Doze jogos. Esse é o novo teto que separa um atleta da liberdade de vestir outra camisa no Brasileirão. A CBF aprovou, durante o Conselho Técnico da Série A realizado na sede da entidade no Rio de Janeiro, o aumento do limite de partidas para transferências entre clubes da elite: o índice saltou de 6 para 12 jogos, dobrando uma trava que vigorava há anos. A regra já está em vigor na temporada atual e reconfigura diretamente o planejamento das diretorias para a janela nacional, prevista para abrir em 10 de julho.
O que mudou e por que a CBF decidiu agir
Até 2025, um jogador que tivesse atuado em sete ou mais partidas por um clube na Série A estava vedado de se transferir para qualquer outro time da mesma divisão naquela temporada. A nova regra eleva esse patamar para 13 jogos — ou seja, o atleta pode disputar até 12 partidas e ainda manter a elegibilidade para uma transferência dentro da elite. A decisão seguiu o caminho já aberto pela Série B, que ampliou seu próprio limite de 6 para 8 jogos em 2022.
"Tivemos duas decisões importantes: a redução do número de vagas à Libertadores vindas do Brasileirão, com a ampliação na Copa do Brasil, e o aumento da trava de 6 para 12 jogos para a transferência de jogadores entre clubes", afirmou Helder Melillo, diretor executivo da CBF.
O raciocínio da entidade era dar mais flexibilidade ao mercado. Contudo, o calendário de 2026 — com o Brasileirão iniciando em 28 de janeiro e 18 rodadas previstas antes da pausa para a Copa do Mundo — criou um efeito colateral concreto: atletas que atuam regularmente já podem atingir o novo limite antes mesmo de a janela de julho abrir oficialmente. Quem chegar ao 13º jogo antes de 10 de julho ficará bloqueado para negociações dentro da Série A pelo restante da temporada.
Vitória tem 13 jogadores no limite, e o recado é direto
O Vitória é o clube em situação mais delicada. Com o rubro-negro baiano vivendo momento crítico na tabela e eliminado precocemente na Copa Sul-Americana, a diretoria avalia reformulações para a janela de julho. O problema é que 13 atletas do elenco já ultrapassaram o patamar de 12 jogos e estão impedidos de se mover para qualquer outro clube da Série A na temporada. Entre os bloqueados estão peças de peso: o goleiro Lucas Arcanjo (9 jogos), os zagueiros Lucas Halter (10) e Zé Marcos (7), os laterais Jamerson (10) e Claudinho (8), além do atacante Janderson (10) e do meia Matheuzinho (8). Gustavo Mosquito, Ricardo Ryller e Erick completam o grupo de titulares sem janela aberta para trocas dentro da elite. Para esses atletas, o destino possível passa por clubes de outras divisões ou pelo exterior.

A análise do SportNavo mostra que o Vitória enfrenta um dilema financeiro real: dispensar jogadores bloqueados libera folha salarial, mas elimina a receita de uma eventual venda para outro clube da Série A, já que nenhum time da divisão pode inscrevê-los. A margem de manobra fica restrita ao mercado externo ou a negociações com clubes de Série B e C.
Hulk, Barboza e o mercado que já se movimenta antes de julho
O impacto da nova regra não se limita a clubes em crise. No Atlético-MG, Hulk — 39 anos e ídolo recente da torcida mineira — foi preservado de uma partida contra o Flamengo na Arena MRV justamente para não atingir o 13º jogo e manter aberta a possibilidade de transferência para o Fluminense, clube que monitora o veterano desde o início do ano. A manobra revelou que a gestão dos minutos jogados virou ferramenta tática de diretoria, não apenas de comissão técnica.
"Abordamos a questão dessa indicação de uma segunda vaga via Copa do Brasil para a Libertadores e do limite de partidas que um jogador pode ter por um clube antes de se transferir para outro time da Série A, entre outros assuntos", destacou Julio Avellar, diretor de Competições da CBF.
No Botafogo, o zagueiro argentino Alexander Barboza, de 31 anos, está na mira do Palmeiras. Com contrato até dezembro de 2026 e sem renovação encaminhada, Barboza pode assinar pré-contrato com qualquer clube a partir de julho e sair sem custo ao final da temporada. O Botafogo, em grave crise financeira, prefere vendê-lo agora para recuperar ao menos parte do valor investido. O defensor segue sendo escalado, o que significa que cada jogo adicional aproxima o prazo de corte para uma transferência interna à Série A.
São Paulo, Corinthians e a gestão cirúrgica do plantel
São Paulo e Corinthians já registraram, em temporadas anteriores com a regra dos 6 jogos, situações similares — e os números servem de referência histórica para calibrar o impacto atual. Em 2022, o Tricolor paulista tinha nove atletas bloqueados antes da janela de julho, incluindo Calleri, Diego Costa, Pablo Maia e Alisson. No Corinthians do mesmo período, Cássio, Fagner, Gil e Victor Cantillo estavam entre os primeiros a atingir o limite de 7 jogos vigente à época. Com o dobro de partidas agora exigidas, a tendência é que mais atletas cheguem ao limite em temporadas com início antecipado, porque o número de rodadas antes da pausa cresce proporcionalmente.
O levantamento do SportNavo aponta que, com 18 rodadas disputadas até a pausa para o Mundial, um titular absoluto que jogue todos os jogos acumulará 18 partidas — seis acima do novo teto. Isso significa que clubes cujos titulares regulares precisam ser vendidos têm, na prática, uma janela de negociação que se encerra antes da abertura oficial de julho. A gestão de minutos virou, portanto, uma variável financeira tão relevante quanto a tática.

A janela oficial de transferências nacionais abre em 10 de julho, e os clubes que ainda não atingiram o teto de 12 jogos com seus jogadores-alvo têm entre agora e essa data para formalizar negociações. Vitória, Atlético-MG e Botafogo já identificaram quais nomes do elenco precisam ser negociados antes do corte — e a próxima rodada do Brasileirão pode, ela mesma, fechar ou abrir portas no mercado.









