Não, o problema do árbitro brasileiro não é falta de coragem para apitar. O diagnóstico real da 17ª e 18ª rodadas do Brasileirão é outro: a falta de uniformidade na aplicação de regras que estão em vigor desde 2025 — e que parte do quadro de arbitragem ainda não domina com segurança suficiente para usar sem gerar incêndio.
A regra dos 8 segundos e o incidente com Neto na Arena Fonte Nova
Na tarde deste sábado, o goleiro Neto, do Botafogo, foi expulso pelo árbitro Davi de Oliveira Lacerda durante a partida contra o Bahia, pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro, na Arena Fonte Nova. O estopim foi direto: Neto chamou Lacerda de "filho da p..." em protesto a uma marcação de escanteio.
A infração que gerou o escanteio foi enquadrada na regra dos 8 segundos — norma vigente desde 2025 que limita o tempo máximo em que o goleiro pode manter controle total da bola com as mãos. Ultrapassado o limite, a punição é escanteio para o adversário, e não tiro livre indireto como era antes. A mudança veio da IFAB (International Football Association Board) e foi adotada pela CBF no início da temporada.
Neto não aceitou a marcação e iniciou uma sequência prolongada de reclamações. Em determinado momento, as câmeras da transmissão captaram o goleiro proferindo o xingamento. Lacerda foi igualmente claro nas imagens: cercado por jogadores do Botafogo, o árbitro afirmou em voz alta —
"Me chamou de filho da p... Todo mundo ouviu."O cartão vermelho foi imediato.
Com a expulsão, o técnico do Botafogo precisou sacrificar o atacante Lucas Villalba para a entrada do goleiro reserva Raul — uma substituição forçada que custou uma peça ofensiva no segundo tempo. Mesmo jogando com dez, o Botafogo vencia por 1 a 0 no momento do relato.
O custo operacional de uma expulsão e o histórico de Lacerda
Do ponto de vista tático, perder um atacante para cobrir a goleira é o equivalente a pagar multa por rescisão antecipada: você quita a obrigação imediata, mas o saldo fica negativo. Villalba saiu, Raul entrou, e o Botafogo passou a defender a vantagem com um homem a menos — cenário que, em termos de probabilidade, reduz a chance de ampliar o placar de forma significativa.
Davi de Oliveira Lacerda já havia sido protagonista de polêmica na rodada anterior. Na 16ª rodada, o árbitro aplicou cartão vermelho direto ao meia Carrascal, do Flamengo, durante o clássico contra o Palmeiras. Aos 21 minutos do primeiro tempo, Lacerda interpretou uma dividida em que Carrascal esticou demais a perna e atingiu o ombro do zagueiro Murilo como jogo brusco grave. O Flamengo reclamou da intencionalidade, mas o vermelho se manteve. O Palmeiras venceu por 3 a 0.
Dois jogos seguidos com decisões de alto impacto. Isso não significa que Lacerda errou nas duas — a expulsão de Neto, por exemplo, tem respaldo claro no artigo sobre desrespeito ao árbitro. Mas a recorrência coloca o nome do árbitro em evidência num momento em que a CBF ainda lida com a curva de aprendizado das novas regras… e aí vem o problema.
Impedimento em arremesso lateral expõe outra lacuna na capacitação
Se o caso Neto levanta debate sobre comportamento dentro de campo, o lance do Mirassol x Athletico-PR, pela 18ª rodada, expõe um erro técnico mais grave: o bandeirinha assinalou impedimento em um arremesso lateral do Reinaldo, do Mirassol, aos 22 minutos do primeiro tempo.
O problema é que não existe impedimento em arremesso lateral. A regra é expressa tanto no livro da CBF para 2025/2026 quanto nas diretrizes da IFAB: um jogador não pode ser flagrado em posição de impedimento quando recebe a bola diretamente de um lateral. O árbitro Fernando Antonio Mendes de Salles Nascimento Filho confirmou a marcação do auxiliar, e o Mirassol terminou derrotado por 1 a 0.
Reinaldo foi incisivo no vestiário:
"Tenho certeza que a nossa equipe, a partir desse momento, deu uma baixada e focou muito na arbitragem. Mas é um lance que eu falo que não tem nem o que explicar, é só falar que errou e já era. Querem explicar o inexplicável."
O técnico Rafael Guanaes também reclamou diretamente com o quarto árbitro. A diferença entre o erro do lateral e o erro dos 8 segundos é a natureza da falha: no caso de Neto, o árbitro aplicou uma regra nova com margem para interpretação subjetiva de tempo. No caso do Mirassol, o auxiliar infringiu uma regra que existe há décadas e não admite zona cinzenta.
Duas rodadas, dois erros distintos e um mesmo diagnóstico
A distância entre conhecer uma regra e aplicá-la sob pressão de 50 mil torcedores é parecida com a distância entre Recife e Manaus — existe no mapa, mas só quem percorre entende o tamanho real. A CBF introduziu a regra dos 8 segundos em 2025 com treinamentos e circulares, mas o nível de assimilação no quadro de árbitros ainda é heterogêneo. Enquanto Lacerda aplicou a norma nova com firmeza — e colheu um xingamento como resposta —, outro auxiliar ignorou uma regra centenária no mesmo fim de semana.
O padrão de capacitação importa mais do que o caso individual. A CBF publicou em 2025 os critérios para a regra dos 8 segundos, mas não há auditoria pública sobre quantos árbitros foram reprovados em simulações práticas antes de assumir jogos da Série A. Esse dado, se existir, nunca foi divulgado.
O Botafogo volta a campo na próxima rodada do Brasileirão sem Neto, que cumprirá suspensão automática pela expulsão. O clube precisará definir se Raul segue como titular ou se recorre ao mercado para reforçar o setor — decisão que, dependendo do prazo de suspensão, pode ter impacto direto na tabela das próximas semanas.










