A última vez que o Nordeste brasileiro enviou um representante atuando por clube da região a uma Copa do Mundo foi... nunca. Em 96 edições do torneio que o Brasil disputou desde 1930, nenhum atleta vestindo a camisa de um clube nordestino foi convocado para o maior evento do futebol mundial. Luciano Juba, 26 anos, lateral-esquerdo do Bahia, está a uma lista de nomes de mudar esse fato.
O camisa 46 do Esquadrão de Aço aparece entre os 55 jogadores pré-convocados enviados por Carlo Ancelotti à Fifa para a Copa do Mundo de 2026. A lista final, com 26 nomes, será anunciada nesta segunda-feira, dia 18 de maio, às 17h (de Brasília), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O número que melhor sintetiza o momento de Juba é simples: 18. Dezoito gols marcados desde que chegou ao Bahia em agosto de 2023 — o suficiente para torná-lo o terceiro defensor com mais gols na história centenária do clube, atrás apenas de Florisvaldo (42) e Ávine (21).
Como 18 gols de um lateral reescrevem a história do Bahia
Quando Zico tinha 26 anos, já acumulava dois Campeonatos Brasileiros pelo Flamengo e era figura central da Seleção que chegaria à final da Copa de 1978. A comparação não é para equiparar trajetórias, mas para contextualizar o que significa, no futebol brasileiro, um jogador dessa idade carregar o peso de um clube inteiro nas costas. Juba carrega. Em 2026, com 8 gols e 3 assistências em 20 partidas pelo Brasileirão, é artilheiro do Bahia ao lado do atacante Willian José — e vice-líder em assistências no elenco. Três desses gols vieram nas últimas três partidas, incluindo um golaço no empate por 2 a 2 com o São Paulo, no dia 3 de maio.
O técnico Rogério Ceni não poupou elogios ao lateral após aquela partida.
"Acho que foi um dos grandes acertos em contratações do Bahia desde 2023. Acho ele com sérias possibilidades de poder estar na seleção brasileira", avaliou Ceni.
O que torna Juba singular dentro do esquema do Bahia é um perfil tático que o futebol sul-americano cultiva com naturalidade — o que para o argentino é o carrilero que sobe e arma, para o português é o lateral que "joga por dentro". Juba cumpre esse papel com rara consistência: quando o time tem a bola, posiciona-se quase como um armador; sem ela, recompõe a linha defensiva com disciplina. Em 149 jogos pelo Esquadrão, acumula 13 gols e 18 assistências — estatísticas que pertencem mais ao vocabulário de um meia do que de um defensor.
A convocação de novembro e o olhar atento de Ancelotti
A primeira convocação de Juba pela Seleção veio em novembro de 2025, para os amistosos contra Tunísia e Senegal. O lateral não entrou em campo em nenhuma das duas partidas, mas foi elogiado por Ancelotti — sinal de que o técnico italiano monitorava o jogador com atenção além do protocolo habitual. Em março de 2026, Juba voltou à pré-lista para os amistosos contra França e Croácia, mas não chegou a ser convocado para os jogos finais antes do Mundial.
A lesão de grau dois sofrida por Caio Henrique, do AS Monaco, abriu uma brecha concreta no setor. Com o jogador fora por cerca de um mês, o caminho para Juba ganhou contornos mais nítidos. A comissão técnica de Ancelotti enviou o gerente de seleções Cícero Souza e o analista Bruno Baquete à Arena Fonte Nova para observar Juba de perto no clássico Ba-Vi pela quinta rodada do Brasileirão — presença que o SportNavo apurou confirmar o interesse real da CBF no lateral baiano.
Juba falou com a imprensa na terça-feira, um dia após a lista de 55 nomes ser enviada à Fifa, com a serenidade de quem entende o tamanho do desafio.
"Quando você chega a esse ponto, está sendo cogitado para ir a uma Copa do Mundo. Isso é muito importante na carreira de um jogador. Você está representando o seu país ali, concorrendo com grandes nomes. Só de você estar no meio desses jogadores já é muito importante para a sua carreira", disse o lateral.
A concorrência na lateral e o que Juba ainda precisa provar
O mapa da concorrência é claro. Alex Sandro, com 44 jogos pela Seleção e presença nas Copas de 2018 e 2022, e Douglas Santos, que recusou a cidadania russa para aguardar a convocação brasileira, são os favoritos para as duas vagas de lateral-esquerdo. Kaiki Bruno, do Cruzeiro, chamado na última Data Fifa de março, aparece como terceira opção consolidada após ganhar minutos em campo — algo que Juba ainda não teve.
Esse é o dado que pesa contra o camisa 46 do Bahia: em sua única convocação, não jogou. Em nenhum dos dois amistosos. Para um técnico como Ancelotti, que privilegia a observação direta antes de grandes torneios, a ausência de minutos em campo pela Seleção é um argumento concreto para a exclusão.
O próprio Juba pareceu ter consciência disso ao falar com a imprensa, sem forçar um otimismo que os números não sustentam completamente.
"Creio que tenho que dar o meu máximo aqui dentro do clube para, quem sabe, ter essa oportunidade de ir para a Seleção mais uma vez", completou o lateral.
Ainda assim, a pré-lista é um reconhecimento concreto. Dos 55 nomes enviados à Fifa, Juba é o único representante de um clube nordestino — e, se confirmado, seria o primeiro jogador do Bahia em toda a história das Copas do Mundo. O clube foi fundado em 1931, disputou 13 edições do Campeonato Brasileiro e nunca viu um atleta com sua camisa defender o Brasil no torneio mais importante do planeta. Ancelotti anuncia a lista final nesta segunda-feira. O Bahia enfrenta o Remo pela Copa do Brasil nesta quarta-feira, e Juba sabe que cada gol até lá é um argumento a mais no dossiê que chega à mesa do técnico italiano.









