Quando o arremesso final de Oscar Schmidt cortou o ar do ginásio pela última vez, em 2003, poucos imaginavam que aquela trajetória havia sido construída sobre uma das maiores renúncias financeiras da história do esporte brasileiro. O 'Mão Santa', que morreu aos 68 anos nesta sexta-feira (17), em Santana do Parnaíba, deixou para trás não apenas 49.737 pontos marcados, mas também milhões de dólares que poderiam ter sido seus caso tivesse aceito o convite da NBA em 1984.
A decisão milionária que definiu uma carreira
Em 1984, o New Jersey Nets selecionou Oscar Schmidt no Draft da NBA, oferecendo-lhe um contrato que poderia tê-lo transformado no primeiro brasileiro a brilhar na maior liga de basquete do mundo. Na época, as regras da FIBA impediam que jogadores da liga americana defendessem suas seleções nacionais. A escolha foi categórica e reveladora do caráter do atleta gaúcho.
"Não ia trocar nunca a seleção brasileira por um time da NBA. Só faltava essa. Jogar na seleção se joga pelo país", declarou Oscar em entrevista ao podcast Ticaracatica em 2023.
O mercado americano da década de 1980 oferecia salários que variavam entre 200 mil e 2 milhões de dólares anuais para estrelas em ascensão. Michael Jordan, selecionado no mesmo Draft de 1984, assinou seu primeiro contrato com o Chicago Bulls por 550 mil dólares anuais, valor que hoje equivaleria a aproximadamente 1,6 milhão de dólares ajustados pela inflação.
O caminho europeu como alternativa lucrativa
Impossibilitado de jogar na NBA sem abrir mão da seleção brasileira, Oscar encontrou na Itália uma alternativa financeiramente atrativa. Durante 11 temporadas no basquete italiano, entre Juvecaserta e Pavia, o brasileiro acumulou 13.957 pontos e estabeleceu-se como o primeiro jogador a ultrapassar os 10 mil pontos no Campeonato Italiano.
Segundo apuração do SportNavo, os salários no basquete italiano da época variavam entre 300 mil e 800 mil dólares anuais para estrelas internacionais. Oscar chegou a bater o recorde de pontos em uma única partida, com 66 pontos, performance que certamente elevou seu valor de mercado no cenário europeu.
O ex-jogador Bogdan Tanjevic, técnico que o levou para o Juvecaserta em 1982, reconheceu publicamente o impacto financeiro e esportivo de Oscar no basquete italiano. A permanência na Europa permitiu que o brasileiro mantivesse sua elegibilidade para a seleção nacional, decisão que resultou em participações em cinco Olimpíadas consecutivas entre 1980 e 1996.
Fontes de renda além das quadras
Após a aposentadoria dos gramados em 2003, Oscar diversificou suas fontes de renda através de palestras motivacionais e participações em eventos corporativos. Como palestrante, chegou a cobrar entre 15 mil e 30 mil reais por apresentação, aproveitando seu carisma e experiência de superação para inspirar executivos e empresários.
"Sou um atleta de alto nível e, ainda assim, é enorme a dificuldade para conseguir um patrocinador para o meu time. Se é difícil para mim, dá para imaginar os obstáculos enfrentados por quem faz ciclismo, boxe ou polo aquático", revelou à revista Veja em 1998, demonstrando sua consciência sobre as limitações do mercado esportivo brasileiro.
A trajetória midiática de Oscar incluiu contratos de patrocínio com marcas esportivas e participações em campanhas publicitárias que complementaram sua renda durante a carreira ativa. Sua popularidade transcendia as quadras de basquete, tornando-o uma figura comercialmente atrativa para empresas que buscavam associar suas marcas ao sucesso e à determinação.
O valor incalculável de um legado
Em 1992, após os Jogos Olímpicos de Barcelona, quando as regras da FIBA já permitiam que jogadores da NBA defendessem suas seleções, Oscar novamente recusou propostas americanas. Desta vez, a justificativa foi diferente, mas igualmente reveladora de sua personalidade perfeccionista.
"Não fui porque não queria fazer vexame. Não quero fazer vexame em lugar nenhum", explicou ao programa Bola da Vez, demonstrando que sua preocupação com a excelência superava questões financeiras.
O reconhecimento internacional veio em 2013, quando Oscar foi introduzido no Hall da Fama do Basquete nos Estados Unidos, honraria que poucos brasileiros conquistaram. A FIBA o considerou um dos 50 maiores jogadores de todos os tempos, validação que transcende qualquer valor monetário.
O SportNavo calcula que, considerando salários, prêmios e oportunidades perdidas na NBA, Oscar pode ter aberto mão de aproximadamente 15 a 20 milhões de dólares ao longo de sua carreira. No entanto, sua escolha pelo Brasil resultou em conquistas que nenhum dinheiro poderia comprar: o ouro no Pan-Americano de 1987, com vitória histórica sobre os Estados Unidos por 120 a 115, e o status de maior pontuador da história dos Jogos Olímpicos com 1.093 pontos.
O velório de Oscar Schmidt será restrito a familiares e amigos próximos, conforme desejo da família, que pediu privacidade neste momento de luto. Ele deixa a esposa Maria Cristina, com quem foi casado desde 1981, e os filhos Felipe e Stephanie, além de um legado que demonstra como algumas decisões na vida valem mais que qualquer quantia em dinheiro.

