Confesso: em 2022, eu estava convicto de que o Brasil chegaria, no mínimo, à semifinal. Tinha os argumentos históricos, o elenco mais talentoso em anos, e um técnico que já havia vencido o mundo com a Alemanha. Quando Marquinhos desperdiçou o pênalti contra a Croácia, percebi que minha análise havia ignorado exatamente o que os modelos estatísticos capturam melhor do que qualquer observador humano: consistência ao longo do tempo, não picos de talento. Hoje, ao ver a Seleção Brasileira na sexta posição do ranking da Opta Analyst — com meros 6,23% de chances de título — entendo por que errei, e por que os números provavelmente estão certos desta vez.

O que faz da Espanha a favorita mais sólida desde a Alemanha de 2014

Dois estudos independentes chegaram à mesma conclusão com metodologias distintas. A Opta Analyst, referência global em estatísticas esportivas, rodou milhares de simulações e posicionou a Espanha no topo com 15,81% de probabilidade de título. O modelo da Escola de Matemática Aplicada da FGV, que utiliza inferência bayesiana aplicada a 2.997 confrontos entre 187 seleções nos últimos quatro anos, chegou a 15,57% para a mesma seleção. A margem de diferença entre os dois estudos é menor do que a margem de erro — o que, em estatística, é quase um consenso.

O professor Moacyr Alvim Silva, coordenador do estudo da FGV EMAp, explica a lógica por trás dos números:

"Nosso modelo é bastante competitivo. Em edições anteriores da Copa, conseguimos vencer um bolão de estatísticos, superando grupos que utilizavam modelos muito mais sofisticados."
O mestrando Ezequiel de Braga Santos, um dos responsáveis pelo projeto, complementa:
"A gente leva em conta a defesa do adversário e o ataque dele também. Então as probabilidades variam dependendo do jogo."

A Espanha de Luís de la Fuente não é apenas a atual campeã da Eurocopa 2024 — ela representa a continuidade de um projeto geracional que não sofreu ruptura. Lamine Yamal, com 17 anos, já acumula estatísticas comparáveis às de Messi no Barcelona aos 19. Pedri, Gavi, Fermín López e Rodri formam um meio-campo que, em termos de posse e progressão de bola, lembra o Barcelona de Guardiola entre 2009 e 2011 — o time que redefiniu o futebol europeu por uma década. Aquela equipe catalana chegou a registrar médias de 72% de posse em partidas da Champions League, e a Espanha atual orbita números semelhantes em competições oficiais.

A distância entre Brasil e Argentina revela um problema estrutural, não pontual

A Copa do Mundo começa em 11 de junho, e o Brasil de Carlo Ancelotti chega com 6,23% de chances segundo a Opta — atrás de Espanha (15,81%), França (12,95%), Inglaterra (11,06%), Argentina (10,46%) e Portugal (6,89%). O modelo da FGV é ainda mais severo: coloca o Brasil na nona posição, com 4,68%, atrás inclusive de Colômbia (5,56%), Marrocos (4,90%) e Portugal (4,86%). Países que jamais venceram uma Copa do Mundo aparecem à frente da seleção mais vencedora da história do torneio.

Esse não é um acidente de percurso. Pense no que aconteceu com o tênis nos anos 2000: Roger Federer dominou o ranking por tanto tempo que os algoritmos de previsão simplesmente paravam de funcionar para os demais competidores — mas quando Nadal e Djokovic chegaram com consistência superior em superfícies específicas, os modelos rapidamente os reconheceram como ameaças reais. O Brasil vive o equivalente: foi tão dominante entre 1994 e 2002 que o imaginário coletivo ainda o processa como favorito permanente, mas os dados dos últimos quatro anos — eliminação nas quartas em 2022, desempenho irregular nas Eliminatórias — contam outra história.

A Argentina, ao contrário, aparece na quarta posição com 10,46% na Opta e em segundo lugar com 13,62% no modelo da FGV. O título de 2022 no Qatar não é apenas um dado emocional — ele alimenta os algoritmos com resultados concretos em competições de alto nível. Lionel Scaloni construiu uma equipe que venceu a Copa América de 2021, a Finalíssima de 2022 e o Mundial de 2022 em sequência. Nenhum treinador sul-americano havia feito isso desde Carlos Bilardo nos anos 80.

O que os modelos erram e o que isso muda para o Brasil

Os supercomputadores têm histórico misto. Em 2022, a Opta apontou o Brasil como favorito com 16% de chances — e a seleção caiu nas quartas. A Argentina, segunda colocada no ranking daquele ano, levou o título. Mais recentemente, o mesmo sistema previu o Liverpool como campeão inglês na temporada 2025/2026, mas os Reds terminaram apenas na quinta posição da Premier League. Por outro lado, o modelo acertou o título do Chelsea sobre o PSG no último Mundial de Clubes, com o clube inglês sendo indicado como favorito antes do torneio.

O padrão que emerge é claro: os modelos capturam tendências estruturais com precisão razoável, mas subestimam variáveis de curto prazo — lesões, forma física no momento do torneio, o peso psicológico de uma final. Em 1982, a Itália chegou à Copa com apenas três vitórias na fase de grupos e terminou campeã. Em 2002, o Brasil de Ronaldo era o nono colocado no ranking FIFA antes do torneio e levantou a taça. A história das Copas é uma coleção de exceções — mas exceções que, por definição, os modelos não conseguem prever com antecedência.

Para o Brasil superar os 6,23% da Opta e os 4,68% da FGV, precisará que Ancelotti resolva antes de 11 de junho o que ainda está em aberto: a posição de Neymar no esquema, a fragilidade defensiva que custou gols desnecessários nas Eliminatórias e a dependência excessiva de Vinicius Jr. como válvula de escape ofensiva. São variáveis que os modelos já computaram — e que explicam, numericamente, por que a distância para a Espanha é de quase dez pontos percentuais.

Lamine Yamal aquecendo para a estreia da Espanha no dia 15 de junho, com 17 anos e o peso de ser o favorito número um do planeta sobre os ombros — essa imagem já diz mais sobre o estado atual do futebol mundial do que qualquer planilha de simulação.