Quando a Alemanha goleou o Brasil por 7 a 1 no Mineirão, em 8 de julho de 2014, o mundo do futebol entrou em colapso. Mas um economista alemão chamado Joachim Klement estava tranquilo: seu modelo matemático já havia apontado a Mannschaft como campeã antes mesmo da bola rolar no Grupo G. Dois anos antes, Klement havia construído aquele modelo não para prever o futuro, mas para ridicularizá-lo — para expor a arrogância dos economistas que acreditam poder quantificar o imprevisível. O experimento virou contra ele. E três Copas do Mundo depois, o mundo passou a ouvi-lo.

Um modelo feito para falhar que teimou em acertar

A lógica de Klement era simples na concepção e desconcertante nos resultados. Ele alimentou o modelo com indicadores econômicos e históricos de cada seleção participante — variáveis como produto interno bruto, desempenho histórico em Copas e posicionamento no ranking da Fifa. A ideia original, conforme o próprio economista contou à BBC, era demonstrar que análises estatísticas aplicadas ao futebol estavam fadadas ao erro.

"Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", disse Klement.

O problema é que o modelo acertou em 2014 (Alemanha), acertou em 2018 (França) e acertou em 2022 (Argentina). Três edições consecutivas, três campeões corretos. Uma sequência que, em estatística, tem probabilidade inferior a 1% de ocorrer por puro acaso — considerando que cada torneio reúne 32 seleções com chances desiguais de título. Klement não demorou a reconhecer a ironia da situação.

"Agora, isso passou a ser uma demonstração de como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru", completou o economista, mantendo a postura cética.

A Holanda e o troféu que sempre escapou pela janela

Para a Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, o modelo de Klement aponta os Países Baixos como campeões. A previsão tem um peso simbólico que vai além dos números: a Holanda é a seleção com mais finais de Copa disputadas sem nunca ter vencido o torneio — três decisões, em 1974, 1978 e 2010, todas encerradas com a taça nas mãos do adversário. Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e a Laranja Mecânica tem caçado o título há mais de cinquenta anos com o que tem em mãos.

Em 1974, Johan Cruyff e seu futebol total chegaram à final em Munique e perderam para a própria Alemanha por 2 a 1. Em 1978, sem Cruyff — que recusou a convocação por razões pessoais —, a Holanda perdeu a decisão para a Argentina anfitriã por 3 a 1, na prorrogação. Em 2010, em Johanesburgo, o gol de Andrés Iniesta no segundo tempo extra entregou a taça à Espanha. Três finais, três derrotas. Nenhum outro país carrega esse peso de prata acumulado.

Os números que sustentam a aposta de 2026

O modelo de Klement mapeia todas as fases do torneio, projetando resultados jogo a jogo com base nas variáveis socioeconômicas e históricas de cada seleção. A Holanda atual chega à Copa de 2026 com credenciais sólidas: o técnico Ronald Koeman conduziu a equipe às semifinais da Eurocopa de 2024, onde perdeu para a Inglaterra por 2 a 1 numa partida decidida nos acréscimos. No ranking da Fifa de maio de 2026, os holandeses figuram entre os dez primeiros do mundo, com geração que mistura a experiência de Memphis Depayartilheiro histórico da seleção, com 46 gols — e a potência de Cody Gakpo, artilheiro do Liverpool na Premier League 2025/2026.

Um modelo feito para falhar que teimou em acertar O economista que acertou 3 Cop
Um modelo feito para falhar que teimou em acertar O economista que acertou 3 Cop

O PIB dos Países Baixos, uma das variáveis que alimentam o modelo de Klement, figura entre os 20 maiores do mundo, com aproximadamente 1,1 trilhão de dólares em 2025 segundo dados do Fundo Monetário Internacional. Essa estabilidade econômica, combinada com um histórico de resultados expressivos em Copas — a Holanda chegou a pelo menos as quartas de final em seis das últimas oito edições do torneio —, coloca o país holandês no topo das projeções do economista alemão.

Ceticismo calculado e o aviso do próprio criador

Klement, porém, é o primeiro a pedir cautela. Ele estima que seu modelo é, na melhor das hipóteses, metade ciência e metade sorte — e esse aviso, registrado pelo SportNavo a partir de declarações do economista à imprensa britânica, não deveria ser ignorado por quem pensa em apostar dinheiro com base nessa previsão. Nenhum modelo estatístico previu a eliminação da Alemanha na fase de grupos em 2018, quando a campeã caiu diante de Coreia do Sul. Nenhum algoritmo antecipou o Marrocos nas semifinais de 2022.

O futebol tem essa crueldade gentil de desmontar certezas no exato momento em que parecem mais sólidas. A Holanda sabe disso melhor do que ninguém — três finais perdidas são três lições sobre a distância entre ser o melhor e ser o campeão. Se o modelo de Klement estiver certo pela quarta vez consecutiva, os Países Baixos finalmente encerrarão 52 anos de espera pelo único título que ainda falta à sua história.