Três coisas: lesão, idade e histórico. Tudo se explica daí.

Neymar sofreu uma lesão muscular na panturrilha direita em maio de 2026, tem 34 anos e carrega no corpo uma sequência de interrupções que o manteve fora da Seleção Brasileira desde o final de 2023. A pergunta que ninguém consegue responder com precisão cirúrgica — nem o médico Rodrigo Lasmar, nem Carlo Ancelotti — é se o camisa 10 estará em condições de iniciar o jogo contra Marrocos no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

O cronograma que Ancelotti se recusa a fechar

Ao desembarcar no Aeroporto Internacional Newark Liberty na manhã desta terça-feira, 2 de junho, Ancelotti foi direto sobre o estado de saúde do atacante do Santos, mas deliberadamente vago sobre datas.

"Ele está progredindo bem, está trabalhando bem, não temos pressa", disse o treinador italiano em vídeo divulgado pela FIFA.
A frase soa tranquilizadora. Lida com atenção, é o oposto: um técnico que tem onze dias para decidir a escalação da estreia de uma Copa do Mundo e ainda não tem certeza se seu jogador mais experiente pode jogar está, na prática, administrando incerteza.

O Brasil enfrenta o Egito no sábado, 6 de junho, às 19h (horário de Brasília), no Huntington Bank Field, em Cleveland — último amistoso antes do Mundial. Ancelotti confirmou que o jogo servirá para "fazer alguns testes" antes da estreia. A pergunta que paira sobre o treino é se Neymar será um desses testes ou apenas um observador na beira do campo.

O peso de 79 gols numa panturrilha que já falhou antes

Com 79 gols marcados pela Seleção Brasileira, Neymar superou Pelé e se tornou o maior artilheiro da história do futebol brasileiro. O número é real e impressionante. O que também é real: o atacante não joga pela Seleção há mais de dois anos. A última partida foi em outubro de 2023, quando rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo numa eliminatória contra o Uruguai, em Montevidéu. Desde então, vieram cirurgia, reabilitação, retorno ao Santos em 2025 e agora esta lesão muscular que surgiu em maio, semanas antes da Copa.

O cronograma que Ancelotti se recusa a fechar Neymar com 34 anos e panturrilha c
O cronograma que Ancelotti se recusa a fechar Neymar com 34 anos e panturrilha c

A comparação histórica é inevitável e cruel. Em 1994, Romário chegou ao Mundial dos Estados Unidos como a grande dúvida da Seleção de Parreira — não por lesão, mas por desentendimentos com a comissão técnica. Entrou, marcou cinco gols e foi o melhor jogador do torneio. Mas Romário tinha 28 anos e estava no auge físico. Neymar, em 2026, tem 34 e acumula três grandes lesões nos últimos quatro anos. São situações incomparáveis em termos de risco fisiológico.

O peso de 79 gols numa panturrilha que já falhou antes Neymar com 34 anos e pant
O peso de 79 gols numa panturrilha que já falhou antes Neymar com 34 anos e pant

O Grupo C e o que Marrocos representa taticamente

O Brasil foi sorteado no Grupo C ao lado de Marrocos, Escócia e Haiti. A estreia contra os marroquinos, semifinalistas na Copa do Catar em 2022, exige um Brasil organizado desde o primeiro minuto. Marrocos é uma equipe que pressiona alto, fecha linhas com disciplina e transita rápido no contra-ataque — exatamente o tipo de adversário que demanda mobilidade dos atacantes brasileiros. Um Neymar em 70% da capacidade física, ainda preservando a panturrilha, representa um risco tático concreto.

Casemiro, ao pousar em Newark ao lado do elenco, resumiu a postura coletiva da delegação com precisão:

"Expectativa é gigante e a gente está em busca desse sonho. Nós não somos a grande favorita. Chegamos fortes, temos um grupo bom, uma mescla de juventude e de grandes jogadores."
A frase de Casemiro revela algo que o próprio Ancelotti endossou:
"Esta Copa do Mundo não tem favoritos; o Brasil vai competir contra todos."
O discurso de expectativa calibrada é consciente. Nas últimas cinco Copas do Mundo, o Brasil passou das quartas de final apenas uma vez — em 2014, quando perdeu por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal, em Belo Horizonte.

O que a estreia contra Marrocos vai revelar sobre Neymar e sobre Ancelotti

Zetti, goleiro campeão em 1994, avaliou em declarações recentes que o retorno de Neymar merece um olhar otimista — e que o grupo tem qualidade para competir independentemente da condição física do camisa 10. A posição de Zetti é relevante porque vem de quem viveu uma Copa do Mundo sob pressão máxima e sabe o que significa ter um craque na delegação sem garantia de jogo, conforme registrado pelo SportNavo nos últimos dias de preparação.

A decisão de Ancelotti sobre a titularidade de Neymar contra Marrocos vai além do estado muscular do atacante. Ela define o modelo de jogo do Brasil na Copa: uma Seleção construída em torno do maior artilheiro de sua história, ou uma equipe coletiva que usa Neymar como trunfo do banco? O amistoso contra o Egito, no sábado, 6 de junho, é o único ensaio geral disponível. Se Neymar entrar em campo em Cleveland e suportar 45 minutos sem recaída, a discussão sobre a titularidade em 13 de junho ganha outro peso. Se ficar fora, Ancelotti vai ao MetLife Stadium com uma escalação que ainda não testou seu jogador mais decisivo.