Não é o tabu que pesa sobre Carlo Ancelotti — é a ausência de qualquer precedente. Em 22 edições da Copa do Mundo, desde o torneio inaugural de 1930 no Uruguai, todos os treinadores que ergueram o troféu comandavam a seleção de seu próprio país. Não houve exceção. Nem Helenio Herrera, nem Bora Milutinovic, nem Marcelo Bielsa chegaram perto. O italiano que hoje dirige o Brasil não enfrenta apenas adversários em campo: enfrenta uma estatística de 96 anos de consistência histórica.
O dado que ninguém conseguiu derrubar em quase um século
A lista é longa e, por isso mesmo, eloquente. Desde Alberto Suppici, técnico uruguaio que venceu em 1930, passando por Vittorio Pozzo — o único bicampeão da história, com a Itália em 1934 e 1938 —, até Luiz Felipe Scolari, que levou o Brasil ao pentacampeonato em 2002 derrotando a Alemanha por 2 a 0 na final de Yokohama, todos os campeões eram nacionais. Scolari, aliás, testou os limites dessa lógica quando levou Portugal à semifinal da Copa de 2006, eliminando a Inglaterra de Wayne Rooney por 3 a 1 nas quartas, mas parou na Alemanha. Chegou perto, não chegou lá.
O próprio Ancelotti acumula um currículo que poucos treinadores da história podem apresentar: quatro títulos da Champions League — dois pelo Real Madrid (2014 e 2022), um pelo AC Milan (2003) e outro pelo mesmo Milan (2007) —, além de campeonatos nacionais em cinco países diferentes (Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha). Nenhum outro técnico vivo tem esse espectro. Mas Copa do Mundo é outra categoria de pressão, com variáveis que nenhum clube reproduz: eliminação direta desde as oitavas, ciclo de quatro anos, peso de uma nação inteira.
A narrativa popular ignora o que Ancelotti já mudou no Brasil
Circula nos corredores do futebol brasileiro a ideia de que Ancelotti seria um nome de prestígio sem enraizamento real no grupo. A narrativa é cômoda, mas não resiste aos dados. O técnico italiano conduziu o Brasil a uma classificação nas Eliminatórias com 31 pontos em 18 jogos — aproveitamento superior ao de Tite no mesmo recorte do ciclo de 2022. Mais do que isso, construiu um ambiente de confiança que se reflete nas declarações dos próprios jogadores.
Luiz Henrique, atacante do Zenit e uma das apostas de Ancelotti para o torneio, acumulou cinco gols e três assistências em 31 partidas pela Seleção e resume o clima interno com precisão:
"A gente não pode entrar com essa responsabilidade dentro de campo. Temos que entrar tranquilos e alegres, para entrar em campo e tudo possa fluir naturalmente. Quando o grupo entra tranquilo e leve, conseguimos trazer a vitória. Não podemos entrar com essa pressão de que o Brasil não ganha desde 2002."
A fala do ponta nascido em Petrópolis — que foi para São Petersburgo sem roupa adequada para o frio de -5°C e se consolidou treinando na neve — revela algo sobre o perfil que Ancelotti priorizou: jogadores com histórico de superação e cabeça fora do ruído externo. O atacante perdeu o pai enquanto estava na Europa, sem tempo de se despedir, e carrega essa história com maturidade rara.
"Eu falaria que amo ele, não pude falar isso muito para ele, porque eu não tinha muito convívio com a minha família. Mas eu sei que ele está orgulhoso lá de cima", disse Luiz Henrique, em entrevista ao Canal UOL.
Vinicius e o peso de 24 anos sem título
Se Luiz Henrique representa a surpresa tática de Ancelotti, Vinicius Júnior é a referência técnica incontestável do time. O atacante do Real Madrid encerrou a temporada europeia 2025/2026 com 22 gols e dez assistências em 53 partidas — números que sustentam sua posição de protagonista mesmo com o clube espanhol sem títulos na temporada. Seu contrato com o Real vai até junho de 2027, e as negociações de renovação seguem travadas, mas Vini foi categórico ao ser questionado sobre o assunto:
"Estou focado na Seleção Brasileira neste momento. Vou falar sobre o Real Madrid quando a Copa do Mundo terminar e a próxima temporada começar."
O atacante revelado pelo Flamengo vai além dos números individuais ao projetar sua participação no torneio:
"Ainda restam oito jogos; posso mudar essa história pelo nosso país e pelos jogadores. Não estou falando sobre gols ou assistências, mas sobre jogar bem e transmitir confiança para a equipe."A frase sintetiza o que Ancelotti parece ter conseguido instalar no grupo — uma mentalidade coletiva que o Brasil raramente exibiu nas últimas Copas, onde o peso do favoritismo historicamente sufocou o desempenho.
O Brasil estreia no Grupo C contra Marrocos, adversário que chegou às semifinais da Copa de 2022, eliminando Espanha e Portugal no caminho — desempenho que nenhuma seleção africana havia alcançado antes. Haiti e Escócia completam o grupo. Os dois primeiros de cada chave, mais os melhores terceiros, avançam às oitavas.
Ancelotti tem 65 anos, seis décadas de futebol nas costas e uma carreira construída sobre a capacidade de gerir vestiários de alto ego sem criar hierarquias visíveis. Fez isso com Ronaldo, Kaká, Pirlo, Zidane e Benzema. O desafio agora é diferente: não há Champions para ganhar em maio se a Copa der errado em julho. Há apenas uma janela, quatro semanas, oito jogos possíveis. Se o italiano vencer, reescreve 96 anos de história do futebol mundial. Se perder, a estatística segue intacta — e o Brasil chega a 28 anos sem título.
O Brasil enfrenta Marrocos neste sábado, dia 13 de junho, às 15h (horário de Brasília), no SoFi Stadium, em Los Angeles. Uma vitória coloca a Seleção na liderança do Grupo C e abre caminho direto para as oitavas. A história começa agora.








