Diz-se, com frequência, que jogadores acima de 35 anos chegam aos grandes clubes para fechar carreira com dignidade — para colher aplausos, fazer marketing e ocupar espaço no vestiário. Os números de Hulk no Atlético-MG contradizem esse axioma com brutalidade. Entre 2021 e 2025, o atacante foi artilheiro do clube em múltiplas temporadas, acumulou mais de 80 gols com a camisa alvinegra e manteve médias de participação em gols que rivalizaram com jogadores dez anos mais novos. Então, quando o Fluminense o apresenta à torcida no Maracanã antes de uma vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo, pela 16ª rodada do Brasileirão, a pergunta correta não é "ele ainda consegue jogar?" — mas sim "em qual função ele vai ser decisivo?"

O jogo 2000 no Maracanã e o atacante que virou personagem da noite

Havia uma coincidência histórica carregada de simbolismo neste sábado, 16 de maio: o Fluminense completou exatamente 2000 jogos disputados no Maracanã. Desde o empate em 0 a 0 contra o Olaria, em 30 de julho de 1950, o clube carioca acumulou 990 vitórias, 512 empates e 497 derrotas no estádio, com 3.222 gols marcados e 2.062 sofridos em 15 competições diferentes. Ao longo desses 76 anos de presença no Maracanã — dentro de 124 de existência —, o Flu levantou 36 troféus naquela grama, incluindo a Libertadores de 2023 e a Recopa Sul-Americana de 2024. Num cenário assim, a apresentação de Hulk ganhou dimensão extra: o atacante de 39 anos não foi apenas contratado, foi convocado para integrar uma narrativa que tem peso real de décadas.

Os gols do triunfo sobre o São Paulo vieram de John Kennedy e de Canobbio, ambos no primeiro tempo, numa etapa em que o Fluminense foi agressivo e forçou erros defensivos do adversário. O zagueiro Dória descontou para os paulistas na segunda etapa, quando o São Paulo cresceu no jogo, mas sem converter pressão em empate. Lucho Acosta, meia argentino que voltou de lesão e tem sido o principal criador do time, novamente se destacou como peça central do esquema tricolor.

O que Hulk encontra num Fluminense diferente do Atlético que ele deixou

A comparação com uma orquestra sinfônica talvez seja mais precisa do que parece: o maestro muda, o repertório muda, mas o primeiro violinista experiente continua sendo capaz de adaptar sua leitura à nova partitura. No Atlético-MG, Hulk operava como referência central, com liberdade para recuar, construir e finalizar. No Fluminense de Luis Zubeldía — que tem em Canobbio e Savarino jogadores de força pelas pontas —, a tendência é que o atacante seja usado de forma mais posicional, como pivô que retém a bola e libera os meias. O SportNavo apurou que a comissão técnica tricolor já havia mapeado esse perfil antes de fechar o contrato.

A questão física é real, mas não nova. Hulk nunca escondeu que seu regime de preparação é obsessivo — treinamentos individuais prolongados, dieta rigorosa e recuperação monitorada. Aos 39 anos, isso não muda o fato de que seu ritmo de jogo tende a ser gerenciado: dificilmente ele disputará 90 minutos três vezes por semana em sequências longas. A inteligência do uso será responsabilidade de Zubeldía, que já demonstrou capacidade de rodar elenco ao equilibrar Libertadores, Brasileirão e Sul-Americana com o São Paulo nos anos anteriores.

O São Paulo que perdeu mais do que três pontos neste sábado

Do outro lado do campo, a situação é de crise real. O São Paulo chegou a seis jogos consecutivos sem vencer na temporada — três pelo Brasileirão, dois pela Sul-Americana e um pela Copa do Brasil, competição da qual foi eliminado pelo Juventude na quarta-feira (13). Milton Cruz, auxiliar técnico que comandou a equipe neste sábado enquanto Dorival Júnior ainda não havia assumido oficialmente, revelou em coletiva que problemas de elenco condicionaram a escalação: Alan, Toloi e Pablo Maia não puderam jogar, e a formação com três zagueiros foi descartada por falta de opções.

"Tem sido dias difíceis para nós. Estamos trabalhando e sabemos da importância dos resultados. Estamos vivendo um momento muito parecido com o do ano passado, com uma eliminação na Copa do Brasil, a perda de jogadores importantes que dificulta ainda mais. Com isso, os resultados não vêm e a gente vai perdendo a confiança", disse o goleiro Rafael ao canal Premiere.

Rafael, uma das lideranças do elenco, depositou expectativa explícita no retorno de Dorival Júnior — que estará em sua terceira passagem pelo clube.

"Espero que agora, com a chegada do Dorival, ele traga essa confiança, essa tranquilidade para nós. Temos quatro jogos muito importantes. Precisamos nos classificar na Sul-Americana e temos mais dois jogos do Brasileirão antes da Copa", completou o goleiro.

Milton Cruz, por sua vez, reconheceu que o São Paulo suportou razoavelmente bem a pressão tricolor, mas admitiu que falhas individuais custaram o resultado: "Não é fácil vir no Maracanã, acho que tivemos uma posse de bola que igualamos o Fluminense. Foi uma estratégia boa, pena que nos gols erramos", afirmou o auxiliar. O clube paulista permanece na zona de classificação para a Libertadores, mas a margem está diminuindo com o passar das rodadas.

Para o Fluminense, a vitória tem peso duplo: retoma a sequência positiva no Brasileirão e alimenta o ambiente de confiança em torno de uma contratação que custou caro — não apenas em salário, mas em expectativa. Paulo Henrique Ganso, o atleta do elenco atual com mais jogos no Maracanã (172 partidas), agora divide esse palco histórico com um jogador que chegou precisamente para ampliar o alcance ofensivo do time. Na terça-feira (19), o Fluminense recebe o Bolívar pela Libertadores no Maracanã — e aí a pergunta que fica é concreta: Hulk estará em campo desde o início contra os bolivianos, ou Zubeldía vai preservá-lo para o Brasileirão e usá-lo como trunfo tático na reta final?