Quem substitui Neymar quando o Brasil mais precisar — e o adversário ainda não é dos mais temidos? A pergunta que os 70 mil torcedores do Maracanã carregavam na cabeça neste domingo, 31 de maio, ganhou ao menos duas respostas parciais depois que a Seleção goleou o Panamá por 6 a 2 no último amistoso em solo brasileiro antes da Copa do Mundo. Mas respostas parciais, num torneio que começa em 13 de junho, custam caro.

A história da Seleção conhece bem esse dilema. Em 1970, Tostão entrou no lugar de Pelé em dois jogos da fase de grupos — e o Brasil não perdeu nenhum. Em 1994, quando Romário ficou em dúvida até a véspera da final por dores musculares, Mazinho e Mauro Silva cobriram o espaço criativo no meio sem que a equipe desmoronasse. O paralelo não é perfeito, mas aponta para uma lição constante: seleções campeãs sobrevivem às ausências quando o coletivo tem identidade tática definida. O problema de Ancelotti é que, contra o Haiti em 19 de junho, o Brasil ainda está construindo essa identidade.

O que a goleada sobre o Panamá deixou de pista tática Paquetá como falso 9 ou Ig
O que a goleada sobre o Panamá deixou de pista tática Paquetá como falso 9 ou Ig

Neymar sofreu uma lesão grau 2 na panturrilha direita em partida do Santos contra o Coritiba, em 17 de maio, e não participou de nenhum treino com bola na Granja Comary. Ancelotti foi direto ao ponto na coletiva deste sábado, 30: "Talvez não para o primeiro jogo, mas acreditamos que poderá se recuperar para a segunda partida". O segundo jogo do Grupo C é justamente contra o Haiti, em 19 de junho. Se o prazo de duas a três semanas se confirmar, Neymar pode estar disponível — mas o primeiro compromisso, contra Marrocos em 13 de junho, ficará de fora.

O que a goleada sobre o Panamá deixou de pista tática

Ancelotti usou o amistoso como laboratório e promoveu mudanças praticamente completas no intervalo, expondo dois times distintos com a mesma proposta ofensiva. No primeiro tempo, Vinicius Júnior abriu o placar aos 59 segundos com um chute de fora da área no ângulo — gol que arrancou destaque do jornal francês L'Équipe — antes de o Panamá empatar pelo gol de Michael Murillo e criar um momento de silêncio no estádio. Casemiro recolocou o Brasil à frente ainda na etapa inicial.

Na segunda etapa, com o elenco alternativo, o placar explodiu: Rayan, Lucas Paquetá, Igor Thiago — de pênalti — e Danilo Santos completaram o 6 a 2, com Carlos Harvey descontando nos minutos finais. Paquetá atuou numa posição interior, próxima à área adversária, enquanto Igor Thiago funcionou como referência central. As duas experiências têm implicações diretas para a Copa: Ancelotti já sinalizou que Neymar jogará "por dentro do campo, como ponta ou meia-ponta — é a posição que hoje jogaram Vinicius e Raphinha". Ou seja, quando o camisa 10 do Santos estiver disponível, alguém do grupo atual perde espaço.

As opções concretas para o jogo contra Marrocos

  • Paquetá como falso 9: o meia do Flamengo mostrou mobilidade e senso de finalização ao marcar na segunda etapa, mas sacrifica a presença física na área.
  • Igor Thiago como centroavante titular: o atacante converteu seu pênalti com frieza e oferece referência aérea que o Brasil não tem com os extremos puros.
  • Esquema sem centroavante fixo: Vinicius e Raphinha como pontas com Paquetá e Rodrygo — quando este se recuperar — no eixo central, numa variação do 4-2-3-1 que Ancelotti já utilizou no Real Madrid.

A tese da responsabilidade coletiva e o que ela esconde

Ancelotti foi explícito na coletiva de véspera ao contextualizar a ausência de uma estrela individual: "Às vezes, falamos muito que o Brasil não tem uma estrela. Pode ser verdade, não temos Pelé, Romário e Ronaldo, mas podemos ter uma responsabilidade compartilhada." A frase é pedagogicamente correta e historicamente respaldada — a Seleção de 1994 não tinha um único protagonista absoluto, e o Brasil de 2002 funcionava em trios rotativos. Mas há uma distinção que o discurso coletivo tende a suavizar: Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 jogos, e qualquer substituição implica uma queda objetiva de produção ofensiva nos primeiros minutos que estiver fora.

Vinicius Júnior, autor do primeiro gol contra o Panamá e responsável por uma assistência, reforçou a narrativa do grupo após o apito final: "Neymar é nosso ídolo, todo mundo está muito feliz de poder jogar com ele. É uma geração muito nova, na qual ele é o ídolo de todos." A declaração do camisa 7 revela algo que os dados táticos não capturam: o peso simbólico de Neymar dentro do vestiário. Sua presença — mesmo em recuperação — altera o comportamento do grupo.

A imprensa internacional captou a ambiguidade do momento. O argentino Olé publicou que "sem Neymar, o Brasil goleou o Panamá" com um sublinhado implícito de que a ausência não foi determinante. Já o espanhol Diario AS alertou que "o Brasil deixou de intimidar" no intervalo em que o placar estava 1 a 1, sugerindo que a solidez da equipe titular ainda tem lacunas a preencher.

O que muda quando Neymar voltar — e o que não muda

A síntese mais honesta do amistoso contra o Panamá é esta: o Brasil tem qualidade ofensiva suficiente para vencer jogos sem Neymar, mas ainda não tem clareza sobre quem ocupa o espaço criativo que ele gera entre as linhas. Paquetá e Igor Thiago não são substitutos equivalentes — são perfis diferentes que exigem adaptações táticas distintas. Ancelotti, veterano de cinco títulos da Champions League, sabe disso melhor do que ninguém, e não por acaso preferiu criar "um pouco de suspense" ao ser questionado sobre escalações após o jogo.

O técnico italiano cortou Éder Militão, Rodrygo e Estêvão por lesão antes da Copa, absorveu a chegada tardia de Gabriel Magalhães, Martinelli e Marquinhos — finalistas da Champions pelo Arsenal e PSG — e ainda gerencia o caso Neymar. Nenhum desses imprevistos é novo no universo de grandes torneios. O que diferencia um técnico de alto nível é a capacidade de transformar contingência em escolha. O amistoso contra o Egito, em Cleveland no dia 6 de junho, será a última oportunidade de Ancelotti converter o laboratório do Maracanã em certeza antes da estreia.

Quem substitui Neymar quando o Brasil mais precisar — e o adversário ainda não é dos mais temidos? Depois de 6 a 2 sobre o Panamá e das declarações desta semana na Granja Comary, a pergunta continua aberta, mas agora tem candidatos com nome e número na camisa.