Três coisas: nostalgia, mercado e poder. Tudo sobre a saída da Panini se explica daí.
A Copa do Mundo de 2026, que começa em 11 de junho com o jogo entre México e África do Sul no Estádio Azteca, será a primeira disputada por 48 seleções — um salto de 50% em relação ao formato de 32 equipes vigente desde 1998. São 104 partidas ao todo, distribuídas por 16 cidades-sede nos Estados Unidos, México e Canadá. Para uma socióloga que analisa o esporte como fenômeno de massa, esse número importa menos pelo que acrescenta ao campo e mais pelo que revela sobre a lógica econômica que governa o futebol global contemporâneo.
Cinquenta e seis anos de figurinhas e o rito de passagem que a Panini construiu
A parceria entre a empresa italiana Panini e a FIFA teve início em 1970, o mesmo ano em que a seleção brasileira conquistou o tricampeonato no México. Durante mais de cinco décadas, o álbum de figurinhas funcionou como uma espécie de etnografia popular do futebol mundial: crianças aprendiam a pronunciar nomes de países que nunca tinham ouvido, identificavam uniformes de culturas distantes, negociavam repetidas em frente às escolas. Pesquisas de comportamento do consumidor realizadas em mercados como Brasil, Argentina e Itália consistentemente apontam o álbum como o primeiro contato afetivo de gerações inteiras com a Copa do Mundo — antes da televisão, antes do rádio, antes de qualquer cobertura jornalística.
A Panini ainda será responsável pelos álbuns das edições de 2026 e 2030 — esta última marcando o centenário do torneio, com jogos previstos em três continentes. Ou seja, a empresa italiana encerra sua trajetória com dois capítulos historicamente carregados de simbolismo, o que torna a transição ainda mais eloquente sobre como a FIFA enxerga o futuro do negócio dos colecionáveis.
O acordo com a Fanatics e os US$ 150 milhões que definem a nova lógica dos colecionáveis
A FIFA anunciou um acordo com a Fanatics Collectibles que entra em vigor a partir de 2031, transferindo para a empresa norte-americana a responsabilidade por todos os itens colecionáveis ligados às competições da entidade — incluindo o álbum do Mundial de 2034, que será disputado na Arábia Saudita. O contrato prevê a distribuição gratuita de mais de US$ 150 milhões em produtos colecionáveis, valor que supera o PIB anual de pelo menos 12 países membros da própria FIFA, segundo dados do Banco Mundial de 2024.
"A Fanatics está promovendo uma enorme inovação em itens esportivos colecionáveis, o que oferece aos fãs uma forma nova e significativa de se conectar com seus times e jogadores favoritos. Do ponto de vista da Fifa, podemos globalizar esse engajamento justamente graças ao nosso portfólio global de torneios", afirmou Gianni Infantino, presidente da entidade.
A fala de Infantino é reveladora de uma estratégia que transcende o futebol. A Fanatics já mantém parcerias com NBA, NFL, MLS, MLB e WWE nos Estados Unidos — um portfólio que a posiciona não como uma empresa de figurinhas, mas como uma plataforma de engajamento de fãs em escala industrial. A escolha de uma empresa com esse perfil não é casual: acontece justamente quando a Copa do Mundo se expande para 48 seleções e quando o torneio de 2026 será sediado no maior mercado consumidor de entretenimento esportivo do planeta.
O modelo de negócio da Fanatics incorpora componentes digitais — NFTs, colecionáveis físicos com QR codes, integrações com plataformas de streaming — que a Panini, empresa fundada em Módena em 1961, nunca conseguiu escalar com a mesma velocidade. A Copa de 2026, com suas 104 partidas e um público estimado de 5 bilhões de espectadores globais em direitos de transmissão, é o laboratório ideal para testar esse modelo antes da estreia oficial em 2034.
O que muda para colecionadores e o mercado secundário de figurinhas no Brasil
O Brasil é o maior mercado individual de álbuns da Panini fora da Europa. Estudos do setor varejista brasileiro indicam que, a cada Copa do Mundo, o país movimenta entre R$ 800 milhões e R$ 1,2 bilhão no mercado de figurinhas — incluindo o segmento secundário de trocas e vendas entre colecionadores, que cresceu exponencialmente com plataformas digitais após 2014. A figurinha avulsa rara chegou a ser negociada por valores acima de R$ 500 na Copa do Qatar em 2022, segundo levantamentos de grupos especializados no Mercado Livre.
A transição para a Fanatics levanta questões concretas que ainda não foram respondidas publicamente. O modelo de distribuição será o mesmo? Os pontos de venda tradicionais — bancas de jornal, papelarias, supermercados — continuarão sendo o canal principal, ou a empresa apostará em uma lógica de assinatura digital? Para os colecionadores que hoje frequentam feiras físicas de troca em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a resposta importa tanto quanto o conteúdo do produto.
A expansão para 48 seleções também aumenta o volume de figurinhas necessárias para completar um álbum. No formato de 32 seleções da Copa de 2022, estimativas independentes apontavam a necessidade de adquirir entre 800 e 1.000 pacotes para completar o álbum sem trocas — um custo médio superior a R$ 1.000 para uma família brasileira de classe média. Com 48 seleções e mais atletas por delegação, esse número tende a crescer proporcionalmente, o que torna o produto simultaneamente mais inclusivo geograficamente e mais exclusivo economicamente para o consumidor de base.
Há ainda uma dimensão patrimonial que merece atenção. Álbuns completos da Panini das Copas de 1970, 1974 e 1978 são negociados hoje por valores entre US$ 2.000 e US$ 15.000 em leilões especializados. O mercado de colecionáveis históricos da Panini forma um segmento próprio, com avaliações que rivalizam com obras de arte popular. A Fanatics herda essa cultura de valorização, mas ainda não demonstrou capacidade de gerar o mesmo tipo de patrimônio afetivo intergeracional que a empresa italiana construiu em seis décadas.
O álbum da Copa do Mundo de 2030 — último sob responsabilidade da Panini, comemorativo do centenário do torneio — já está em planejamento. Será, provavelmente, o mais elaborado da história da empresa italiana, e o mercado de colecionadores já o trata como peça de interesse histórico antes mesmo de ser lançado. Três coisas definirão seu legado: nostalgia, mercado e poder — e agora sabemos quem ficou com duas delas.











