A estatística estava ali, quieta, esperando alguém perguntar. Quando Priscila Pedrita revelou que nocauteou todas as adversárias canhotas que enfrentou ao longo da carreira, a frase não soou como fanfarronice — soou como um dado técnico que merece ser levado a sério. E é exatamente isso que vou fazer aqui, antes do UFC Vegas 118, neste sábado (6).
A estatística que Chandler precisa temer
Cem por cento de nocautes contra canhotas. Não é uma amostra gigante, mas é uma amostra consistente — e consistência, no MMA, vale mais do que volume quando o padrão se repete com qualidade. A própria Pedrita foi direta ao ser questionada sobre o confronto com Chelsea Chandler:
"Gosto de lutar com canhoto. Eu vejo mais abertura para o meu jogo em quem é canhoto. Na verdade, todas as lutas que eu lutei contra canhoto eu nocauteei, então quem sabe é o caminho para a próxima vitória."
O que explica esse padrão? A resposta está na geometria do striking. Quando uma ortodoxa enfrenta uma canhota, o jab de ambas aponta para o mesmo lado — o lado direito da adversária. Isso cria um corredor natural para o cruzado de direita da ortodoxa, que viaja em trajetória diagonal justamente para o queixo exposto da canhota. Pedrita, que tem base sólida no boxe, parece explorar esse ângulo com eficiência acima da média. Não é sorte. É geometria repetida com intenção.
Chandler, americana de 31 anos, tem base canhota consolidada e um estilo que mistura pressão constante com trocação em curta distância. O reach dela é de aproximadamente 165 cm — dado que coloca Pedrita em posição de trabalhar no range médio sem grande desvantagem de alcance. A questão é: Chandler vai conseguir ditar o ritmo antes de entrar no ângulo favorito da brasileira?
O momento de Pedrita dentro do UFC
Seria desonesto analisar esse confronto sem olhar para o momento da atleta. Pedrita vem de duas derrotas consecutivas e acumula um triunfo e quatro reveses nas últimas cinco lutas na organização. O número é ruim. Mas o contexto importa.
A paulista — que na verdade construiu carreira no Rio de Janeiro — entrou no UFC ainda muito crua, como ela mesma reconhece. Levou três derrotas seguidas no início, incluindo uma contra Valentina Shevchenko que deixou marcas psicológicas profundas. A reconstrução foi lenta e custou caro em termos de resultado no octógono.
"Quando entrei no UFC, eu obtive três derrotas consecutivas e eu tive que aprender a lidar com isso psicologicamente. No início foi muito difícil, que foi aquela contra a Valentina, né? Eu demorei muito para me reconstruir mentalmente. Mas com muito esforço, muito trabalho psicológico, muitas terapias, eu consegui voltar. Eu entrei no UFC muito crua, como eu sempre digo, eu entrei no UFC eu era uma faixa branca."
Essa autoconsciência é, paradoxalmente, um sinal positivo. Atletas que conseguem mapear suas próprias falhas com precisão tendem a corrigir rotas com mais eficiência do que os que atribuem derrotas a fatores externos. A questão é se a correção já chegou a tempo para o UFC Vegas 118.
A preparação sem Amanda Nunes e o caminho até Belém
O camp deste ciclo teve uma virada inesperada. Pedrita havia planejado treinar nos Estados Unidos ao lado de Amanda Nunes, como fez no compromisso anterior — uma parceria que obviamente agrega qualidade técnica e experiência de alto nível. Mas a ex-campeã dupla do UFC teve compromissos com as filhas e não pôde participar do camp.
A solução encontrada por Pedrita foi ir a Belém, no Pará, treinar com a equipe de Deiveson Figueiredo, ex-campeão peso-mosca do UFC. A escolha não é aleatória — Figueiredo tem um dos camps mais estruturados do Brasil para MMA de alto nível, com parceiros de qualidade e uma cultura de treino que já formou um campeão mundial.
"A Amanda teve contratempos. Ela não ia poder estar aqui, ela teve compromissos com as filhas dela. E como já estava no Brasil, eu falei: 'Neguinha, relaxa, fica tranquila e eu vou fazer por aqui mesmo'. Eu preferi ir lá em Belém treinar com a equipe do Deiveson."
A mudança de planos poderia ser lida como um revés, mas a adaptação rápida e a escolha de um camp de qualidade comprovada sugere maturidade de gestão de carreira. Treinar com a equipe de um ex-campeão do UFC no Brasil pode ser tão produtivo quanto uma temporada nos EUA, dependendo do planejamento técnico.
O que uma vitória representa para o futuro de Pedrita no peso-galo
A matemática da situação é simples e brutal: com mais uma derrota, Pedrita entra em território de corte. O UFC tem tolerância limitada para atletas com sequências negativas prolongadas, especialmente em divisões competitivas como o peso-galo feminino (61 kg), onde a profundidade do roster é considerável.
Uma vitória por nocaute — especialmente contra uma canhota, o que confirmaria o padrão histórico — reposiciona Pedrita de forma imediata. Nocautes têm peso desproporcional na percepção da cúpula do UFC e abrem portas para confrontos mais relevantes. O peso-galo feminino está em transição após o ciclo dominado por Amanda Nunes, e há espaço para atletas que consigam encadear resultados positivos.
A análise técnica aponta para uma luta que vai para o striking, onde Pedrita tem vantagem histórica específica contra a postura de Chandler. A wrestling defense de ambas não é o ponto forte do confronto — o que favorece que a luta fique em pé, exatamente onde a estatística de 100% de nocautes contra canhotas tem mais chance de se manter. O UFC Vegas 118 começa neste sábado (6), com o card principal previsto para as 19h no horário de Brasília — Pedrita sabe que tem um dado histórico do seu lado, mas Chandler ainda precisa ser convencida disso dentro do octógono.









