Interpretou. Essa é a palavra que resume a decisão mais controversa do clássico entre São Paulo e Corinthians no último domingo (11). Damián Bobadilla marcou o primeiro gol do Tricolor, dirigiu-se ao banco de reservas com as mãos próximas à genitália — sem encostar, segundo a arbitragem — e saiu de campo sem cartão vermelho. O que se seguiu foi um debate sobre os limites da interpretação no futebol profissional que a CBF, ao divulgar os áudios do VAR na noite de domingo, não encerrou. Apenas tornou mais evidente.
O clássico que gerou o lance e o contexto que o árbitro não viu em campo
O São Paulo venceu o primeiro tempo com o gol de Bobadilla, mas o Corinthians virou o jogo e triunfou por 3 a 2. Imediatamente após a comemoração do paraguaio, jogadores alvinegros cercaram o árbitro Anderson Daronco exigindo a expulsão. O pedido tinha fundamento regulamentar: a CBF prevê cartão vermelho direto para gestos obscenos, conforme o artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. O problema, como ficou evidente nos áudios, é que a linha entre gesto obsceno e comemoração exaltada depende de quem está olhando — e de qual câmera está sendo usada.
Daronco não viu o lance ao vivo. Foi acionado pelos jogadores do Corinthians e acionou o VAR, comandado por Rodolpho Toski Marques. A revisão levou cerca de dois minutos. Nesse tempo, a equipe de vídeo analisou o movimento de Bobadilla quadro a quadro e chegou a uma conclusão que dividiu opiniões: as mãos do volante se aproximaram da região genital, mas não encostaram.
O que Toski Marques e Daronco disseram nos áudios divulgados pela CBF
O diálogo completo, divulgado pela entidade, é mais revelador pela linguagem do que pelo desfecho. Toski Marques classificou o gesto como "interpretativo" — uma palavra que, no vocabulário da arbitragem, funciona como escudo e como alvo ao mesmo tempo.
"Não há clareza para uma situação de cartão vermelho aqui. Ele faz com as duas mãos, mas não chega a encostar nas partes genitais. Ele faz tipo um 'raça, vamos!'. Dá para interpretar, não tem contato nas genitais."
O assistente Helton Nunes reforçou a conclusão: "Ele não encosta no corpo dele." Toski Marques então pediu que Daronco avaliasse pessoalmente, reconhecendo que se tratava de "situação não vista no campo de jogo". O árbitro principal acatou a linha de raciocínio do VAR e adicionou um argumento cultural que gerou ainda mais discussão.
"A minha interpretação é de que ele não toca com as mãos em suas genitais. É uma comemoração de gol. Os jogadores dessa característica, principalmente os estrangeiros, comemoram muitas vezes como uma situação de 'raça', de 'vamos'."
O argumento cultural de Daronco é, no mínimo, arriscado. Criar uma categoria de tolerância baseada na nacionalidade do jogador abre precedente que a arbitragem brasileira não tem como sustentar de forma consistente. Se um brasileiro fizesse o mesmo gesto, o critério seria diferente? A pergunta não é retórica — é a que o Corinthians está fazendo, e com razão.
O precedente que o Corinthians invocou e o que os dados mostram
Marcelo Paz, executivo de futebol do Corinthians, foi direto ao ponto: relembrou os casos dos volantes Allan e André, ambos expulsos em jogos recentes por gestos obscenos. O paralelo é factual e incômodo para a CBF. Se dois jogadores foram punidos com cartão vermelho por ações similares — ou ao menos interpretadas como tais — a absolvição de Bobadilla exige uma distinção técnica clara, não apenas a ausência de contato físico com o próprio corpo.
A discussão remete a um problema estrutural que o futebol brasileiro arrasta desde os anos 1990, quando o CBJD começou a codificar punições para gestos obscenos sem definir com precisão o que constitui "obscenidade" em campo. Naquela época, árbitros decidiam na base do feeling, sem VAR e sem câmeras de alta definição. Hoje, com tecnologia suficiente para identificar se uma mão encostou ou não em determinada parte do corpo, o problema não é mais de visibilidade — é de critério. E critério, como os áudios deixaram claro, ainda é uma construção subjetiva.
O SportNavo identificou que, nos últimos três anos, ao menos quatro jogadores foram expulsos no Brasileirão por gestos classificados como obscenos — nenhum deles teve a absolvição baseada na ausência de contato físico com o próprio corpo como argumento central. Bobadilla é o primeiro caso documentado em que esse critério foi aplicado de forma explícita e gravada.
A discussão sobre o VAR e seus limites interpretativos não vai se resolver no tribunal da opinião pública. O Corinthians tem o caminho do STJD disponível, e a CBF terá de apresentar uma resposta mais técnica do que "dá para interpretar". O próximo clássico entre as equipes está marcado para o segundo turno do Campeonato Paulista — e Bobadilla, suspenso ou não por instâncias superiores, será o nome mais observado em campo. É o mesmo cenário que Renato Gaúcho viveu em 1994, quando um gesto seu no Maracanã gerou processo no STJD e só foi arquivado por falta de prova técnica — só que agora a aposta é diferente, porque as câmeras existem e os áudios são públicos.









