apareceram nos amistosos, a pergunta que vai ficar no ar é: quando Rodrygo ou Vini Jr. enfrentar uma zaga como a da França nas oitavas, quem vai resolver o jogo se o coletivo não funcionar?








