O lobby já estava em curso quando a CBF divulgou a notícia que mudou o enquadramento de tudo: Carlo Ancelotti não é mais o técnico da Copa de 2026 — é o técnico do Brasil até julho de 2030. A renovação, anunciada nesta quinta-feira (14), quatro dias antes da lista final, transforma a convocação de segunda-feira em algo maior do que um grupo de 26 nomes. Ela inaugura um ciclo. E Neymar está no centro da primeira decisão simbólica desse ciclo.
A renovação que blindou Ancelotti e ampliou a pressão
O contrato anterior de Ancelotti encerrava com o apito final da Copa do Mundo de 2026. Com a extensão até o Mundial de 2030 — que terá sedes em Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Uruguai e Paraguai —, a CBF fez o que, na avaliação do SportNavo, nunca havia feito antes de uma Copa: garantiu o futuro independentemente do resultado. Em um ano à frente da seleção, o italiano acumula dez partidas, cinco vitórias, dois empates e três derrotas, aproveitamento de 56,6% — número modesto para o padrão histórico verde-amarelo, mas que a confederação considerou suficiente para comprometer R$ 4 anos adicionais de salário.
"Há um ano cheguei ao Brasil. Desde o primeiro minuto, entendi o que o futebol significa para este país. Estamos trabalhando para levar a Seleção Brasileira de volta ao topo do mundo. Mas a CBF e eu queremos mais. Mais vitórias, mais tempo, mais trabalho", disse Ancelotti em depoimento gravado pela CBF.
O presidente Samir Xaud complementou que a renovação representa "mais um passo firme do compromisso de oferecer à Seleção pentacampeã do mundo uma estrutura cada vez mais forte, moderna e competitiva". A linguagem institucional, no entanto, não apaga a aritmética: em dez jogos, o Brasil marcou 18 gols e sofreu oito — média de 1,8 por partida, índice inferior ao registrado em qualquer das cinco campanhas vitoriosas em Copas do Mundo, onde a média de gols pró variou entre 2,3 em 1994 e 3,7 em 1970.
O peso de quem levantou a taça ao defender Neymar
Foi justamente nesta quinta-feira, enquanto a CBF formalizava a renovação, que Denílson — integrante do elenco pentacampeão de 2002, com 71 jogos pela seleção e presença nos Mundiais de 1998 e 2002 — usou palavras que raramente saem da boca de ex-atletas com este currículo sobre um contemporâneo em declínio de forma.
"O Neymar é um extra-classe, ele pode não estar vivendo o seu melhor momento, e mesmo assim continua sendo o melhor dos jogadores que a gente tem lá na Seleção Brasileira", afirmou Denílson ao Terra. Perguntado se convocaria o camisa 10, foi direto: "Muito, pra ontem".
O ex-meia lembrou ainda que "a grande maioria dos jogadores que representam a Seleção Brasileira nesse atual momento querem ter o Neymar", interpretando o fenômeno não como falta de personalidade do elenco, mas como reconhecimento legítimo de hierarquia técnica. O argumento histórico tem respaldo em números: nas três Copas em que Neymar defendeu o Brasil — 2010, 2014 e 2022 — ele somou 12 gols em 19 partidas, tornando-se o maior artilheiro verde-amarelo em Mundiais, superando Ronaldo Fenômeno (15 gols, mas em quatro edições) em termos de eficiência por torneio. Em 2014, seus quatro gols em quatro jogos antes da lesão contra a Colômbia sustentaram sozinhos a campanha até as semifinais.
O critério de Ancelotti e o que ainda falta resolver
O próprio técnico demarcou a fronteira com precisão cirúrgica em entrevista ao The Guardian na quarta-feira (13). Neymar está na pré-lista de 55 jogadores enviada à Fifa, mas a vaga definitiva depende de uma única variável:
"A convocação de Neymar depende apenas dele. Com a maioria dos jogadores, é preciso avaliar o talento e a condição física. Com Neymar, precisamos avaliar apenas a condição física, porque seu talento é indiscutível. Depende dele, não de mim", declarou Ancelotti.
A frase é, ao mesmo tempo, um elogio e uma sentença. Ancelotti não discute o nível técnico do atacante do Santos — questiona apenas se o corpo de 34 anos aguenta 90 minutos em ritmo de Copa do Mundo. Denílson antecipou o contra-argumento: "A questão de ter um cara que sabe que você pode contar com ele, pode ser importante dentro do elenco, de um determinado jogo, uma bola parada, assistência. A gente não pode abrir mão de um jogador que tem tanta história e qualidade." O raciocínio ressoa na memória de Ronaldo em 2002 — convocado sob dúvida física severa após dois anos de lesões graves, artilheiro do torneio com oito gols.
A resposta de Ancelotti chega na segunda-feira (18), às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Neymar tem 34 anos e, se convocado, disputaria sua quarta Copa do Mundo — feito que, na história da seleção, só Pelé (1958, 1962, 1966 e 1970) e Cafu (1994, 1998, 2002 e 2006) alcançaram. O aproveitamento de 56,6% de Ancelotti em dez jogos é o dado que a CBF decidiu apostar por quatro anos. O de Neymar em Mundiais é 73,7% — treze vitórias, duas derrotas e quatro empates em dezenove partidas.









