O que torna uma seleção incapaz de surpreender numa Copa do Mundo com 48 participantes — o maior torneio da história da competição? Copa do Mundo de 2026 mal completou duas rodadas da fase de grupos e já tem três respostas dolorosas: Haiti, Turquia e Tunísia encerraram suas participações com zero ponto, zero vitória e um acumulado de 13 gols sofridos em apenas seis partidas.
A eliminação precoce dessas três seleções não é um acidente estatístico. Cada uma carregou para o torneio fragilidades estruturais que adversários bem organizados exploram com eficiência cirúrgica. A Tunísia, a mais castigada do grupo, sofreu 9 gols em dois jogos — uma média de 4,5 por partida que a coloca como a defesa mais vazada da competição até agora. Turquia e Haiti, por caminhos distintos, completaram o mesmo destino: despedida silenciosa antes da terceira rodada.
A questão, portanto, não é apenas quem saiu. É entender como essas equipes chegaram ao torneio e por que o modelo de jogo de cada uma se mostrou insuficiente diante de adversários que, embora não sejam potências tradicionais, demonstraram organização defensiva e objetividade no ataque.

O colapso tunisiano — 9 gols sofridos em dois jogos revelam uma crise estrutural
A Tunísia protagonizou o naufrágio mais estrondoso entre as três eliminadas. No Grupo F, a equipe norte-africana foi goleada pela Suécia por 5 a 1 na estreia e, na sequência, sofreu mais uma derrota pesada por 4 a 0 para o Japão. Nove gols sofridos, um marcado, nenhum ponto conquistado: os números sintetizam uma campanha que expôs fragilidades defensivas crônicas.
A Tunísia chegou à Copa com um sistema que dependia de pressão alta e transições rápidas — um modelo que exige atletas com alto índice de recuperação física e precisão técnica nos passes curtos. Contra a Suécia, que explorou os espaços deixados pelas subidas do time tunisiano, o esquema desmoronou já no primeiro tempo. Diante do Japão, a equipe entrou em campo psicologicamente comprometida e foi sistematicamente desmontada pelo jogo posicional japonês, que circulou a bola com paciência até encontrar as aberturas na linha defensiva adversária.
"Não há explicação técnica que justifique 9 gols sofridos. Isso é um problema de mentalidade coletiva", analisou um membro da comissão técnica da federação tunisiana, segundo relatado por jornalistas credenciados no torneio.
O Grupo F — de onde deve sair o adversário do Brasil nas oitavas de final — revelou que Suécia e Japão operam em nível muito superior ao que a Tunísia conseguiu apresentar. A diferença não foi apenas de qualidade individual, mas de maturidade tática e capacidade de adaptação durante os 90 minutos.
Haiti e Turquia — trajetórias diferentes, diagnóstico semelhante
No Grupo C, o Haiti — que retornava à Copa do Mundo 52 anos depois de sua única participação, em 1974 — estreou com derrota por 1 a 0 para a Escócia e foi eliminado matematicamente após perder para o Brasil por 3 a 0. A equipe caribenha chegou ao torneio com limitações amplamente conhecidas: elenco de base formado majoritariamente por jogadores de ligas de segundo escalão da Europa e América do Norte, sem um sistema tático consolidado e com tempo reduzido de preparação conjunta.
Contra o Brasil, o Haiti — que havia demonstrado alguma organização defensiva diante dos escoceses — foi incapaz de sustentar o bloco baixo por mais de 30 minutos. A pressão brasileira, combinada com a velocidade dos atacantes da Seleção, abriu o placar ainda no primeiro tempo e transformou o segundo tempo num exercício de administração para os brasileiros. O placar de 3 a 0 poderia ter sido mais elástico.
A Turquia, no Grupo D, apresentou o caso mais intrigante entre as três eliminadas. Os turcos chegaram à Copa com uma geração de meio-campistas tecnicamente habilidosos e um histórico recente de boas campanhas nas Eliminatórias Europeias. A derrota por 2 a 0 para a Austrália na estreia já foi um sinal de alarme — a Austrália, com sua organização física e transições verticais, desmontou o esquema turco que depende de posse de bola e criação lenta. Na segunda rodada, o Paraguai venceu por 1 a 0 com um gol que expôs a fragilidade da marcação turca nas bolas paradas.
"Tínhamos condições de fazer muito mais. O grupo acreditava na classificação", disse o capitão turco em entrevista à imprensa após a eliminação, sem conseguir esconder a frustração com o desempenho coletivo.
A Turquia — que havia eliminado adversários de peso nas Eliminatórias — demonstrou que o nível de exigência de uma Copa do Mundo ampliada para 48 seleções não significa necessariamente adversários mais fracos. Austrália e Paraguai chegaram ao torneio com planos de jogo específicos e executaram com disciplina o que seus técnicos planejaram.
O que a Copa do Mundo 2026 já ensina sobre o novo formato com 48 seleções
A eliminação simultânea de Haiti, Turquia e Tunísia na segunda rodada levanta uma questão estrutural sobre o novo formato da competição. Com 48 seleções participantes — contra as 32 do modelo vigente desde 1998 — a FIFA apostou numa diversidade geográfica maior. Mas as primeiras rodadas revelam que a expansão não nivelou o campo competitivo: ela apenas inseriu mais seleções no torneio sem necessariamente elevar o nível de competitividade dos grupos.
O novo regulamento — que classifica 32 das 48 seleções para o mata-mata, incluindo os oito melhores terceiros colocados — foi desenhado justamente para dar mais chances a equipes de menor tradição. Ainda assim, as três eliminadas desta semana não conseguiram aproveitar nem a margem extra que o formato oferece. Uma vitória sequer teria mantido as esperanças vivas até a terceira rodada.
O mata-mata começa em 28 de junho, com os 16 avos de final se estendendo até 3 de julho. As oitavas de final ocorrem entre 4 e 7 de julho, as quartas entre 9 e 11 de julho, as semifinais nos dias 14 e 15 de julho, e a grande final está marcada para 19 de julho no MetLife Stadium, na região de Nova York/Nova Jersey. Haiti, Turquia e Tunísia assistirão a esse calendário de fora — e a pergunta que fica para seus departamentos técnicos é: em qual ciclo de quatro anos essas seleções terão condições reais de chegar a um torneio com competitividade para avançar além da fase de grupos?








