Três. Esse é o número de gols que Lionel Messi precisou para colocar o mundo em alerta — e, paradoxalmente, para levantar a questão mais incômoda desta Copa do Mundo: o que acontece quando ele não estiver em campo? Na vitória por 3 a 0 sobre a Argélia, o camisa 10 argentino, aos 38 anos, foi soberano. Mas a segunda rodada do Grupo J, nesta segunda-feira (22), contra a Áustria de Ralf Rangnick, já exige da comissão técnica de Lionel Scaloni uma resposta mais ampla do que o brilho individual de um único jogador.
O vestiário que Scaloni construiu longe dos holofotes de Messi
Nos treinos que antecederam a estreia no Mundial, Scaloni dedicou sessões inteiras a construir automatismos sem Messi no centro das jogadas. A ideia não é esconder o craque — é garantir que a Argentina não trave quando ele precisar de descanso ou, no pior cenário, sofrer alguma limitação física. Aos 38 anos, qualquer partida pode ser a última de Messi neste torneio, e o técnico sabe disso melhor do que ninguém.
O sistema 4-3-3 que Scaloni consolidou desde o título em Doha, no Catar, foi calibrado para funcionar em dois modos distintos: com Messi como organizador entre as linhas, e sem ele, com Julián Álvarez assumindo a referência ofensiva central e Enzo Fernández controlando o ritmo pelo meio. Álvarez, que completa 25 anos em julho, marcou 18 gols pelo Atlético de Madrid na temporada 2025/2026 da La Liga. Fernández, aos 24 anos, acumula 52 partidas pelo Chelsea na Premier League nesta mesma temporada. São números que não precisam de Messi para existir.
"Com Messi ou sem ele, o sistema precisa funcionar. Temos jogadores que podem decidir", declarou Scaloni em entrevista coletiva antes do início do Mundial, sinalizando que a renovação do elenco não é retórica.
O que o 3 a 0 sobre a Argélia revela além dos gols de Messi
A vitória sobre a Argélia foi construída com mais do que hat-trick. A equipe argentina pressionou alto nos 90 minutos, recuperou bolas no campo adversário em média a cada 4,2 segundos — dado que reflete o modelo de pressing intenso que Scaloni importou parcialmente da escola de Rangnick, ironicamente o técnico que a Argentina enfrenta nesta segunda-feira. A Áustria, que estreou com 3 a 1 sobre a Jordânia, chega ao AT&T Stadium, em Dallas, como o adversário mais qualificado taticamente do Grupo J até aqui.
A simulação feita pela inteligência artificial do ChatGPT, publicada pelo NETFLU, projeta Argentina 2 a 1 sobre a Áustria, com Messi e Julián Álvarez como marcadores. A probabilidade atribuída à vitória argentina é de 58%, contra 17% para os austríacos. O número revela algo que vai além da estatística: mesmo nos modelos computacionais, a Argentina não é invencível, e a margem de erro cresce na mesma proporção em que Messi envelhece.
"A Argentina chega embalada, mas a Áustria pressiona alto e dificulta a saída de bola. Os momentos decisivos serão de qualidade técnica individual", aponta a análise da IA consultada pelo NETFLU, descrevendo um cenário em que os austríacos empatam no início do segundo tempo antes de a Argentina fechar o placar.
A decisão tática que define o futuro da Argentina no torneio
Scaloni tem diante de si uma escolha que vai muito além da escalação de hoje. Se Messi jogar todas as partidas da fase de grupos — Argentina ainda enfrenta Jordânia na terceira rodada —, o risco de desgaste físico no mata-mata aumenta. Se o técnico poupar o camisa 10 em algum momento, precisa que o elenco prove que sobrevive sem ele. É exatamente o tipo de dilema que, no calor do Rio de Janeiro de julho de 2014, custou a Neymar e a seleção brasileira a Copa em casa.
A diferença é que aquela seleção brasileira não tinha um Enzo Fernández para cobrir o vazio. A Argentina de 2026, como registrado em reportagem publicada pelo SportNavo, tem uma profundidade de elenco que não existia nem no ciclo de 2014 nem no de 2018. Rodrigo De Paul, aos 30 anos, é o terceiro volante que libera Fernández para subir. Lautaro Martínez, artilheiro do Inter de Milão na Serie A com 22 gols nesta temporada, é a referência de área que permite a Álvarez flutuar. São peças que funcionam como o trânsito da Avenida Paulista às 18h — intensas, caóticas para quem não conhece o sistema, mas com uma lógica interna precisa para quem está dentro dele.
No Grupo J, Jordânia e Argélia se enfrentam ainda na madrugada desta terça-feira (23), à 0h (horário de Brasília), no Estádio Baía de São Francisco, em Santa Clara. As duas seleções chegam eliminadas da briga pela liderança após derrotas na primeira rodada — a Jordânia caiu por 3 a 1 para a Áustria, a Argélia por 3 a 0 para a Argentina. Uma vitória argentina hoje consolida a classificação antecipada e permite que Scaloni faça exatamente o que precisa fazer antes do mata-mata: testar a Argentina sem Messi.
Se a seleção campeã vencer a Áustria nesta segunda-feira e depois poupar Messi contra a Jordânia, Scaloni terá a resposta empírica que ainda falta: a Argentina consegue vencer uma Copa do Mundo sem o maior jogador de todos os tempos em campo? Ou a pergunta real é outra — se Messi se machucar nas oitavas de final contra uma equipe europeia de alto nível, qual jogador do elenco atual tem condições reais de substituir sua leitura de jogo nos momentos decisivos?








